Conecte-se conosco

Luta feminista perde sua mais expressiva líder em SC

Publicadoo

em

À frente do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Urbanas, do qual foi fundadora, há cerca de 15 anos

Ela lutou desde muito jovem contra o machismo e o assédio moral no trabalho e atuou como fundadora na organização das mulheres trabalhadoras urbanas em seu estado. Coordenadora do coletivo feminista 8M em Santa Catarina, Schirlei de Azevedo foi uma das mais vigorosas e atuantes lideranças das lutas feministas contra o Golpe de 2016, a reforma da previdência e a retirada de direitos dos trabalhadores. Ajudou a organizar as mulheres pelo Fora Temer, a perda dos direitos que se seguiu e o #EleNão para evitar a tragédia maior que se consumou com a eleição de Jair Bolsonaro. Presidenta do Diretório Municipal do PT, formada em Pedagogia pela Udesc, encabeçou também os movimentos contra a mordaça dos professores, os cortes na educação e o fechamento de escolas públicas na capital.

Desde o início do ano enfrentava também uma doença renal e depois o câncer que a abateu em pleno vigor, na juventude revolucionária dos seus 53 anos. Schirlei se foi na sexta-feira à noite, enquanto assistíamos na arquibancada da quarentena ao desmonte da farsa do golpe e do crime eleitoral no ringue Sérgio Moro X Bolsonaro. Partiu silenciosamente, na noite do Brasil, quando poderia vislumbrar o começo do fim de uma familícia que tanta infelicidade trouxe para ela e para os seus povos.

Até ser internada em 22 de fevereiro deste ano, no Hospital Governador Celso Ramos, para retirada de um rim, Schirlei de Azevedo do Amaral Ribeiro estava nas ruas, liderando protestos contra o assassinato de Marielle Franco e outros feminicidios, a violência LGBT, o ataque aos territórios indígenas e quilombolas, a criminalização do aborto. Do sexto andar do Hospital ela participou dos panelaços do Fora Bolsonaro e, com ajuda do filho Rodrigo do Amaral, mandava mensagens para as companheiras e companheiros insistirem na derrubada do governo miliciano.

Ainda se recuperando da cirurgia, descobriu um tumor agressivo no cérebro e desde a cama do HGCR, sua luta passou a ser por uma vaga no Hospital do Cepom, referência no tratamento oncológico, o que só ocorreu no dia 3 de abril, com a mobilização dos amigos. Chegou a escrever um artigo sobre a uberização do trabalho, para provocar debate com as companheiras. Um recado de Rodrigo no Facebook dá o tom da líder consciente que ela era, incapaz de se desplugar das dores do mundo. “Mãe está pedindo, com aquele jeitinho todo dela, que vá todo mundo pro Rio Vermelho abraçar o Quilombo Vidal Martins, principalmente as crianças de lá”. Era um dia de manifestação pela regularização das terras do quilombo e Schirlei deu o comando a distância:

“Aquela é uma conquista rara e muito cara para nós (povo de Florianópolis) e em terras de grande valor e exploração imobiliária. É lá, pisando naquela terra, cuidando da nossa gente, alimentando, garantindo segurança e aconchego é que devemos estar, não em hospital”.

 

Da cama do hospital, Schirley mandava mensagens de estímulo à luta das mulheres e trabalhadores

Foram tantas as frentes de resistência que ela abraçou que seria impossível rotular sua trajetória em uma designação menos plural do que esta: líder feminista. Como assessora parlamentar na Alesc, foi a idealizadora do projeto resultante na lei que baniu o uso do amianto em Santa Catarina.

A vida desta lutadora foi marcada pelo lastro de retrocessos que se seguiram aos períodos de vitória democrática e conquistas de direitos por sua geração. Já em 2004, atuou nas frentes por ampliação do espaço da mulher na política e se candidatou à vereadora pelo Partido dos Trabalhadores de Florianópolis. Como militante do partido, enfrentou a prisão do ex-presidente Lula da Silva, contra a qual encampou férrea batalha. Vitoriosa nas eleições para presidente do Diretório Municipal do PT em Florianópolis, realizadas do ano passado, assumiu o cargo em 29 de setembro, mas foi obrigada a se afastar cinco meses depois por causa da doença renal e do câncer que se revelou com metástase.

Foram muitas as derrotas, mas ela sempre fez de todas elas um motor para a batalha seguinte. Enfrentou essa sequência sofrida de eventos com o braço erguido em punho e um sorriso de confiança na próxima batalha. Difícil esquecer as lágrimas de Schirlei ao discursar em evento dedicado à defesa do Estado Democrático e de Direito promovido pela bancada parlamentar de esquerda da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, que ela assessorava. Era véspera do golpe de 2016. Impossível não visualizá-la agora falando com a voz embargada que, depois de tanta luta das mulheres e das classes trabalhadoras para redemocratizar o país e conquistar direitos sociais, não queria deixar o Brasil sombrio que se avistava para os filhos e netos.

Coletivo 8M muito deve à liderança amorosa de Schirlei, capaz de aglutinar todas as forças

A pantera loira que lutava contra a supremacia racial desempenhou um papel importantíssimo como representante da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Vítimas de Assédio Moral na Brasil pela Telecom, participando de audiências públicas e prestando assessoria a sindicatos trabalhistas de todo estado. Também foi coordenadora do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Urbanas em Santa Catarina desde a sua fundação. Embora transparente na sua definição partidária, era a líder feminista que melhor conseguia agregar todos os grupos de mulheres e nos fazer sentir parte de uma única comunidade de resistência, colocando em segundo plano nossas diferenças ideológicas em favor da união das esquerdas. Deixou três filhos , Matheus, Thiago e Rodrigo e a neta Sophia, todos sementes dessa vida dedicada à transformação.

O velório ocorreu neste sábado, 25/04, das 10 às 12 horas, no Crematório do Cemitério Jardim da Paz, em Florianópolis, com a homenagem dos amigos, que entraram de máscaras, em rodízio de dez pessoas em cada vez para prestar sua última homenagem à líder amorosa, uma das mais expressivas que Santa Catarina já teve.

Abaixo, uma das incontáveis entrevistas realizadas pelos Jornalistas Livres com a grande líder.

 

 

PT Santa Catarina

9 h · 

NOTA DE PESAR DO DIRETÓRIO DO PT SANTA CATARINA

O Partido dos Trabalhadores de Santa Catarina comunica com profundo pesar o falecimento da companheira, Schirlei Azevedo.

Schirlei nos deixou na noite desta sexta-feira, dia 24, depois de lutar bravamente contra um câncer desde fevereiro.Natural de Florianópolis, *Schi,* como era carinhosamente chamada, era atual presidenta do PT da Capital e uma das maiores militantes feministas do partido. Filiada ao PT desde 1988, trabalhou na área das telecomunicações, onde chegou a presidir o Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing e disputou as eleições municipais de 2004 e 2008, como candidata a vereadora. Também trabalhou por muitos anos como assessora na liderança da Bancada do PT na Assembleia Legislativa.

Foi uma das fundadoras do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Urbanas SC (MMTU) e uma das maiores defensoras das bandeiras feministas. Atou na linha de frente em importantes mobilizações e pautas que tinham o objetivo de garantir os direitos das trabalhadoras e trabalhadores. Luta, organização e militância política faziam parte do seu dia a dia.

“Sou uma mulher do PT”. Assim que ela se intitulada em sua página na rede social e assim Schirlei era conhecida. Apaixonada pela causa, ela sempre esteve na linha de frente na discussão de importantes debates do partido e estava vivendo um dos momentos mais felizes de sua vida: presidenta do seu partido, na sua cidade. Um sonho e uma missão dessa mulher que sempre nos acolheu com um lindo sorriso no rosto.

A imagem pode conter: 1 pessoaSchirlei também fazia parte do Coletivo de Formadoras da Escola Nacional de Formação do PT da Secretaria Nacional das Mulheres e era formadora da Escola Perseu Abramo nos temas mulheres e feminismo. Uma mulher guerreira que seguiu assim até os últimos minutos de sua vida.

Nos deixou um legado de luta pelos direitos dos menos favorecidos, especialmente das mulheres. Com seu jeito amável e generoso, lutava incansavelmente para que as mulheres tivessem voz e espaço no mundo, assim como ela conseguiu ter. Compartilhava seus saberes e sempre estava disposta a ajudar.

Mulher, feminista e extremamente dedicada nos deixa um belo legado e sem dúvida será seguido para todas, todes e todos que acreditam que mundo melhor é possível.

O Partido dos Trabalhadores de SC lamenta profundamente sua prematura partida e manifesta condolências a familiares, companheiras especialmente a sua mãe Sueli, seus filhos Matheus, Thiago e Rodrigo e sua paixão, a neta Sophia.

SCHIRLEI, PRESENTE!

Décio Lima
Presidente do PT-SC

 

 

NOTA DE PESAR PSOL FLORIANÓPOLIS

Com profunda tristeza recebemos a notícia de que a companheira Schirlei Azevedo, presidenta do PT de Florianópolis, nos deixou nesta sexta-feira, 24 de abril. Ela enfrentava um câncer e estava internada desde fevereiro.
Natural de Florianópolis, Shirlei foi militante feminista, filiada ao PT desde 1988. Trabalhou na área das telecomunicações, onde chegou a presidir o Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing. É uma das fundadoras do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Urbanas SC e disputou as eleições municipais de 2004 e 2008, como candidata a vereadora.
Em nome do PSOL, nos solidarizamos com a família, amigos e com a militância do PT nesse momento de dor.

Schirlei Azevedo, presente!
Florianópolis, 25 de abril de 2020

Diretório Municipal do PSOL

 

Secretaria Mulheres PT/SC

3 h · 

NOTA DE PESAR DA SECRETARIA DE MULHERES DO PT/SC

A imagem pode conter: 2 pessoasA Secretaria Estadual de Mulheres do PT-SC se despede da nossa grande lutadora, Schirlei Azevedo, nossa mulher de luta! Se despedir de alguém como a Schirlei é muito doloroso, ela faz parte das pessoas imprescindíveis, que acolhia a todas com um abraço e um sorriso. Não tê-la em vida, no fronte, na organização nos fará muita falta!

Feminista e leal ao seu Partido e à causa das Mulheres, a nossa guerreira lutou até o último instante pela vida e nos deixou um legado. Filiada ao Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras desde 1988, a organização das mulheres petistas em Santa Catarina tem muito da Schirlei! Militou no movimento sindical e na denúncia das doenças relacionadas ao trabalho, a favor do SUS e contra toda forma de violência e pela pauta das mulheres. Foi uma das fundadoras do Movimento das Mulheres Trabalhadoras Urbanas – MMTU. Integrou a organização do 8M em Santa Catarina. Fazia parte do Coletivo de Formadoras da Escola Nacional de Formação do PT e Formadora da Escola Perseu Abramo. Integrante da Secretaria Nacional de Mulheres do PT, da Secretaria Estadual de Mulheres do PT e recentemente foi eleita a Presidenta do PT de Florianópolis.

Uma mulher de luta! Não tê-la em vida com a gente, será muito dolorido, mas vamos continuar a sua trajetória, pelas nossas vidas, das nossas irmãs, das nossas mães, das nossas tias, das nossas filhas, das nossas primas, das nossas amigas, enfim por todas as mulheres. A Schirlei não ia querer que a gente parasse, até que todas estejam livres!

Vamos resistir pelas futuras gerações de mulheres que merecem nascer e viver num lugar mais justo. Vamos lutar o quanto for preciso. E vamos, sim, mudar o mundo, e a Schirlei estará na nossa mente. Agora ela se transforma em força para cada mulher petista, se torna inspiração de resistência e de compromisso!

Sem poder nos abraçar, justamente na despedida de quem o abraço era tão acolhedor, nós trocamos energia de todos os cantos do estado e saudamos a vida da nossa companheira Schirlei. Nos solidarizamos aos filhos, a neta, a sua mãe, a todos os familiares e amigas e amigos.

Vá em paz, Companheira Schirlei! Gratidão por toda a luta! Nós seguiremos com você em nossos corações!

Schirlei PRESENTE, hoje e sempre!

Coletivo da Secretaria Estadual de Mulheres do PT-SC.

   

MANIFESTO DE SOLIDARIEDADE E PESAR

A Esquerda Popular Socialista – EPS do Partido dos Trabalhadores de SC manifesta seu profundo pesar pelo falecimento da companheira, Schirlei Azevedo.

Lutando contra um câncer desde fevereiro, Schirlei nos deixou na noite desta sexta-feira, dia 24. Schirlei deixa um grande legado de compromisso e lutas da classe trabalhadora em nossos estado e no país.

Filiada ao PT desde 1988, presidiu sindicato, foi candidata a vereadora e trabalhou na liderança do PT na ALESC durante muitos anos. Sua atuação e sua história à conduziram para assumir presidência do PT de Florianópolis.

Acima de qualquer luta estava sua dedicação ao PT e a defesa das bandeiras feministas, “uma mulher do PT”, como ela mesma se definia.

A militância de Schirlei ficará marcada na história do Partido dos Trabalhadores. A militância desta mulher, protagonista de seu tempo, formadora, guerreira, acolhedora, e que com generosidade compartilhava saberes e vivências.

Neste manifesto, celebramos à sua vida e reverenciamos a sua memória.

Somos gratos pelo privilégio de poder ter contado durante esses anos com seu exemplo e engajamento nas lutas de nosso povo pela construção de uma sociedade democrática e justa.

Aos familiares, sua mãe Sueli, seus filhos Matheus, Thiago e Rodrigo e sua paixão, a neta Sophia, companheiras e companheiros de luta a EPS manifesta sua solidariedade nesta hora de dor.

SCHIRLEI, PRESENTE, SIGA EM PAZ SUA JORNADA

Florianópolis, 25 de Abril de 2020.

ESQUERDA POPULAR SOCIALISTA DO PARTIDO DOS TRABALHADORES (EPS-PT)

 

  

Continue Lendo
3 Comments

3 Comments

  1. Gilberto Barros

    25/04/20 at 13:40

    Que uma revoada de anjos conduz o espírito dessa guerreira para a luz. Deus ampara e conforta os corações dos entes queridos e amigos dela.

  2. Valeria Dallegrave

    25/04/20 at 17:20

    Grande guerreira. Belo texto-homenagem. Seguimos em frente, por nós, por ela, pelos que virão…

  3. Weimar Donini

    26/04/20 at 1:16

    Batalhadora incansável. Fará muita falta!

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending