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Ex-presos políticos avaliam o passado e o presente em antiga sede do Deops
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12 anos atrásem

Três militantes visitam o Memorial da Resistência com nossa equipe de reportagem. Eles relatam o passado de prisão e tortura; comentam os pedidos de intervenção militar no presente e reafirmam: golpe nunca mais no futuro.
Sou o Memorial da Resistência de São Paulo. Talvez você não me conheça, mas faço parte de uma história importante deste país. Uma história que nunca deve ser esquecida, para que se faça justiça aos 434 mortos e desaparecidos que dela decorrem. Sou um edifício inaugurado em 1914 para abrigar os escritórios e armazéns da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana, no centro da capital paulista.
No entanto, alguns anos depois acabei me tornando uma das sedes do aparato de repressão do Estado brasileiro, o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP). Esse órgão passou a funcionar em 1924, com a finalidade de controlar os trabalhadores, reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao poder. Mas foi durante a ditadura militar que o Deops se tornou de fato uma polícia política.
Diversos militantes políticos no período da ditadura militar (1964–1985) foram presos, torturados e mortos dentro das minhas paredes. Em 1964, os presos políticos eram trazidos aqui. Já depois de 1969, eles vinham após o período que eram submetidos a prisões políticas na Operação Bandeirantes (OBAN) ou no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi).
Estar aqui servia para legalizar as prisões, que não eram oficiais nos outros órgãos repressores: eram feitos os inquéritos oficiais e tomados os depoimentos formais.
No segundo andar ficavam salas nas quais se torturavam pessoas. O delegado Sérgio Fleury, que se tornou um torturador mais notório que qualquer militar, perseguia militantes e matou muitos deles por meio da tortura, tinha uma sala neste andar.
Desde 2005, passei de símbolo da opressão e medo ao símbolo da resistência e da memória. Transformei-me em uma homenagem a todos que lutaram, muitos dos quais perderam suas vidas, para que o Brasil se tornasse um país democrático, e para que a sociedade nunca se esqueça do que foi o horror da ditadura.
Visitando o passado
Na semana em que o golpe militar completa 51 anos, recebi a visita de três militantes e ex-presos políticos, não para serem interrogados ou presos, mas para dividirem suas histórias de vida, as suas lutas contra o regime militar e contra os resquícios que essa ditadura deixou na sociedade brasileira. São eles: Aton Fon Filho, Maria do Carmo Gomes e Sebastião Neto.

Aton Fon Filho é advogado. Defende causas relacionadas a movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ele me visita com frequência para dar palestras e acompanhar exposições. Fon atuou na Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização coordenada por Carlos Marighella. Foi preso aos 22 anos, ficando na cadeia por nove anos, 11 meses e três dias. “Não fala que é dez anos! Já fiquei muito tempo preso, não me dá mais 27 dias”, brinca. Foi torturado. Entre as sequelas, perdeu a audição do ouvido direito.
Mesmo dentro da cadeia, continuou na luta contra a ditadura. “Não dá para falar da prisão como uma única coisa. Tem três períodos distintos. O primeiro é o momento da prisão, em que o objetivo era obter informações para prender outros membros da organização. Foi o período mais duro, porque demandava resistência nossa para não entregar informações dos outros companheiros, e tínhamos dúvidas se sobreviveríamos à tortura que enfrentávamos. O segundo momento é quando temos a garantia na prisão e estabelecemos novas metas. No caso da ALN, definimos que mesmo presos tínhamos um papel a cumprir na luta, lá de dentro. Fazíamos denúncias do que se passava nas cadeias, das pessoas que desapareciam, e protegíamos companheiros que eram presos. O terceiro momento é quando víamos sinais de debilidade da ditadura, mostrando que ela ia ser superada naquela fase, e apoiamos o movimento de anistia e a luta pelas diretas, ao sair da cadeia”, relata.
A outra visitante foi a mineira Maria do Carmo Gomes, que militou na Oposição Metalúrgica, entidade operária que se colocava contra a ditadura militar e contra os sindicatos, aliados aos setores patronais à época.

Participou das lutas contra a ditadura no final de 1978 e 1979. Hoje é aposentada e colabora com o Núcleo de Memória do Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas (IIEP). Trata-se de uma iniciativa que atua, entre outros temas, com projetos ligados ao registro da repressão dos anos de chumbo dentro de fábricas paulistas.
“Na época do golpe eu era pequena. Mas lembro do meu pai, que era um lavrador semianalfabeto do Vale do Ribeira, ouvindo um radinho de pilha com a testa franzida, e ele dizia: ‘coisa boa não vem pra nós’. A partir daí a gente já tinha aquelas recomendações. ‘Se estiver na estrada e vir um caminhão, pula no meio do mato, se esconde porque o Exército está por aí’. Então a gente já veio com esse medo na cabeça para São Paulo, mesmo não sabendo direito o que estava acontecendo. A ditadura é uma coisa que modificou completamente minha vida. Me fez criar consciência e ir para a luta”, afirma.
Ao lado de Fon e de Maria do Carmo nesta visita estava Sebastião Neto. Ele também foi operário e membro da Oposição Metalúrgica. Nascido em Goiás, vive há 44 anos em São Paulo. Foi preso na ditadura quando jovem por seis meses. “Mas de cadeia, basta um dia. Pois é nesse um dia que vão tentar te quebrar”, conta.

Neto viveu clandestino até se tornar operário. Trabalhou mais de 20 anos nas fábricas metalúrgicas, foi dirigente da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e hoje se dedica ao IIEP, nas ações de relacionadas à memória operária.
Hoje, Neto cobra que o Estado continue os trabalhos iniciados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).
“A maior falha da CNV é não ter continuidade, no sentido de justiça e reparação e não apontar os responsáveis civis que também tiveram papel no golpe, que o financiaram. Haviam órgãos civis que existiam há cinco anos antes do golpe e o apoiaram ativamente, criando um sistema de comunicação entre as empresas, organismos de estados e as forças de repressão como o Deops”.
Raízes da ditadura
Os três militantes acreditam que o golpe militar, articulado com grandes empresários e organizações civis que representavam interesses das elites, se deu para frear um momento no qual os trabalhadores brasileiros lutavam por direitos e participavam ativamente da vida política.
“A ditadura foi uma vitória das forças imperialistas não só no Brasil, como na América Latina. Nos anos anteriores ao golpe, os trabalhadores viviam um processo que buscava reformas estruturais que libertassem nosso país da colonização ao qual ele era submetido. A ditadura foi uma repressão dessas tentativas dos trabalhadores. E, para efetivar essa repressão, é que se valeram de torturas e assassinatos”, afirma Aton Fon Filho.
Maria do Carmo destaca a situação enfrentada pelas mulheres operárias nos anos de chumbo. “A mulher trabalhadora sofria de forma violenta na ditadura. A exploração da mão de obra da mulher era muito importante para as fábricas, porque elas faziam o trabalho de produção de forma hábil, por um salário muito menor que o dos homens. A luta da mulher era observada a todo momento pelos patrões, e qualquer movimento a mais, éramos demitidas. Duas mulheres não podiam ir ao mesmo tempo ao banheiro, não porque ‘diminuiria a produção’, mas para não se encontrar e conversar”, relata.
Contar essa história de repressão e horror é um desafio na opinião de Sebastião Neto. “Não é fácil explicar o que foi a ditadura para quem viveu sempre na democracia. Você não tem direito a nada na ditadura. A repressão política impede que o povo pense e se organize. A ditadura criou um novo regime fabril: nenhuma liberdade, intensificação da jornada de trabalho e a pior legislação possível. O golpe foi dado para explorar com mais eficiência a classe trabalhadora do campo e da cidade”, diz.
Fon alerta que, apesar da transição democrática, resquícios da ditadura ainda existem, em todas as esferas da sociedade brasileira. “Não podemos falar que a ditadura militar foi. Muitas das suas repercussões permanecem entre nós. A ditadura se prolonga porque o projeto que foi estabelecido por Ernesto Geisel em 1974 de uma transição lenta, gradual e segura foi e continua sendo bem sucedido, criando até mesmo na cabeça dos que são militantes de esquerda, que buscam a igualdade, o medo”.
Já para Neto, “a democracia não significa ausência da ditadura. Assassinatos de pobres e negros ocorrem com frequência devido à violência policial, trabalhadores são assassinados — pelo menos 1.200 trabalhadores foram assassinados no campo na ditadura; mas para não ficar muito longe, em 1986, no governo Sarney, foram mortos 280 trabalhadores rurais. Além disso, criou-se a cultura da tortura nas delegacias”.
Golpe nunca mais

No dia 15 de março de 2015, milhares de pessoas convocadas pela direita saíram às ruas. Entre os alvos das manifestações estavam a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Em faixas e cartazes, parte de quem foi aos protestos de verde e amarelo pedia a volta dos militares ao poder.
Fon acredita que muitas pessoas que estavam no ato não tinham plena consciência do porquê de estarem lá. “Tenho certeza que muitos que estavam lá não tinham muita ideia do que faziam ali. Digo isso porque participei da Marcha da Família em 1964 sem saber o que era. Saí do trabalho mais cedo, fomos liberados, fui pra lá e quando vi, estava segurando uma faixa. Notei que estava indo na direção de volta ao trabalho, abandonei e voltei pra casa. Se eu fiz isso, imagino que outras pessoas possam ter feito”.
Maria do Carmo concorda. “Eu peguei uma foto da Marcha da Família e comparei com a manifestação do dia 15. A conjuntura de hoje é diferente. Não temos guerra fria, não há a desculpa do ‘perigo do comunismo’. É uma minoria que pede intervenção militar. O povo que foi às ruas tem uma insatisfação com o governo e o rumo do país, mas não é o mesmo de 1964.
“Só um tolo quer uma ditadura, porque ela atinge todo mundo. Mas não me espanta pessoas irem às ruas pedir isso. Como diz um amigo meu, foi um ato contra a ‘abolição da escravatura’. O que me incomoda é que a esquerda está perdendo contato com a sua base, com dificuldades de chegar às pessoas e ter um instrumento político que sirva aos trabalhadores e ao povo pobre”, comenta Neto.

Da memória à resistência
A ditadura militar, com toda sua violência e repressão, foi capaz de acabar com a vida de muitas pessoas e até ideais. Muitas delas aqui, nas minhas salas e celas.
Os que conseguiram sobreviver e resistir relatam hoje, em diversos espaços e iniciativas, esse passado para que ele não se repita. Fon, Neto e Maria do Carmo são apenas três.
Mas não são só militantes que resistiram, são também a memória viva da repressão e da luta contra a ditadura no Brasil, assim como outras milhares de pessoas que lutaram contra o regime.
E essa luta abriu caminho para todos aqueles que nasceram na democracia, conhecem o passado de seu país e reivindicam no presente um futuro diferente, para que tudo que aconteceu aqui, dentro de mim, nunca mais se repita.
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Narcorrachadão das Américas, o escudo
De Serra Pelada ao narcogarimpo continental. Prometem combater o crime. Mas quem fica no controle?
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17 horas atrásem
22/10/26
Narcogarimpo. Comércio de ouro, de fachada, para lavar o dinheiro sujo do narcotráfico.
O que poucos sabem, quase ninguém, é que o narcogarimpo começou por volta de 1981,
em Serra Pelada. Com gente chegando de tudo quanto era canto, o regime militar logo
enviou, ainda em maio de 1980, interventor federal para botar ordem na bagunça, Major
Curió. E ele botou. Proibiu a entrada de crianças, mulheres, armas, bebidas. Na cava. Na
cratera em si, no formigueiro humano. Não no Trinta, como ficou conhecida a vila para
onde a balbúrdia migrou, lá do ladinho, no km 30 da rodovia PA-175, e criada só para
isso: institucionalizar a balbúrdia. No Trinta, aí sim, era tudo liberado. Criança, arma,
cachorro, whisky falsificado, ouro ilegal, consumo e tráfico de cocaína, festinha do
Vorcaro. O sucesso do narcogarimpo foi tão grande que a vila acabou virando cidade e a
cidade foi batizada em homenagem a seu maior protetor e patrono: Curionópolis. Pois é.
O narcogarimpo nasceu junto com a narcomilícia. Mas, hoje, juram de pés juntos que
querem criar um Escudo das Américas para nos proteger dos “narcoterroristas”.
Procura-se: Fabrício Queiroz. Lembra? Mais conhecido como o pivô assumido (1) do
esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio, o Bolsonaro.
Caladinho até dia desses, agora resolveu aparecer todo pimpão falando que “já se
movimenta”, dando como certa a vitória do patrãozinho. (2) Prefiro nem imaginar Queiroz se
movimentando, a tirar por Bolsonaro Pai fazendo flexão. De todo modo, a dúvida: estaria
se movimentando sozinho? Ou se movimentando com os mesmos comparsas de sempre,
só esperando para transformar o país num narcorrachadão?
Adriano da Nóbrega, Ronnie Lessa, Peixe, tudo piaba, não, nem estou me referindo a
esses, não. Falo de um Alessandro Pitombeira Carracena, por exemplo, que só anda com
ilustres cações. Apontado como cúmplice do Comando Vermelho. Sabe? Aquele clubinho
de biriba, domingo de sol no parque. Era secretário de Esportes e de Defesa do
Consumidor do ex-governador Cláudio Castro, com acesso a informações privilegiadas, ao ser preso por vazar justo esses dados, no caso, sobre operações na Maré, no Complexo do Alemão. (3) A Polícia Federal o descreveu como “verdadeiro integrante” do CV, transcendendo os limites do exercício lícito da advocacia. (4) Gente finíssima, o Carracena. Grande biribeiro. Adivinha quem o indicou a Cláudio Castro? O Queiroz? Não, não foi o Queiroz. Foi o Flávio. Ele mesmo. O Bolsonaro. (5)
Até aí, espero, novidade nenhuma. Mal molhei o bico. O papel de Carracena no esquema
com o Comando Vermelho era “apenas” complementar, o X9 da turma, quem entregava
as cabeças dos policiais honestos, bucha de canhão, numa bandeja aos traficantes. O
responsável pela articulação política e financeira era outro, TH Joias. Era Joias quem,
segundo o Ministério Público do Rio, intermediava a compra de armamento pesado,
drogas e dispositivos antidrones para o CV. (6) Agora, adivinha de quem TH Joias era aliado de primeira hora? Então. Do Flávio. Aquele. O Bolsonaro. (7)
O contato direto de Joias dentro do CV, conforme foi descoberto na Operação Zargun, da
Polícia Federal, era Gabriel Dias de Oliveira, mais conhecido como Índio do Lixão,
assessor parlamentar de TH (8) e com quem Joias negociava armas, drogas, cinco milhões
de reais convertidos em dólares para a facção. (9) Fartas provas, com direito a videozinho
que Índio recebeu de TH Joias, duzentos quilos de maconha. (10) Faltou a selfie com joinha,
tudo bem, mas um belo vídeo mesmo assim. Didático. Pena não ter videozinho também
dos cento e quarenta e oito quilos de cocaína que TH teria transacionado com Pezão. (11)
Luciano Martiniano da Silva. (12) Quem estava acima de todos no bando, “no topo da
estrutura”, segundo o Ministério Público Federal.
Resumindo, para ficar facinho de entender: Carracena e Joias formavam o “núcleo de
liderança política” do esquema, e os dois estavam “sob a supervisão dele”, de Pezão. (13)
Percebe? Tanto o sujeito que Flávio, o Bolsonaro, indicou para secretário de Castro
quanto o aliado de primeira hora de Flávio, o Bolsonaro, eram subalternos de Pezão, o
cara que traficava armas do Paraguai (14) , drones e equipamento antidrone da China (15) ,
cocaína do… do próprio TH. E, se era Pezão que supervisionava TH e Carracena, nova
dúvida: quem supervisionava Pezão?
Não sei. Mas olha que coincidência: sabe quem também foi preso por suspeita de
participar da organização criminosa, apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério
Público Federal como liderança do núcleo político do Comando Vermelho? (16) Você deve ter
visto, né, nos jornais? Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, vice de Cláudio Castro.
Balinha de coco ao primeiro que adivinhar de quem Bacellar era o preferido para suceder
Castro como governador. Exato. O filho do homem. Flávio. O Bolsonaro. (17) Vai ter de se
contentar com Douglas Ruas, Flavinho. Ouvi dizer que tem bom currículo, ele, achei
compatível com os empreendimentos do grupo. (18) Boa sorte.
A sorte que Márcio Canella não teve. Preso em flagrante a dois meses das eleições, com
um fuzil no carro. (19) Preso de novo agorinha no dia 15 de outubro, apontado pela PF como
“patrono político e articulador de alto escalão” (20) de uma organização criminosa que
movimentou sete ponto seis bilhões, com B de Bolsonaro, em lavagem de dinheiro via
rede de postos de combustíveis, conexões com milícias, evidente, e com o Comando
Vermelho em Belford Roxo. (21) E quem apoiou Canella como seu pré-candidato ao Senado
pelo Rio, numa chapa com PL, União Brasil e PP? Quem? A mãe de Flávio, o Bolsonaro?
Bem provável, afinal, Rogéria Bolsonaro foi escolhida, uni duni tê, como primeira suplente
de Canella. (22) Natural, o apoio. Natural, filho apoiar mãe e a chapa em que sua mãe é
suplente. (23) Normal. Nada de mais. Flávio, o Bolsonaro, inclusive, se declarou “surpreso”
diante das… desse caso de família todo aí. (24)
A assessoria do candidato à presidência pelo Partido Liberal, a bem da verdade, nega
tudo, relação nenhuma com qualquer dos episódios. Claro que nega. Imagina assumir
relação com cento e cinquenta quilos de cocaína em meio ao segundo turno, relação com
a própria mãe. Caso eleito – bate na madeira –, aí sim, Flávio, o Bolsonaro, poderá
assumir relação, filho, enteado, sogra, sobrinho, sair do armário duma vez e assumir tudo,
tudinho, inclusive o controle absoluto de quem deveria combater o crime organizado o
qual ele jura de pés juntos que irá combater. Eu também negaria. Aliado de primeira hora,
indicado por mim, meu preferido para governador, mas nem conheço. Nunca nem vi.
Inteligência artificial, essas fotos aí. Não tenho barriga. Bora mudar de assunto, bora?
Que tal? Por que vocês da imprensa não falam sobre o avião lá da FAB com trinta e nove
quilos de cocaína, na comitiva do Lula? Perfeito, porque não foi na comitiva do Lula, foi na
comitiva do pai, o Bolsonaro. (25) Eu não disse isso. Acho que vou desmaiar, rapeizo.
De modo geral, é o que costumam fazer. Negar a realidade. Vê o Trump. Disse que tinha
invadido a Venezuela para combater o narcotráfico. (26) Aí, capturou o Maduro e deixou os
traficantes todos lá. Colocou outra presidente no lugar para “supervisionar” os trabalhos,
capaz. Cartel de Los Soles a pleno vapor. (27) Sem comando, será? Os EUA passaram a
controlar o petróleo, (28) querem as terras raras, (29) a Venezuela toda, e justo o cartel de
drogas que era o maior problema do país segue funcionando sem a “supervisão” dos
EUA? Estranho, né? Só eu acho estranho?
De besta que sou. Normalidade é exceção no continente. Da Argentina a El Salvador. É,
meu querido “ancap” (anarcocapitalista, que defende a abolição total do Estado), não adianta sair de fininho, não, pode voltar, senta aí, e trata de ler até o final. Isso, assim, estrelinha na testa. Começo por Bukele ou por Milei? Milei, né? Visitou o Brasil, xingou meio mundo. Uma graça, ele. Amor de pessoa. Deve ter sido por isso que Gastón Alberdi, ex-aliado próximo, revelou numa entrevista que Milei teria lhe confessado já ter “assessorado narcotraficantes” como economista, (30) e que seu contato, Federico Machado, teria sido apresentado como “empresário”. Ia por acaso falar que era traficante?
Não ia. Claro que não ia. Se falasse, José Luis Espert, candidato de Milei à prefeitura de
Buenos Aires em 2025, jamais teria recebido duzentos mil dólares de Machado nem
admitido ter feito míseras trinta e cinco viagens nos aviões dele durante a campanha de
2019. (31) Nunquinha. Milei nega tudo, coisa da oposição. Tal qual o presidente do Equador, Daniel Noboa, um dos principais aliados de Trump na região, e que teve sua família investigada por envolvimento no tráfico de cocaína para a Europa. (32) A investigação revelou que ao menos 26 milhões de euros em droga foram encontrados em contêineres de bananas da Noboa Trading Co., empresa da família do presidente, com destino à Croácia e à Itália. Apesar disso, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, elogiou a cooperação de Noboa no combate ao narcotráfico. (33)
No Chile, agora, temos José Antonio Kast como presidente. Bem apessoado. Cara de
compenetrado, tem. Mas, ô, dedinho podre. Tanta gente nesse mundo e o sujeito foi me
escolher justo Gustavo Villatoro como assessor? Conhece não? Importou lá de El
Salvador, ainda por cima, outro país, era ministro da Justiça de Nayib Bukele. “Sócio de
narcotraficantes”, segundo consta. (34) O leitor deve estar se perguntando: “Espera, o Bukele
não tinha prendido os meliantes, os membros de gangue, livrado o país da criminalidade?
É desse mesmo Bukele que estamos falando?”
Olha, justiça seja feita. Prendeu um monte, mesmo, quase todos. Empenhou-se tanto que
fez até pacto secreto com o CJNG, o Cártel Jalisco Nueva Generação, do México, em
2023, para que o cartel capturasse e entregasse “Crook”, líder da Mara Salvatruga, maior
facção de El Salvador. Em contrapartida, ofereceu um milhão de dólares. No fim das
contas, surpresa, descobriram que era tudo armação de um pilantra 171 para cima do
governo. (35) Quer dizer, armação, o pacto com o cartel mexicano. Com os cartéis de El
Salvador, não teve armação, não. O pacto foi para valer. (36) Isso, para não mencionar os
três funcionários públicos salvadorenhos, bem próximos de Bukele, incluindo seu chefe de
gabinete, que foram apontados pelo Departamento de Estado dos EUA como corruptos e
facilitadores do tráfico de drogas. (37) Te contar, viu, se Bukele por acaso tivesse qualquer
tipo de vínculo oculto com Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras
condenado a quarenta e cinco anos por narcotráfico, (38) daria até para alguém com mente mais poluída imaginar que esse combate à criminalidade em El Salvador, na ponta do
lápis, não ter passado de tomada de território mesmo. Acabar com a concorrência e ficar
com o caminho livre para assumir o controle da bandidagem em paz. Mas só se Bukele
tivesse vínculo oculto com algum ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico,
mesmo, senão… ah, diz que tem? Coincidência, né? Mais uma. Muito embora Flávio, o
Bolsonaro, ter declarado, dia desses, não existir isso de coincidência.
Porquê… sabe? Se começarmos a pensar que tem alguma coisa a ver, isso tudo, foragido
por tráfico que financia candidato de Milei, sócio de traficantes como assessor de Kast,
pacto secreto entre cartéis e Bukele, e mais vínculo oculto com outro ex-presidente
narcotraficante – que mal tem, gente, vínculo com traficante, ser sócio, onde já se viu?
que isso?, preconceito bobo, eu hein –, onde é que vamos parar?
Vamos pensar mais o quê? Que Trump teria algo a ver com isso? (39) Que Trump estaria controlando o Cartel de Los Soles agora? E que o Escudo das Américas seria só uma desculpinha furada para tomar o controle do narcotráfico em toda a América Latina? Sabe nem o que é Escudo das Américas? Já ouviu falar, sim. Aquela coalizão político-militar criada em março desse ano, liderada pelos Estados Unidos, a fim de “combater” o “narcoterrorismo” na América Latina e que conta com dezessete países da região, entre os quais… Argentina, Chile, El Salvador, Honduras, Equador e Venezuela. Só Brasil e México ficaram de fora. (40) Desfeita.
Se Trump tivesse dado indulto a Hernandez (41), sabe, ou se ele tivesse lucrado milhões de
dólares lavando dinheiro do narcotráfico colombiano (42), ou tivesse, sei lá, feito acordo com
o filho de El Chapo, lembra de El Chapo?, para que dezessete familiares de líderes do
Cartel de Sinaloa entrassem nos EUA (43), ou fosse aliado e entusiasta das bananas de
Noboa, aquelas, eu até pensaria mesmo coisa errada sobre o moço. Daria até para
pensar que essas centenas de soldados (44) que ele está enviando para a América Latina
não são para combater narcotráfico nada, coisa nenhuma, mas só para ocupar o território
e tomar o controle do cartel todo, que nem ele fez na Venezuela. Porque besta eu sou,
mas nem tanto. Hein? Os EUA acabaram de revogar o visto do procurador-geral da
Bolívia, Roger Mariaca, o que estava à frente das investigações contra o aliado de Trump,
Luis Fernando Camacho, ex-governador de Santa Cruz de la Sierra, afastado por
lavagem de dinheiro e proteção a narcotraficantes. O cara também não se ajuda, né?
Não se ajuda. Enfim, Bolívia. Lá longe. O problema de ficar pensando nessas coisas é
acabar imaginando que Flávio, o Bolsonaro, só quer virar presidente para que o Brasil
entre nesse clubinho do narcotráfico do bem (45) e ele faça que nem Bukele em El Salvador:
exterminar a concorrência e entregar o monopólio do narcotráfico de bandeja ao aliado,
ao preferido, ao indicado, ao Comando Vermelho e à narcomilícia toda duma vez. E é
como dizem, né, porta de entrada. Começa com uma droguinha aqui, outra acolá, e,
quando vê, já está fumando cocaína, fica doidão e logo quer dar o ouro, as terras raras, as joias da coroa tudo. Um narcogarimpão das Américas. Botam ordem nas casinhas
deles e transformam o país, o continente inteiro, num grande cartel de drogas comandado
pela narcomilícia. Que nem Major Curió fez em Serra Pelada. Disse que ia proteger os
garimpeiros, acabou criando uma cidade com seu nome para proteger os próprios
interesses – e as festinhas do Vorcaro. E é justo o que pode acontecer se Flávio, o
Bolsonaro, virar presidente sob “supervisão” de Trump. Ele jura de pés juntos que quer o
Brasil no Escudo das Américas para nos proteger. Talvez, só queira mesmo proteger seus
narcomilicianos de estimação. Tirar a soberania do Brasil de nossas mãos e entregá-la de
mãos beijadas ao narcotráfico internacional. Ao chefão da quadrilha de colarinho branco.
Arrisca? Ou melhor nem pensar nisso?
Referências da reportagem:
1 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/queiroz-admite-esquema-de-rachadinhas-ao-mp-e-tenta-inocentar-flavio-bolsonaro/
2 https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/10/pivo-da-rachadinha-queiroz-da-vitoria-de-flavio-como-certa-e-ja-se-movimenta.ghtml
3 https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/09/03/quem-e-o-advogado-e-ex-secretario-suspeito-de-vazar-informacoes-e-ajudar-o-comando-vermelho.ghtml
4 https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2025/09/pf-diz-que-traficante-do-comando-vermelho-pagou-ex-deputado-th-joias-e-ex-secretario-de-esportes-do-rj-cmf90babb02e3015i5iaa5ufw.html
5 https://aparecidanet.com.br/flavio-indicou-membro-do-cv-para-o-governo-de-claudio-castro-no-rj/
6 https://www.bnews.com.br/noticias/politica/drogas-armas-e-bazucas-antidrones-th-joias-vira-reu-por-esquema-ligado-ao-comando-vermelho.html
7 https://www.diariocarioca.com/2026/09/12/politica/judiciario/aliado-dos-bolsonaristas-th-joias-ex-deputado-estadual-no-rio-vira-reu-por-envolvimento-com-cv
8 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/07/22/policia-prende-ex-assessor-parlamentar-de-th-joias-apontado-como-operador-financeiro-ligado-cv.htm
9 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/06/pf-encontra-foto-de-th-joias-na-cama-com-milhoes-ex-deputado-converteu-milhoes-em-dolares-para-traficante-do-alemao.ghtml
10 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/05/th-joias-gravou-video-de-200-kg-de-maconha-e-ofereceu-a-traficante-que-disse-nao-e-bom-de-vender.ghtml
11 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/mpf-diz-que-th-joias-negociou-com-o-comando-vermelho-arma-usada-para-derrubar-drones.ghtml
12 https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/27/procurados-chefes-do-trafico-da-velha-guarda-continuam-soltos-no-rj.htm
13 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/th-joias-guardava-200kg-de-drogas-e-controlava-pagamentos-da-venda-de-cocaina-diz-denuncia-do-mpf.ghtml
14 https://extra.globo.com/casos-de-policia/policia-identifica-traficante-de-armas-preso-com-identidade-falsa-no-paraguai-24884770.html
15 https://revistasegurancaeletronica.com.br/traficantes-do-comando-vermelho-compram-drones-com-capacidade-para-transportar-ate-20-fuzis-entre-favelas/
16 g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/pf-indicia-rodrigo-bacellar-e-mais-4-por-vazamento-de-dados-para-o-comando-vermelho.ghtml
17 https://diariodorio.com/com-apoio-de-flavio-bolsonaro-bacellar-ganha-forca-como-sucessor-de-castro-no-rj/
18 https://conjur.com.br/2026-out-02/mp-rj-investiga-douglas-ruas-por-peculato-lavagem-de-dinheiro-e-organizacao-criminosa/
19 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/10/05/preso-com-fuzil-canella-e-o-2-deputado-estadual-mais-votado-no-rj.ghtm
20 https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/canella-era-patrono-politico-e-articulador-de-organizacao-criminosa-diz-pf/
21 https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/10/15/pf-cita-ligacao-de-marcio-canella-com-milicia-e-acordo-com-comando-vermelho.ghtml
22 https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/mae-de-flavio-foi-escolhida-como-suplente-de-canella-preso-pela-pf/
23 https://veja.abril.com.br/politica/preso-pela-pf-marcio-canella-foi-pre-candidato-ao-senado-na-chapa-de-flavio-bolsonaro/
24 https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/flavio-diz-que-foi-surpreendido-com-prisoes-de-canella-e-bacellar/
25 https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/02/politica/1562091519_351309.html
26 https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/06/apos-captura-governo-trump-recua-sobre-acusacao-de-que-maduro-chefiava-cartel-de-drogas.ghtml
27 https://www.ntn24.com/noticias-actualidad/pese-a-captura-de-maduro-el-cartel-de-los-soles-sigue-operando-en-venezuela-asegura-investigacion-de-insight-crime-610894
28 https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorio-de-politica-externa/2026/09/24/soberania-sequestrada-como-os-eua-assumiram-o-controle-das-reservas-de-petroleo-da-venezuela-para-alimentar-suas-refinarias/
29 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/alem-de-petroleo-eua-miram-potencial-em-terras-raras-da-venezuela/
30 https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/ex-aliado-acusa-milei-de-manter-lacos-estreitos-com-empresarios-narcos/
31 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/10/07/argentina-extraditara-aos-eua-suposto-traficante-que-diz-ter-financiado-deputado-de-milei.htm
32 https://progressive.international/wire/2025-03-31-daniel-noboas-family-business-president-of-ecuador-is-involved-in-cocaine-trafficking-to-europe/en/
33 https://www.semafor.com/article/12/23/2025/ecuadorian-presidents-family-banana-business-smuggled-drugs-investigation-finds
34 https://larepublica.pe/mundo/2025/12/08/gustavo-villatoro-el-hombre-detras-del-plan-de-bukele-y-aliado-de-kast-que-es-vinculado-con-narcotrafico-y-corrupcion-ntpe-538816
35 https://english.elpais.com/international/2024-01-29/how-a-salvadoran-gangster-duped-the-bukele-government-with-a-fake-scheme-to-catch-an-ms-13-fugitive-wanted-by-the-us.html
36 https://www.dw.com/es/l%C3%ADder-pandillero-revela-los-pactos-de-bukele-con-las-maras/a-72412223
37 https://www.latimes.com/espanol/california/articulo/2021-05-17/estados-unidos-senala-de-corrupcion-a-cinco-salvadorenos-dos-integran-el-gabinete-de-bukele
38 https://reporterosdeinvestigacion.com/2022/03/31/los-negocios-entre-el-ex-presidente-ligado-al-narcotrafico-nayib-bukele-y-daniel-ortega/
39 https://www.reuters.com/world/americas/former-honduran-president-released-us-prison-after-trump-pardon-2025-12-02/
40 https://ncnews.com.br/2026/09/23/brasil-e-mexico-ficam-fora-de-alianca-dos-eua-contra-o-crime-organizado-e-desafiam-estrategia-de-trump/
41 https://www.nbcnews.com/politics/trump-administration/former-honduran-president-juan-orlando-hernandez-freed-trump-pardon-rcna246968
42 https://www.newsweek.com/trump-drugs-corruption-panama-hotel-money-laundering-714891
43 https://www.nytimes.com/2025/05/14/world/americas/mexico-cartel-chapo-family.html
44 https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/10/14/eua-estao-enviando-centenas-de-soldados-para-a-america-latina-dizem-autoridades-militares-americanas.ghtml
45 https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/23/flavio-promete-incluir-brasil-no-escudo-das-americas.ghtm
Geral
A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução
Publicadoo
3 meses atrásem
12/07/26
Eduardo Nunes Campos*
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
(*) Jornalista
Geral
O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Publicadoo
6 anos atrásem
07/11/20O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac
Por Dirce Waltrick do Amarante*
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
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