Ex-presos políticos avaliam o passado e o presente em antiga sede do Deops

por José Coutinho Júnior do Brasil de Fato e fotos R.U.A. Foto Coletivo e Lucas Kappaz para os Jornalistas Livres

Três militantes visitam o Memorial da Resistência com nossa equipe de reportagem. Eles relatam o passado de prisão e tortura; comentam os pedidos de intervenção militar no presente e reafirmam: golpe nunca mais no futuro.

Sou o Memorial da Resistência de São Paulo. Talvez você não me conheça, mas faço parte de uma história importante deste país. Uma história que nunca deve ser esquecida, para que se faça justiça aos 434 mortos e desaparecidos que dela decorrem. Sou um edifício inaugurado em 1914 para abrigar os escritórios e armazéns da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana, no centro da capital paulista.

No entanto, alguns anos depois acabei me tornando uma das sedes do aparato de repressão do Estado brasileiro, o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP). Esse órgão passou a funcionar em 1924, com a finalidade de controlar os trabalhadores, reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao poder. Mas foi durante a ditadura militar que o Deops se tornou de fato uma polícia política.

Diversos militantes políticos no período da ditadura militar (1964–1985) foram presos, torturados e mortos dentro das minhas paredes. Em 1964, os presos políticos eram trazidos aqui. Já depois de 1969, eles vinham após o período que eram submetidos a prisões políticas na Operação Bandeirantes (OBAN) ou no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi).

Estar aqui servia para legalizar as prisões, que não eram oficiais nos outros órgãos repressores: eram feitos os inquéritos oficiais e tomados os depoimentos formais.

No segundo andar ficavam salas nas quais se torturavam pessoas. O delegado Sérgio Fleury, que se tornou um torturador mais notório que qualquer militar, perseguia militantes e matou muitos deles por meio da tortura, tinha uma sala neste andar.

Desde 2005, passei de símbolo da opressão e medo ao símbolo da resistência e da memória. Transformei-me em uma homenagem a todos que lutaram, muitos dos quais perderam suas vidas, para que o Brasil se tornasse um país democrático, e para que a sociedade nunca se esqueça do que foi o horror da ditadura.

Visitando o passado

Na semana em que o golpe militar completa 51 anos, recebi a visita de três militantes e ex-presos políticos, não para serem interrogados ou presos, mas para dividirem suas histórias de vida, as suas lutas contra o regime militar e contra os resquícios que essa ditadura deixou na sociedade brasileira. São eles: Aton Fon Filho, Maria do Carmo Gomes e Sebastião Neto.

Aton Fon Filho é advogado. Defende causas relacionadas a movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ele me visita com frequência para dar palestras e acompanhar exposições. Fon atuou na Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização coordenada por Carlos Marighella. Foi preso aos 22 anos, ficando na cadeia por nove anos, 11 meses e três dias. “Não fala que é dez anos! Já fiquei muito tempo preso, não me dá mais 27 dias”, brinca. Foi torturado. Entre as sequelas, perdeu a audição do ouvido direito.

Mesmo dentro da cadeia, continuou na luta contra a ditadura. “Não dá para falar da prisão como uma única coisa. Tem três períodos distintos. O primeiro é o momento da prisão, em que o objetivo era obter informações para prender outros membros da organização. Foi o período mais duro, porque demandava resistência nossa para não entregar informações dos outros companheiros, e tínhamos dúvidas se sobreviveríamos à tortura que enfrentávamos. O segundo momento é quando temos a garantia na prisão e estabelecemos novas metas. No caso da ALN, definimos que mesmo presos tínhamos um papel a cumprir na luta, lá de dentro. Fazíamos denúncias do que se passava nas cadeias, das pessoas que desapareciam, e protegíamos companheiros que eram presos. O terceiro momento é quando víamos sinais de debilidade da ditadura, mostrando que ela ia ser superada naquela fase, e apoiamos o movimento de anistia e a luta pelas diretas, ao sair da cadeia”, relata.

A outra visitante foi a mineira Maria do Carmo Gomes, que militou na Oposição Metalúrgica, entidade operária que se colocava contra a ditadura militar e contra os sindicatos, aliados aos setores patronais à época.

Participou das lutas contra a ditadura no final de 1978 e 1979. Hoje é aposentada e colabora com o Núcleo de Memória do Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas (IIEP). Trata-se de uma iniciativa que atua, entre outros temas, com projetos ligados ao registro da repressão dos anos de chumbo dentro de fábricas paulistas.

“Na época do golpe eu era pequena. Mas lembro do meu pai, que era um lavrador semianalfabeto do Vale do Ribeira, ouvindo um radinho de pilha com a testa franzida, e ele dizia: ‘coisa boa não vem pra nós’. A partir daí a gente já tinha aquelas recomendações. ‘Se estiver na estrada e vir um caminhão, pula no meio do mato, se esconde porque o Exército está por aí’. Então a gente já veio com esse medo na cabeça para São Paulo, mesmo não sabendo direito o que estava acontecendo. A ditadura é uma coisa que modificou completamente minha vida. Me fez criar consciência e ir para a luta”, afirma.

Ao lado de Fon e de Maria do Carmo nesta visita estava Sebastião Neto. Ele também foi operário e membro da Oposição Metalúrgica. Nascido em Goiás, vive há 44 anos em São Paulo. Foi preso na ditadura quando jovem por seis meses. “Mas de cadeia, basta um dia. Pois é nesse um dia que vão tentar te quebrar”, conta.

Neto viveu clandestino até se tornar operário. Trabalhou mais de 20 anos nas fábricas metalúrgicas, foi dirigente da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e hoje se dedica ao IIEP, nas ações de relacionadas à memória operária.

Hoje, Neto cobra que o Estado continue os trabalhos iniciados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).

“A maior falha da CNV é não ter continuidade, no sentido de justiça e reparação e não apontar os responsáveis civis que também tiveram papel no golpe, que o financiaram. Haviam órgãos civis que existiam há cinco anos antes do golpe e o apoiaram ativamente, criando um sistema de comunicação entre as empresas, organismos de estados e as forças de repressão como o Deops”.

Raízes da ditadura

Os três militantes acreditam que o golpe militar, articulado com grandes empresários e organizações civis que representavam interesses das elites, se deu para frear um momento no qual os trabalhadores brasileiros lutavam por direitos e participavam ativamente da vida política.

“A ditadura foi uma vitória das forças imperialistas não só no Brasil, como na América Latina. Nos anos anteriores ao golpe, os trabalhadores viviam um processo que buscava reformas estruturais que libertassem nosso país da colonização ao qual ele era submetido. A ditadura foi uma repressão dessas tentativas dos trabalhadores. E, para efetivar essa repressão, é que se valeram de torturas e assassinatos”, afirma Aton Fon Filho.

Maria do Carmo destaca a situação enfrentada pelas mulheres operárias nos anos de chumbo. “A mulher trabalhadora sofria de forma violenta na ditadura. A exploração da mão de obra da mulher era muito importante para as fábricas, porque elas faziam o trabalho de produção de forma hábil, por um salário muito menor que o dos homens. A luta da mulher era observada a todo momento pelos patrões, e qualquer movimento a mais, éramos demitidas. Duas mulheres não podiam ir ao mesmo tempo ao banheiro, não porque ‘diminuiria a produção’, mas para não se encontrar e conversar”, relata.

Contar essa história de repressão e horror é um desafio na opinião de Sebastião Neto. “Não é fácil explicar o que foi a ditadura para quem viveu sempre na democracia. Você não tem direito a nada na ditadura. A repressão política impede que o povo pense e se organize. A ditadura criou um novo regime fabril: nenhuma liberdade, intensificação da jornada de trabalho e a pior legislação possível. O golpe foi dado para explorar com mais eficiência a classe trabalhadora do campo e da cidade”, diz.

Fon alerta que, apesar da transição democrática, resquícios da ditadura ainda existem, em todas as esferas da sociedade brasileira. “Não podemos falar que a ditadura militar foi. Muitas das suas repercussões permanecem entre nós. A ditadura se prolonga porque o projeto que foi estabelecido por Ernesto Geisel em 1974 de uma transição lenta, gradual e segura foi e continua sendo bem sucedido, criando até mesmo na cabeça dos que são militantes de esquerda, que buscam a igualdade, o medo”.

Já para Neto, “a democracia não significa ausência da ditadura. Assassinatos de pobres e negros ocorrem com frequência devido à violência policial, trabalhadores são assassinados — pelo menos 1.200 trabalhadores foram assassinados no campo na ditadura; mas para não ficar muito longe, em 1986, no governo Sarney, foram mortos 280 trabalhadores rurais. Além disso, criou-se a cultura da tortura nas delegacias”.

Golpe nunca mais

No dia 15 de março de 2015, milhares de pessoas convocadas pela direita saíram às ruas. Entre os alvos das manifestações estavam a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Em faixas e cartazes, parte de quem foi aos protestos de verde e amarelo pedia a volta dos militares ao poder.

Fon acredita que muitas pessoas que estavam no ato não tinham plena consciência do porquê de estarem lá. “Tenho certeza que muitos que estavam lá não tinham muita ideia do que faziam ali. Digo isso porque participei da Marcha da Família em 1964 sem saber o que era. Saí do trabalho mais cedo, fomos liberados, fui pra lá e quando vi, estava segurando uma faixa. Notei que estava indo na direção de volta ao trabalho, abandonei e voltei pra casa. Se eu fiz isso, imagino que outras pessoas possam ter feito”.

Maria do Carmo concorda. “Eu peguei uma foto da Marcha da Família e comparei com a manifestação do dia 15. A conjuntura de hoje é diferente. Não temos guerra fria, não há a desculpa do ‘perigo do comunismo’. É uma minoria que pede intervenção militar. O povo que foi às ruas tem uma insatisfação com o governo e o rumo do país, mas não é o mesmo de 1964.

“Só um tolo quer uma ditadura, porque ela atinge todo mundo. Mas não me espanta pessoas irem às ruas pedir isso. Como diz um amigo meu, foi um ato contra a ‘abolição da escravatura’. O que me incomoda é que a esquerda está perdendo contato com a sua base, com dificuldades de chegar às pessoas e ter um instrumento político que sirva aos trabalhadores e ao povo pobre”, comenta Neto.

Da memória à resistência

A ditadura militar, com toda sua violência e repressão, foi capaz de acabar com a vida de muitas pessoas e até ideais. Muitas delas aqui, nas minhas salas e celas.

Os que conseguiram sobreviver e resistir relatam hoje, em diversos espaços e iniciativas, esse passado para que ele não se repita. Fon, Neto e Maria do Carmo são apenas três.

Mas não são só militantes que resistiram, são também a memória viva da repressão e da luta contra a ditadura no Brasil, assim como outras milhares de pessoas que lutaram contra o regime.

E essa luta abriu caminho para todos aqueles que nasceram na democracia, conhecem o passado de seu país e reivindicam no presente um futuro diferente, para que tudo que aconteceu aqui, dentro de mim, nunca mais se repita.

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