Em Mauá, MTST consolida mais uma ocupação

por Oscar Neto, dos #JornalistasLivres


Colaboraram
Michelli Oliveira, Paulo Ermantino, Victor Amatucci e Mídia NINJA

Exatas 168 horas (sete dias) depois de realizar duas grandes ocupações em Embu das Artes e Itapecerica da Serra, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) ocupou mais um terreno na Grande São Paulo, desta vez em Mauá. Tomada pelo mato alto, a área de aproximadamente 300 mil metros quadrados do Jardim Oratório recebeu as primeiras ripas de bambu e lonas para a montagem de barracos, usados para demarcar as áreas de cada novo morador.

Segundo a liderança e o advogado do movimento, o proprietário da terra acumula uma dívida de IPTU ultrapassa os R$10 milhões.

Foto: Mídia NINJA

Conduzidas até o local por cinco ônibus e mais 12 carros de apoio, cerca de 300 pessoas participaram da ação na noite desta sexta-feira (22), como parte da jornada de lutas pelo início da terceira fase do programa Minha Casa, Minha Vida, que está paralisado. De quebra, os sem-teto protestaram contra ajuste fiscal e os cortes orçamentários promovidos pela presidenta Dilma Rousseff.

Foto: William Oliveira

Os motivos dos sem-teto parecem razoáveis para ocupantes de primeira viagem, como Greiceane, 28, que deixou o filho sob os cuidados de outra pessoa para comparecer ao evento. “Fiquei sabendo da oportunidade [de ter uma casa] pela minha vizinha, que participa desde o começo [do movimento]. Moro de aluguel e tenho filhos. Paguei uma moça pra ficar com eles pra eu vir aqui hoje”.

Foto: Mídia NINJA / Jornalistas Livres

Para Maria MTST, como é conhecida a integrante da coordenação estadual do movimento, dificuldades como essas formam a base de toda a batalha por terra. “A partir do momento em que somos pressionados de todos os lados e não temos nenhum tipo de alternativa, vamos para a luta da ocupação de terrenos. Precisamos de um lugar pra colocar a cabeça. Tudo é possível quando estamos juntos. O salário é uma miséria. A gente acaba tendo de escolher entre pagar o aluguel ou colocar comida na mesa”, diz.

Foto: Mídia NINJA

Líder das ações realizadas na região do ABC e municípios adjacentes, Maria organizou e participou de dezenas de ocupações. Baixinha e tímida, ela se transforma ao discursar para os sem-teto na primeira assembleia. E agita a galera.

Foto: Sato do Brasil / Jornalistas Livres

Lá fora, viaturas da PM fazem questão de passar várias vezes diante da ocupação, sempre em marcha lenta e com os faróis apagados.

Calmaria X Tensão

Se a polícia não esboçou reação, os vizinhos tampouco. Todos acompanhavam curiosos, sem interferir. No máximo, deixavam as suas opiniões sobre o que presenciavam. “Esta aqui [referindo-se a ocupação em curso naquele momento] eu acho válida. Mas tem uma área que estão invadindo ali do outro lado que é o seguinte: todo mundo ali já tem terreno e está invadindo. Meu filho que mora lá pegou mais três pedaços de terra e vendeu, mas sabe que é uma área que não pode ser vendida”, comenta um dos moradores locais.

Foto: Sato Do Brasil /Jornalistas Livres

Com tamanha calmaria, o momento de maior tensão — ou o mais curioso — foi quando o último dos ônibus do comboio que transportava os trabalhadores sem teto “travou” em uma curva fechada nas ruas do bairro. Nessa hora, a ocupação já ocorria e só faltava aquele último ônibus chegar. Encalacrado, o veículo chegou a encostar e um poste, balançando os fios. Na mesma hora, por coincidência, viaturas policiais surgiram e um dos soldados (inexplicavelmente com uma arma em punho) tentou desembolar a confusão de trânsito. No fim, o motorista conseguiu passar a esquina e os policiais foram embora aparentemente sem desconfiar do motivo pelo qual um ônibus transitava cheio de gente pela região durante a madrugada.

Foto: Mídia NINJA / Jornailstas Livres

Guilherme Boulos, líder do MTST, não esconde as preocupações em cada ocupação. “Todos os atos iguais a este são um processo muito tenso porque lamentavelmente a polícia está preparada pra assegurar a todo custo o direito à propriedade sem pensar na função social que ela deveria ter. A polícia age na ilegalidade e o estado pune os pobres, seguindo uma lógica historicamente constituída. Nós do movimento temos de agir com muitas precauções e cuidados, porque contamos com idosos, crianças e mulheres grávidas e temos responsabilidade com essas famílias”, conclui.


Colaboraram Michelli Oliveira, Paulo Ermantino, Victor Amatucci e Mídia NINJA

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