A degola na história dos conflitos do sul do país

Ilustração Joana Brasileiro

 

Diversos conflitos pelo mundo atendem por diferentes nomes, sempre de acordo com os interesses de um lado a outro. No Brasil, a historiografia oficial tende e passar panos quentes até o quase esquecimento de seus conflitos, especialmente os de causa social. Em tempos de guerra entre grupos do crime organizado, alguns desses conflitos em especial vêm à lembrança por causa de um de seus nomes. A Guerra do Contestado é também conhecida como Guerra dos Pelados Contra os Peludos – sendo “pelados” os sertanejos desterrados para que passasse a ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul e peludos os proprietários de terra que emprestavam jagunços para engrossar o caldo das forças armadas. Já a Revolução Federalista, iniciada no Rio Grande do Sul em 1893 e contida depois de dois anos e muito sangue derramado no Paraná, ganharia ainda a sombria alcunha alternativa de Guerra da Degola.

A degola dos inimigos era prática corriqueira pelos dois lados da Revolução Federalista. Estima-se que mais de mil dos cerca de dez mil mortos no conflito tenham sido degolados. Tanto os pica-paus – republicanos sob o comando de Júlio de Castilhos – quanto os maragatos – federalistas liderados por Gaspar Silveira Martins – degolavam seus prisioneiros. “Além da intenção de aterrorizar o inimigo, havia um componente econômico na degola”, sinaliza o historiador Renato Mocellin. Como os dois lados lutavam em condições precárias, em meio à escassez de munições, recursos e alimentos, não havia condições financeiras de manter prisioneiros de guerra, o que passou a ser usado como justificativa para execuções sumárias. A opção pela degola, ou “gravata colorada”, apenas elevava o tom da barbárie, uma vez que ela era antecedida por troças e humilhações ao oponente dominado e indefeso. Dizia-se que o inimigo “não valia o chumbo” que seria gasto para executá-lo, observa Mocellin.

O ato de degolar o inimigo, que tanta repulsa tem causado na guerra facciosa entre o PCC e a FDN, era muito comum nos conflitos ocorridos na região do Prata e no sul do Brasil durante o século 19, como na Cisplatina e na Guerra dos Farrapos. No início do século 20, outro conflito a ter a degola como componente foi a Guerra do Contestado. Estima-se que cerca de 500 pessoas tenham sido degoladas no Contestado, diz Mocellin, autor, entre outros, dos livros “Federalista: a revolução da degola”, “Os Guerrilheiros do Contestado” e “Pelados x Peludos: o massacre dos xucros”.

Encerrada formalmente há pouco mais de um século, hoje pouco se fala sobre a Guerra do Contestado longe da atual divisa entre o Paraná e Santa Catarina, região onde sucedeu a maior parte dos combates que deixaram entre 5 mil e 8 mil mortos. “A miséria, a ignorância, a expulsão das terras e a opressão por parte de coronéis, do Estado e de companhias estrangeiras formaram o caldo da revolta no Contestado”, explicou Mocellin em entrevista aos Jornalistas Livres. “Mas, verdade seja dita, não foram os sertanejos que atacaram; eles foram atacados.”

foto-montagem de Joana Brasileiro sobre imagens da Guerra da Degola e da Revolta do Contestado.

Entre 1912 e 1916, 13 expedições militares foram enviadas ao Sul para combater os sertanejos rebelados. O entreguismo e o uso do Estado em favor de uma casta privilegiada já norteavam as políticas e as ações da então jovem república constituída a partir do golpe militar contra a família imperial pouco mais de 20 anos antes. Também se faz presente na Guerra do Contestado a promiscuidade entre o Estado Brasileiro e o capital privado estrangeiro. As Forças Armadas intervieram na região em defesa dos interesses específicos de duas empresas privadas que escreviam Brasil com Z: a Brazil Railway Company e a Southern Brazil Lumber & Colonization Company. “O advogado da Lumber era ninguém mais que o vice-presidente do Paraná à época, Affonso Alves de Camargo. Em Santa Catarina, o advogado da Lumber era Nereu de Oliveira Ramos, filho do ex-governador Vidal Ramos e que depois tornou-se vice-presidente da República”, relaciona Mocellin.

Em tempos nos quais a Justiça paulista anula o julgamento dos PMs envolvidos no Massacre do Carandiru, setores estratégicos da economia são abertos indiscriminadamente ao capital estrangeiro e a violência do Estado brasileiro é dirigida explicitamente contra maiorias sociais sem representação política adequada, o esquecimento deliberado de nossa história fala muito mais sobre o Brasil de hoje do que muitos gostariam de acreditar.

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