Conecte-se conosco

Ex-guerrilheiro político desaparece em Florianópolis

Publicadoo

em

Desaparecido desde sábado (1/6), e procurado com a ajuda de cães farejadores por toda Florianópolis (SC), ele faz parte importante da memória da luta contra a ditadura militar. A maior parte das pessoas que reproduzem o anúncio sobre seu desaparecimento ignora, contudo, que Antônio José da Luz Amaral Filho, 83 anos, é um guerrilheiro sobrevivente da repressão. Ex-secretário do Partido Comunista Brasileiro no Paraná, onde atuou como advogado e procurador, passou por perigos inimagináveis. Participou de operações  arriscadas das guerrilhas urbanas, a exemplo do assalto ao navio argentino Missiones, aportado em Paranaguá.

O desaparecimento de Antônio José da Luz Amaral Filho há quatro dias mobiliza a família, a polícia e as redes sociais em Florianópolis em uma busca sem trégua. A Delegacia de Polícia de Pessoas Desaparecidas (DPPD) e a Guarda Municipal de Florianópolis trabalham desde o final da manhã de terça-feira, 4, procurando pistas do senhor que gosta de caminhar pela cidade. Cães farejadores, estimulados pelo odor de uma peça de roupa da vítima, auxiliam os policiais na busca pelos matagais e na praia do Campeche, onde foi visto pela última vez no sábado à tarde.

Seu desaparecimento está sendo amplamente anunciado pelo G1 e por vários veículos de comunicação de Santa Catarina como o sumiço de um senhor de saúde frágil, que toma remédios para diabetes, pressão alta e perda de memória. O que a maior parte das pessoas ignora é a biografia corajosa deste homem que foi protagonista importante da história da resistência no Brasil.

Foto mais recente do advogado desaparecido que atuou na guerrilha do Paraná (Acervo familiar)

Amaral, como é conhecido na memória da luta contra a Ditadura Militar, foi militante e secretário geral do Partido Comunista Brasileiro no Paraná. Em Curitiba,  atuou profissionalmente como procurador e como advogado durante 50 anos. Passou por perigos inimagináveis, participando de ações arriscadas das guerrilhas urbanas, como o assalto ao navio Missiones, da Argentina, fundeado no Panamá. Embora não faça segredo sobre sua trajetória política, a biografia clandestina de Amaral é mais conhecida dos familiares e amigos próximos. Integrou ações pela derrubada da ditadura de 64 ao lado de figuras como Luiz Carlos Prestes, Carlos Lamarca, Dilma Rousseff e seu marido na época, Cláudio Galeno Linhares e Aguilberto Vieira de Azevedo, militante do PCB desde a Intentona Comunista de 1935.

Nascido em uma família culta e abastada, ele arriscou a carreira, o conforto e a própria vida para lutar por justiça social. Ajudou a construir a resistência não só com sua inteligência e vitalidade física, mas empregando recursos financeiros para garantir a sobrevivência de outros lutadores.

Amaral, no pátio do Diretório Estadual do PT, em 18/09/2018, na recepção ao candidato Fernando Haddad. Foto: Raquel Wandelli

BRAÇOS DADOS COM O GUERRILHEIRO

Encontrei Amaral em 18 de setembro de 2018 a caminho da recepção a Fernando Haddad no Diretório Estadual do PT/ SC, quando me dirigia para a entrevista coletiva ao candidato à presidência da República, antes do seu comício em Florianópolis. Um amigo me parou para apresentá-lo e pedir para acompanhá-lo até o evento que ele queria muito presenciar. Tomei-o sem demora pelo braço e o conduzi por um percurso de quase dois quilômetros pelo centro da cidade até o local da coletiva. Depois do pronunciamento de Haddad, o ex-guerrilheiro falou com orgulho e altivez. em entrevista ao vivo aos Jornalistas Livres. Também  colaborou com a luta pela redemocratização do Brasil, no lado1 de outros célebres lutadores, 111

Ao ver os anúncios de jornal e de televisão que comunicavam seu desaparecimento, reconheci-o imediatamente e recordei nossa conversa. O ex-secretário do PCB contou um pouco sobre a operação do navio argentino Misiones, fundeado na baía de Paranaguá, quando ele atuava na  guerrilha paranaense.  Questionei-o por que nunca foi pego pela repressão, e ele respondeu, bem humorado, que escapou à prisão e à tortura graças à extensão do seu nome:

“No assalto ao navio Missiones, da Argentina, estavam comigo judeus muito ricos de Curitiba que caíram [presos no DOPS] em São Paulo. Mais tarde eles me contaram: ‘Amaral, levei uns 30 paus de arara; estava para te entregar, mas não consegui lembrar o seu nome’. Eles tentavam entregar meu nome, mas esqueciam”.

Os três geradores e a casa de rádio, tirados do navio, foram, segundo Amaral, doados ao guerrilheiro Carlos Lamarca para que pudesse organizar a resistência brasileira em contato com os comitês internacionais. Da mesma forma, os fuzis e granadas resultantes do saque ao quartel de Alto Piquiri, também no Paraná, foram transferidos ao capitão, que desertou do Exército Brasileiro para comandar o movimento revolucionário armado. Adepto a um socialismo de viés democrático, fez questão de ressaltar que a luta armada foi necessária para fazer frente às atrocidades dos militares de 64, mas não a considera mais a estratégia correta – ao menos não a considerava no cenário pré-eleição de Bolsonaro.

Amaral estava com esta jaqueta quando visto pela última vez no restaurante Vizu (Foto: arquivo pessoal)

CÃES FAREJAM RASTROS ATÉ PONTO DE ÔNIBUS PRÓXIMO

Visto pela última vez no bairro Campeche, por volta das 15 horas desse sábado, seu sumiço pode estar, segundo o delegado Wanderley Redondo, da Delegacia Especializada em Pessoas Desaparecidas de Florianópolis,  relacionado ao quadro de saúde que inclui princípio de diabetes, pressão alta e perda de memória. Ele almoçava com a família no restaurante e bar Vizu quando avisou que sairia para dar uma caminhada enquanto os demais acompanhantes terminavam a refeição. E não voltou mais.

Após as primeiras buscas na região do desaparecimento, o delegado informou que os cães farejadores da Guarda Municipal levaram os policiais até um ponto de ônibus, localizado a 100 metros de distância do restaurante, onde ele foi visto pela última vez. Isso pode ser um indício de que o militante entrou num ônibus e saltou em local ainda ignorado, segundo Wanderley Redondo. Na quarta-feira, a DPPD teria acesso as imagens da empresa Fênix, que presta serviço de vigilância eletrônica para o sistema de ônibus da região. As imagens ajudariam a investigar o destino do advogado, caso tenha mesmo tomado uma condução.

Já no domingo, no dia seguinte ao sumiço, a família registrou Boletim de Ocorrência na 2ª Delegacia de Polícia Civil. A notícia do desaparecimento começou a mobilizar a cidade a partir de um comunicado do neto de Amaral em sua página no Facebook:

Reprodução de foto de anúncio nas redes sociais

“Olá. Meu avô desapareceu na Avenida Campeche, próximo ao Vizu Bar e Restaurante, ontem (1/6) às 15h/16h. Não temos nenhuma notícia dele desde então. Divulgamos sua foto em muitos grupos de Whatsapp e Facebook. Estamos sem chão. Ele é conhecido como Dr. Amaral. É um senhor de 84 anos e precisa tomar remédios diariamente. Peço, em nome de toda a nossa família, que vocês nos ajudem a encontrar alguma pista de onde ele possa estar, divulgando o desaparecimento. Ele é um cidadão de bem, advogado aposentado, muito querido por diversos amigos e conhecidos.
Contato: (48) 99668-0771 – Nicolas”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pai de três filhos adultos e morador do bairro Agronômica, Amaral não dormiu em casa no sábado. Conforme a família, durante o dia ele gosta de passear de ônibus pelos arredores da Ilha e Continente, mas sempre retorna para casa no final da tarde. Em depoimento à polícia, familiares disseram suspeitar que ele tenha caído ou perdido os documentos, em razão da perda de equilíbrio em sua idade avançada.  Como ele advogou em Curitiba durante 50 anos, o filho Antonio da Luz Amaral Neto considera a possibilidade – e a esperança – de ter viajado para o Estado do Paraná. Os parentes também recorreram ao Grupo de Apoio a Familiares de Desaparecidos de Santa Catarina (GAFAD-SC). Conforme a agente Márcia Hendges, da DPPD, em entrevista ao G1, até a tarde de ontem não havia pistas do Dr. Amaral, como é carinhosamente chamado.

“Nenhuma informação até agora foi repassada, nem para família, para
polícia ou autoridades. Isso causa estranheza na gente. Ele é um
senhor que caminha devagar, não tem telefone. Então a gente trabalha
com a possibilidade de estar perdido em alguma mata ou ter tido um mal
súbito”.

 

 

 

 

A ADMIRAÇÃO POR PRESTES, ANITA E DILMA ROUSSEFF

Nascido no Recife, Amaral se formou em Direito em Curitiba. Atuou como procurador no Estado do Paraná e transferiu-se com a família para Florianópolis aos 76 anos, em 2012, quando ficou viúvo. Ele próprio se intitula um comunista nascido em berço de ouro, mais propriamente num palácio da Ilha do Retiro, onde hoje está instalado o estádio de futebol do Sport Club Recife. Os pais eram ricos, mas mantinham ligações contraditórias com militares e pessoas influentes no poder de um lado e, de outro, cultivavam vínculos de amizade com intelectuais e militantes de esquerda.

Amigo e admirador de Prestes, mas também de Brizola, Dilma Rousseff, Oscar Niemeyer, João Saldanha, João Goulart e Mário Lago, seu caminho é cruzado por amigos e camaradas com um traço semelhante ao dele: apesar da origem burguesa, firmaram um compromisso inquebrantável com as classes oprimidas e com a revolução. De Curitiba trouxe na bagagem um valioso espólio de correspondências com militantes históricos e recortes de jornais sobre acontecimentos políticos.

Nesse relicário, há um lugar de destaque para a amizade com a família de Prestes, o Cavaleiro da Esperança, que percorreu 30 mil quilômetros de Norte a Sul do Brasil, comandando a coluna tenentista. Mantém uma coleção de cartas manuscritas ou datilografadas trocadas com Prestes e com sua filha Anita Leocádia, por quem nutre verdadeira veneração. Algumas cartas de Prestes fazem análises da conjuntura política e econômica; outras, de Anita, falam de decisões pessoais após a morte do pai; outras ainda convocam para os eventos em comemoração ao aniversário do revolucionário, em 1983. Uma mensagem, assinada pelo líder comunista, tem um significado especial para o destinatário:

“Ao companheiro e amigo Antônio J. da Luz Amaral Filho, nossos votos de boas festas e feliz ano novo e de paz no mundo. Abraço fraternal”

Apesar de tomar remédios para o controle de diabetes, cujo uso contínuo causam a perda transitória de memória, o Antônio José da Luz Amaral Filho que conheci mostrou-se um homem forte, lúcido, inteligente, culto e de uma franqueza desconcertante. Apoiado em meu braço, caminhou com a firmeza e a determinação de um velho camarada até o local da recepção a Fernando Haddad. Grande estudioso da história do Brasil, conhece também a história internacional moderna e antiga. É capaz de entrelaçar os trunfos e as derrotas do comunismo com interpretações políticas, econômicas e religiosas sobre a ascensão do fascismo no mundo. Falando baixo e com certa dificuldade de ser compreendido devido à perda da arcada dentária superior, analisou o quadro das eleições na entrevista ao JL:

“A eleição do Brasil é perigosa porque a maioria não consegue compreender a sua grandeza. Os políticos populistas não conseguem viver a grandeza da eleição. Eles não conseguem sentir como realmente a eleição é mais do que popular; ela é a vida do povo. Uma eleição no Brasil é a vida do próprio povo no momento eleitoral.”

Informações sobre o paradeiro de Antônio José da Luz Amaral Filho devem ser prestadas através do telefone da DPPD: (48) 3665-5595.

 

 

Entrevista com o ex-guerrilheiro a partir do ponto 11:25

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending