Das tentações e preces

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Vejo o Papa na tv, logo após o almoço, na sexta-feira, mas é entardecer no Vaticano. Há um silêncio profundo ferindo a imensidão da Praça São Pedro, demoro a entender a situação, pouco devoto que sou. É tão intensa a cena muda que me atenho. É a pandemia, logo me envolvo no coro sublime, agente invisível vozes cantam, tais anjos e querubins, arquitetura épica deserta de multidão.

“Há semanas, parece que a tarde caiu. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e de um vazio desolador… Nos vimos amedrontados e perdidos.”

É a homilia. 

A pregação desses dias, o para ou não para dos homens, o vírus escancara nossas dívidas. Nossa concentração de renda e o disparate da má distribuição de lucidez entre os donos do poder evidenciam as incongruências da peste.

Manifestante em frente à Prefeitura de São José de Rio Preto, durante buzinaço na cidade, pede reabertura do comércio.

Ao mesmo tempo em que Francisco ora, tão distante, e as nações reforçam que a solidão é boa medida agora, aqui sei que alguns oram inverso, querem as multidões.

Dá uma tristeza essa sexta-feira, tanta dissonância entre a razão e bom senso dos seres.

Imagens por Vaticano News, DL News e Vasily Surikov (1872)

https://riopreto.dlnews.com.br/noticias?id=23998/buzinaco-em-rio-preto-pede-reabertura-do-comercio;-prefeitura-diz-que-segue-oms

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