Carmen, mãe de Preta, líderes de sem-teto: por que nos querem presas
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Por Flávia Martinelli do Mulherias
Carmen Silva comanda um dos maiores movimentos organizados de moradia urbana do Brasil, o Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), de São Paulo. Ela teve a prisão provisória decretada na semana passada, junto com os filhos Sidney Silva e Preta Ferreira, que também fazem parte do movimento. Os irmãos foram detidos –juntamente com dois líderes de outras organizações de mesmo foco –e seguem em busca de habeas corpus para se defender em liberdade.
Os advogados de Carmen dizem aguardar o acesso ao inquérito investigativo para que ela apresente para esclarecimentos. Ela concedeu algumas entrevistas a Universa, todas há cerca de seis meses. Na época, respondia a um outro processo com acusações semelhantes às de agora. Foi inocentada. Trechos das conversas estão publicados aqui.
Veja ainda a história dessa retirante baiana, que chegou a morar na rua em São Paulo e hoje está à frente de cinco ocupações. O MSTC, do qual é presidente, conta com 2 mil membros que já foram contemplados com casa própria e outros 5 mil associados. Juntos, todos fazem parte da Frente de Luta por Moradia, que reúne outros nove movimentos, e ao todo, se organiza em quase 30 mil pessoas.
Outra saga nordestina
Poderia ser mais uma história severina de moradora de rua: cansada de ser espancada por mais de uma década pelo marido alcoólatra e ciumento, mulher negra nordestina deixa os oito filhos com parentes e vai para São Paulo ganhar a vida. O sonho é trazer suas crianças para a metrópole, mas ela se vê desamparada, sem sequer ter lugar para morar.
O roteiro trágico e previsível, no entanto, teve uma virada quando Carmen Silva Ferreira participou da reunião de um grupo de defesa do direito à moradia. “Fui no encontro de um Fórum de Cortiços por insistência de uma senhora que conheci num albergue. Eu trabalhava de dia e ia dormir lá. Estava em situação de rua, como ela”, diz Carmen. Era 1996 e Carmen falava que “que aquele negócio de ocupação era tudo besteira e mentira”.

Carmen conversa com policial durante ocupação do prédio abandonado do INSS, no Centro (Foto: Jardiel Carvalho)
Mas a migrante, vinda da Cidade Baixa de Salvador aos 35 anos, viu gente como ela naquela reunião: mulheres pretas, mães solo, trabalhadores que tinham que escolher entre comer ou morar. “Eram famílias inteiras mostrando as cartas de ordem de despejo, contando que viviam em beira de córrego e lugar com risco de morte. Era todo mundo arrebentado como eu, sem saída.”
Enquanto isso, o centro velho de São Paulo estava despovoado, com centenas de edifícios abandonados e quase nenhuma política pública de moradia voltada para a população de baixa renda. “Por que o trabalhador não podia morar ali no centro, ué? Existiam centenas de prédios vazios e proprietários que tinham mais de 200 imóveis que não davam conta de cuidar e pagar imposto. Isso, fora os edifícios que eram do Estado por causa das dívidas que superavam os valores dos imóveis.”

Em reunião com sem teto durante ocupação no antigo Hotel Cambridge. Carmem é protagonista do filme que descreve a luta por moradia. (Foto: Jardiel Carvalho)
São Paulo possui 1.385 imóveis ociosos, que estão abandonados, sem função social, subtilizados ou terrenos sem edificações, de acordo com o último Plano Municipal de Habitação, de 2016. O déficit habitacional é de 358 mil novas moradias e a cidade ainda tem outros 830 mil domicílios localizados em assentamentos precários nas margens de córregos, palafitas e construídos por madeiras, por exemplo, que necessitam de regularização e melhorias.
Hoje, 23 anos depois da primeira reunião para discutir o direito à moradia, garantido pela Constituição de 1988, Carmen lamenta ser ainda chamada de “invasora ou vândala” por parte da sociedade. Aos 59 anos, a líder orgulha-se de ser a “Dona Carmen, entre autoridades, artistas, jornalistas independentes, cartórios de registro de imóveis e até policiais.”

Cena do estado de conservação do edifício abandonado do INSS no dia da segunda ocupação no local, há dois anos. Mais de 50 toneladas de lixo foram retiradas dessa vez (Foto: Jardiel Carvalho)
Na semana passada, ela recebeu ordem de prisão temporária em operação de buscas e apreensões em endereços de 17 dirigentes de diferentes movimentos de moradia. Todos, de acordo com a polícia, são suspeitos de associação criminosa e extorsão, por cobrarem “aluguéis” entre R$ 200 e R$ 400 nas ocupações que coordenam.
A investigação diz respeito à tragédia ocorrida no dia 1º de maio de 2018, quando o edifício Wilton Paes de Almeida, ocupado por sem-tetos, desabou depois de um incêndio que deixou nove mortos. O coordenador do prédio, Ananias Pereira dos Santos, alvo de mandado de prisão ainda não cumprido, comandava a ocupação no Wilton Paes, que, segundo Carmen, nada tem a ver com o seu movimento. “É uma arbitrariedade da justiça”, diz o advogado de defesa do MSTC, Ariel de Castro.
Carmen foi inocentada no início deste ano em outro processo baseado em acusações semelhantes. Na ocasião, o juiz Marcos Vieira de Morais, da 26ª Vara Criminal de São Paulo, afirmou ausência de provas por parte dos acusadores e baseou o veredito na apresentação de notas fiscais e atas que a líder do movimento encaminhou. Segundo a sentença, elas comprovavam prestações de contas que colaboraram com a manutenção e restauro das ocupações. “A defesa anexou aos autos notas fiscais e atas de assembleias demonstrando a destinação das contribuições individuais que cada família deveria pagar para suportar as despesas mensais do edifício”, escreveu o juiz na decisão.
Carmen aguarda o desenrolar do processo atual. Em uma entrevista no Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), o delegado André Figueiredo, responsável pelo inquérito, explicou que as prisões foram requisitadas pelo Ministério Público, e o juiz plantonista Marco Antônio Vargas, da 26ª Vara Criminal de São Paulo, entendeu que as detenções seriam necessárias.
Na porta da delegacia onde Preta e Sidney se apresentaram e foram presos, manifestações ocorreram ao longo de toda a semana. Nas redes sociais, o apoio de famosos se intensifica. Já se manifestaram sobre o caso dezenas de artistas, tais como Caetano Veloso, Criolo, Mariana Aydar, Marcelo Janeci, Cleo Pires, Duda Beat, Leticia Letrux, Maria Gadú, Ana Cañas, Lua Leça, Spartakus, Mel Lisboa, Jean Wyllys, Mônica Benício, Chico César, Emicida, Bruno Gagliasso, Clara Averbuck, Maria Casadevall, Otto, Erica Malunguinho, Paulo Miklos, Preta Rara, Fioti, Karina Buhr, Bia Ferreira, Doralyce e Monique Evelle.





Reprodução Instagram/Facebook
Mumunhas do mercado
Carmen conhece o submundo do mercado imobiliário paulistano como poucos. Aprendeu a levantar o histórico de edifícios largados à fedentina com dívidas de IPTU que superam o valor dos imóveis. Descobriu o que dizem as papeladas que comprovam o abandono de prédios públicos.
“Já tiramos mais de 50 toneladas de lixo em uma única ocupação”, lembra, ao falar do antigo prédio do INSS na avenida Nove de Julho, há dois anos ocupado novamente. “Faço o serviço que a prefeitura não faz. Não só identifico imóveis sem função social como os transformo em moradia popular saudável e centro cultural para a cidade.”
Foi a terceira vez que o local foi ocupado. A primeira foi em 1997 e o edifício estava abandonado havia 20 anos. Foram refeitas as instalações elétricas e hoje o foco de cuidado é a hidráulica. Há laudos de segurança e vistoria do local, além da brigada de incêndio treinada. Vivem no prédio 123 famílias, cerca de 500 pessoas, entre 66 crianças, que contam com cursinho pré-vestibular, biblioteca, brinquedoteca, aula de música, terapia, dentista e visitas regulares de médicos de família e campanhas de vacinação própria.
Aqui, um pouco de sua trajetória, em vídeo do canal Mídia Ninja que a reportagem do UOL acompanhou na gravação:
O edifício já sediou três bienais de arquitetura: Amsterdã, São Paulo, Veneza e este ano terá a de Chicago. Um dos moradores foi eleito para o Conselho Tutelar da região. A professora e pesquisadora da Unesp, Cássia Felet, fez uma tese de mestrado que defende que a saúde mental das crianças da ocupação é melhor que a da média das crianças da cidade de São Paulo.
Carmen também se aprofundou na dinâmica de incorporadoras, milionários ou fundos de investimentos que lucram com a demolição ou com o abandono dos prédios do centro. “Sem gastar um tostão, eles aguardam incentivos fiscais e têm acesso privilegiado a projetos públicos de revitalização ou requalificação. O mercado imobiliário aquece e lucros de mais de 1000% borbulham nesses empreendimentos onde pobre não entra”, diz ela.

Bandeira da Frente de Luta por Moradia (FLM) na ocupação do prédio do antigo prédio do INSS (Foto: Jardiel Carvalho)
Ela enxerga a falta de moradia para pobres “como uma continuidade urbana do regime escravista”. “Abolição nunca existiu. Foi negado o acesso à moradia e à terra aos ex-escravizados. Também aconteceu com os índios e acontece hoje com todos os excluídos desse sistema que não quer perder sua mão-de-obra barata”, diz. E completa, com uma risada solta e sem meias-palavras: “O que querem de nós? Que a gente se contente com fome e favela? É ruim, hein!”.
Na esfera da administração pública, ela foi coordenadora do Conselho Participativo da região da Sé na cidade por dois biênios e hoje é conselheira municipal e estadual de Habitação e das políticas públicas para mulheres. Ainda coordena o conselho de gestão de duas quadras que ficam bem o meio da Cracolândia.
Em tempo: Carmen trouxe seus filhos para São Paulo ainda nos anos de 1990. Entre eles, Preta Ferreira e Sidney que seguem presos. Em São Paulo, além liderar o movimento de moradia, fez carreira por 20 anos na mesma empresa de corretagem de seguros. Foi seu primeiro emprego na cidade e ela segue como prestadora de serviços do empresário. Palestrante em cursos de arquitetura e urbanismo, também é atriz. Interpretou a si mesma no filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, que ficou 20 semanas em cartaz, foi assistido por mais de 30 mil espectadores.
Trailler oficial do filme em que Carmen interpretou a si mesma:
Abaixo, clipe de Preta Ferreira, que é cantora, atriz, publicitária e articuladora cultural:
A primeira ocupação hoje é referência cultural
Foi em em 1997 que Carmen participou da primeira ocupação ao lado de outras duas mil pessoas, no imponente prédio público do INSS no centro de São Paulo. O local estava imundo e sem utilidade havia 21 anos. Na época, foi considerada a maior ocupação da cidade. “Foi um estardalhaço. A imprensa nos chamava de vândalos, nem nos ouviam.”
Foi em em 1997 que Carmen participou da primeira ocupação ao lado de outras duas mil pessoas, no imponente prédio público do INSS no centro de São Paulo. O local estava imundo e sem utilidade havia 21 anos. Na época, foi considerada a maior ocupação da cidade. “Foi um estardalhaço. A imprensa nos chamava de vândalos, nem nos ouviam.”
Mas Carmen passou a ter CEP e comprovante de residência, ainda que provisório. “Faz muita diferença! Sem endereço você não é nada. Não consegue abrir conta no banco, mandar currículo, fazer uma prestação de geladeira, nada.” Sem a angústia de ter de decidir entre pagar o aluguel ou colocar comida no prato, é possível viver para além da sobrevivência. “Eu me lembro do horror que foi morar de favor. Quando cheguei, fiquei quase um ano procurando emprego. Quando arrumei, tava com tanta dívida que não dei conta nem do aluguei da pensãozinha do Pari. Quando vi, eu estava em situação de rua”, conta a líder que sempre ouve histórias parecidas nas ocupações.
“Me querem presa porque sou muitos”
Carmem lembra da vergonha, solidão e desespero de dormir ao relento. Como muitos, ela escondeu a condição da família porque não queria “retornar mais derrotada do que saí”. Na rua, descobriu que existia albergue e lá encontrou todo tipo de gente. “Gente boa e ruim. O que me salvou foi ter foco: eu tinha que buscar meus filhos. Aprendi também a outra lição importante: sozinho ninguém é ninguém.”
Foi no movimento por moradia que a Carmen individualista morreu. “Nunca mais pensei no meu emprego, minha casa, na minha vida e no eu, eu eu… Reaprendi a viver com o foco no coletivo. Sou muitos. Por isso me querem presa. Eu e todos que estão comigo.”
A ocupação que virou projeto de moradia Hoje, Carmen divide as contas entre cinco familiares. Eles pagam um aluguel de R$ 1800 num apartamento no centro. “Já não tenho mais necessidade de morar em ocupação e tirar lugar de quem precisa”, diz ela. Ela aguarda financiamento de uma moradia própria no antigo Hotel Cambridge, um dos prédios que ocupou e viveu em condições precárias por quatro anos.
Em 2015, o projeto de moradia feito pelos ocupantes com assessoria técnica da ONG Peabiru venceu o edital de chamamento do Programa Minha Casa, Minha Vida. O hotel vai virar moradia popular a ser financiada em banco, com escritura, documento habite-se e tudo regularizado pela prefeitura para 121 famílias que ocuparão os antigos quartos de 27,5 m² e 55m².
O sonho da casa própria, a ser realizado daqui a um ano de reformas (que eles chamam de retrofit, ou seja uma readequação completa), é resultado coletivo de centenas de embates nem sempre amigáveis com o poder público, incluindo reintegrações de posse com policiais e bombas de gás de pimenta e lacrimogênio, e preconceito da sociedade.
Não é fácil lidar com o povo nas ocupas
Carmen é famosa por ser durona em todos esses espaços. “Tenho que ser firme mesmo. Muita gente depende de mim.” Acontece de tudo numa ocupação. “Teve um que quis usar o espaço pra droga e foi corrido do movimento, outra se dizia funcionária da prefeitura e queria mesmo é guardar cigarro de contrabando no prédio.”
Existe um coordenador para cada andar do edifico e essa pessoa precisa até intermediar briga boba de vizinho. “Sabe por que eu sou grossa muitas vezes? Porque esse meu ouvido aqui é surdo pra fofoca. É tanta gente que eu esbarro que conheço as manhas e os oportunismos de uma pessoa. Tem de tudo nesse mundão. Mas aqui ter regra é essencial. Lá fora, podem fazer o que quiser mas dentro de ocupação não! Aqui homem não bate em mulher, criança tem que estudar e não fica sozinha em casa, não tem barulho depois das 22 horas e limpeza é assunto de todos”, delibera, serena, mas com sobrancelhas arqueadas.
“Jamais imaginei que uma mulher como eu, que chegou aqui estropiada, destruída de corpo e alma, estaria lutando pelo direito à moradia de tanta gente.” Gente com história severina como a dela: 60% das ocupações sob os olhos – sempre maquiados – de Carmen abrigam mães solteiras. O movimento, por sua vez, conta com 80% de força feminina, inclusive despontando como lideranças. É a tal da vida que, como no poema “Morte e Vida Severina” do nordestino João Cabral de Neto, “nela mesma, teimosamente, se fabrica”.
Esse texto foi publicado no blog Mulherias do UOL. Acesse a matéria na clicando nesse link: https://bit.ly/2Nsy2yN
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Internacional
IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS
Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)
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02/07/26
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
Por Laura Capriglione, enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

Túmulos são abertos para vítimas de ataque a escola em Minab, no Irã. Cerca de 150 pessoas morreram. — Foto: Iranian Foreign Media Department/WANA
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quanto compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Geral
O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
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6 anos atrásem
07/11/20O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac
Por Dirce Waltrick do Amarante*
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
Geral
O show de Trump: renovação ou cancelamento?
A eleição nos EUA e o destino da democracia na condição atualista
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06/11/20por
Aloisio MoraisNos EUA voto popular não significa vitória. Biden terá mais votos do que Trump e ainda assim o resultado da eleição continuará indefinido por algum tempo. Apesar dos descalabros que marcaram a gestão Trump antes e durante a pandemia, o seu desempenho na atual corrida eleitoral será muito forte.
Mateus Pereira, Valdei Araujo e Walderez Ramalho, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana, MG
A disputa está sendo muito mais acirrada do que era inicialmente previsto pela maior parte dos institutos de pesquisa e da mídia americana, embora a cautela e o medo nunca deixaram de estar presentes. Sob esse ponto de vista, as eleições deste ano são como uma repetição do que vimos em 2016, ainda que o resultado possa ser a derrota eleitoral para Trump. Em 2016 foram os democratas que denunciaram a interferência russa, agora é o presidente-agitador que se apressa em questionar a legitimidade do pleito, sem mostrar nenhuma prova. Sabemos que no ambiente do atualismo provas têm como base apenas convicções.
Um sistema eleitoral que sobreviveu por séculos, sem grandes mudanças, pode ter se tornado obsoleto desde a eleição de Bush, em 2000. Um lembrete do possível declínio da democracia americana: das últimas oito eleições presidenciais desde 1992, os democratas venceram no voto popular as últimas sete, mas em apenas quatro ocasiões ganharam o colégio eleitoral e fizeram o presidente.

Acreditamos que as eleições nos EUA são um exemplo do confronto entre duas estratégias e duas concepções sobre fazer política: de um lado, Trump e sua promessa de eterna atualização da atualidade em modo nostálgico; e Biden, com sua aposta moderada no cansaço na agitação atualista que seu adversário republicano encarna e radicaliza, e a retomada da política em moldes liberais. Essa retomada é feita sem uma crítica efetiva ao modelo neoliberal abraçado pela cúpula do partido democrata. Uma aposta radical, como Sanders, teria se saído melhor? É difícil dizer, mas tudo leva a crer que não, tendo em vista o complicado xadrez do voto estado a estado.
A escolha entre as duas estratégias/concepções se mostrou muito mais difícil e apertada do que se imaginava. A tal “onda azul” anunciada por parte da imprensa estadunidense esteve longe de acontecer. De fato, Trump se mostrou eleitoralmente muito mais forte do que os analistas supunham. Considerando que esta não é a primeira vez que os institutos de pesquisa falharam em captar esse movimento no eleitorado americano, e considerando também que fenômeno semelhante ocorreu no Brasil em 2018, coloca-se a questão de saber se as tradicionais pesquisas de opinião tornaram-se de alguma forma obsoletas em um mundo atualista. Esse quadro muda pouco, mesmo com uma eventual vitória de Biden ou pior, com uma inconveniente reeleição de Trump.
São vários fatores que devem ser considerados para avaliar essa questão. Os próprios institutos se apressaram a ensaiar algumas explicações ao público. O diretor da Trafalgar Group, Robert Cahaly, afirmou que muitos eleitores “esconderam”, como já havia acontecido, sua preferência por Trump por algum receio ou constrangimento social.[1] Não podemos desconsiderar algum tipo de boicote/sabotagem dos eleitores republicanos, já que na retórica do trumpismo as pesquisas de opinião fazem parte da mídia vendida. Outros recorreram à justificativa de que as pesquisas anteriores representavam apenas fotografias do momento específico em que as entrevistas foram feitas, e não o que se poderia esperar na eleição propriamente dita. Isso poderia ter sido de fato observado pela tendência de redução da vantagem de Biden nos últimos 15 dias. Afinal, o episódio da contaminação de Trump e sua rápida recuperação pode ter tido um saldo positivo, ao menos na mobilização de sua base, como já havíamos especulado em coluna anterior.
Aceite-se ou não essas justificativas, fato é que os institutos de pesquisa sairão dessas eleições com sua credibilidade e imagem pública mais arranhadas, sobretudo diante das especificidades do sistema eleitoral americano. Como afirmamos, muitos fatores concorrem para esse desgaste. Um deles está relacionado à condição atualista que caracteriza o nosso presente e como cada um dos candidatos se coloca frente a tal condição.

Trump é um político bastante sintonizado com o ambiente da comunicação atualista onde as provas dispensam comprovação factual. Seja nas redes sociais, seja em seus concorridos comícios, o presidente se revela um comunicador difícil de ser batido. Dentre os aspectos associados à condição atualista, destacamos a intensidade e velocidade sem precedentes do fluxo de notícias, em detrimento dos protocolos de verificação e checagem da informação veiculada. Esse ambiente infodêmico[2] é particularmente fértil para a produção de desinformação e sua disseminação como misinformação.[3] Além das informações imprecisas, para não dizer apenas falsas, que a infodemia trumpista ajuda a difundir, é preciso levar em consideração a agitação/ativação que produz. É como se a oposição se agitasse confusamente e a base trumpista se ativasse a cada um de seus comentários polêmicos. Assim, o uso constante das redes sociais para disseminar fake news ou comentários faz com que, seja de modo positivo ou negativo, o presidente esteja sempre no foco da mídia. O acúmulo de notícias sobre suas falas ou atos inconsequentes faz com que seja difícil recuperar qual foi o absurdo dito ou feito na semana anterior. Na condição atualista há um valor excepcional em estar mais atualizado (e exposto) que o seu adversário.
Ainda assim, a manipulação das fake news como ferramenta política supõe uma linguagem organizada para se tornar eficaz. Essa afirmação pode soar chocante à primeira vista: como podemos atribuir coerência a um discurso fundamentado em desinformação e que frequentemente e sem o menor pudor afirma hoje o contrário do que disse ontem, como o exemplo do uso de máscaras na pandemia?[4] O ponto aqui é que a condição atualista coloca muitos obstáculos para que o passado, mesmo o mais recente, seja trazido à reflexão. Assim, quando confrontados com suas próprias contradições, políticos atualistas como Trump e Bolsonaro simplesmente atualizam suas narrativas e afirmações quando as anteriores se tornam insustentáveis. Com muita frequência, os seus discursos mudam em função da conveniência da atualidade, sem a mínima necessidade de se prestar conta da contradição com o que eles mesmos diziam no dia anterior.
Essa estrutura atualista do discurso político só se torna eficaz, porém, no interior de uma linguagem organizada e facilmente identificável pelo público que a compartilha, no interior de uma condição material de reorganização do mundo do trabalho e do capital. A crise de 2008, concentração de renda, neoliberalismo, capitalismo de vigilância e a formação do atual “precariado” são elementos, dentre outros, fundamentais para entender a emergência de líderes que governam e são eleitos por pequenas maiorias mobilizadas pela historicidade e ideologia atualista. Só assim podemos entender a força de Trump na eleição independente do resultado final, ainda que sua derrota interesse a todos os democratas do mundo.

Trump lança mão de artifícios retóricos quando confrontado com suas afirmações evidentemente baseadas em mentiras e contradições, de tal maneira que ele consegue, mesmo em tais situações, transmitir e reforçar o código entre o seu público. O código se estrutura em uma lógica antagonista, na qual o portador é sempre vítima de perseguição por parte do establishment e da imprensa vendida para a “esquerda corrupta” ou as corporações globalistas.
O ponto principal a ser considerado é que para ser politicamente eficaz não é necessário que o código seja compartilhado por todos; mas que seja continuamente ativado junto aqueles que já o compartilham. Por mais que esteja sustentado em desinformações, o fato é que o código é bastante poderoso na ativação de afetos políticos centrais como o medo, ódio e ansiedade, vetores de forte engajamento e agitação política que Trump e Bolsonaro sabem tão bem promover.
O sucesso dessa estratégia se coaduna com a popularização das redes sociais e dos smartphones, bem como das novas tecnologias de processamento de dados manipulados para fins políticos. Nesse contexto, tornou-se possível criar e difundir mensagens sob medida para cada tipo de público, cada indivíduo ou grupo formula suas próprias percepções sobre o mundo a partir de narrativas (códigos) que não mais precisam ser expostos publicamente a todos para serem eficazes. Após alguns reconhecimentos iniciais, os algoritmos se encarregam de abastecer-nos das notícias que nos mobilizam, sempre com o mesmo teor e formato. Reforça-se, assim, o fenômeno das “bolhas”.[5] Esses códigos podem circular de forma subterrânea, de tal modo que o que parece absurdo e chocante para uns, é perfeitamente aceitável e normalizado para outros.
Esse ambiente de circulação de notícias e códigos é condizente com a ordem atualista de nosso tempo e, ao nosso ver, é um fator importante a ser considerado no desempenho surpreendente de Trump nestas eleições. E um dos preços a se pagar para tal sucesso é a radicalização do clima de agitação que tem marcado a nossa época. Esse quadro tem resultado inclusive em distúrbios psicológicos cada vez mais comuns, como o “transtorno do estresse eleitoral”, que segundo estimativas afeta sete em cada dez cidadãos estadunidenses.[6]

Os políticos atualistas claramente não se importam em pagar esse preço, na verdade eles têm lucrado com isso. Mas, ao fim e ao cabo, eles não podem evitar completamente os efeitos colaterais de suas apostas. Agitação e dispersão geram também cansaço no eleitorado. Biden e os democratas tomaram esse efeito como vetor de suas estratégias para estas eleições. Frente à irrefreável agitação de Trump, Biden se vendeu como a opção mais “centrista”, de moderação e convergência. A divergência entre as duas estratégias foi mais uma vez demonstrada logo após o fechamento da votação: enquanto Trump se apressou em declarar-se vencedor e dizer que irá judicializar a eleição em caso de derrota, Biden classificou tal postura como “ultrajante” e pregou calma aos seus apoiadores[7].
Mesmo que a vitória do democrata seja confirmada, é inegável que o preço desse lance foi bastante alto. A imprensa americana noticiou como parcelas importantes do eleitorado negro, que o próprio Biden afirmou ser “a chave para a vitória”, relataram estarem pouco motivados a votarem no candidato democrata.[8] O mesmo ocorreu entre parte do eleitorado hispânico, em especial na Flórida e no Texas. O conservadorismo nos costumes, a adesão a denominações evangélicas que tem crescido entre hispânicos e a tradição anticomunista dos cubanos, e agora também venezuelanos, na Flórida, são fenômenos a serem considerados. Enquanto fechamos essa coluna Trump ainda lidera na Pensilvânia, estado no qual o operariado branco migrou dos democratas para o trumpismo. No último debate, Biden acabou por reconhecer que teria que acabar com a exploração do altamente poluente gás de xisto, o que foi imediatamente explorado por Trump: “Eis uma declaração importante”, ironizou o presidente. Caso perca por margem apertada na Pensilvânia, onde os trabalhadores dessa indústria são amplamente sensíveis ao tema, talvez essa declaração tenha custado a eleição.
Para entender melhor essas flutuações teríamos que fazer algo pouco praticado durante a campanha, uma avaliação retrospectiva fundada em boa informação acerca das políticas públicas implementadas por democratas e republicanos, em especial nos governos Obama e Trump. O apoio ao republicano não é apenas resultado da mágica da comunicação, deriva também da tibieza das políticas democratas e dos acertos de Trump. Reforma do sistema criminal, política externa menos intervencionista, foco na economia e na criação de empregos, com bons resultados, ao menos até a pandemia.
A decisão das eleições primárias do Partido Democrata em nomear um candidato “centrista” para concorrer nessas eleições – ao contrário de uma opção mais radical do populismo de esquerda como Bernie Sanders – foi importante para unificar o partido (em especial o seu establishment) e angariar o apoio do eleitorado “cansado” da agitação radicalizada. Por outro lado, a figura moderada de Biden não se mostrou capaz de promover um grau de engajamento e mobilização do público à altura do seu adversário agitador, nem está claro ainda se seu discurso de união nacional conseguiu atrair eleitores de Trump. Essa diferença é importante em um contexto onde o voto não é obrigatório e, no caso particular das eleições deste ano, ainda mais desencorajado pela pandemia do coronavírus.
Mesmo assim, a moderação pode ter sido eficaz para para derrotar a agitação, mas não para desativá-la. E ainda não podemos assegurar como os EUA sairá dessas eleições, pois Trump continua sendo quem é. Há ainda o risco de o agitador perder e não aceitar sair, e as consequências disso poderão ser catastróficas. E mesmo que ele saia, o trumpismo – o negacionismo, o anti-esquerdismo, o desejo de retorno a um passado glorioso e mítico – ainda permanecerá em parcelas consideráveis da população.

O que tudo isso ensina para o campo democrático brasileiro, que tem de enfrentar a sua própria versão de agitador atualista? Desde o início da votação nos EUA, Bolsonaro disparou freneticamente uma série de tweets ressoando as alegações infundadas de seu ídolo sobre as eleições serem “fraudadas” a favor dos democratas, o que seria um risco para a “liberdade” e para o Brasil. Afinal, nosso agitador atualista tupiniquim sabe bem que a permanência de Trump é uma força de sustentação fundamental para ele. As relações entre EUA e Brasil deixaram de ser uma relação entre Estados, mas sim uma relação de “amizade” (leia-se emulação e, do nosso ponto de vista, subserviência) entre os chefes de turno da Casa Branca e do Palácio do Planalto.
Assim, e seguindo o estilo atualista de fazer política, Bolsonaro ressoa as afirmações sem fundamento de Trump, sem se preocupar com a veracidade e desprezando o princípio diplomático básico da impessoalidade. Mas Bolsonaro também tem seu próprio código “alternativo”, cujo enfrentamento é a tarefa prioritária das forças democráticas no Brasil, que deverá avaliar e tomar suas próprias escolhas para vencer o confronto. Assim como o trumpismo, nos Estados Unidos, o bolsonarismo é um fenômeno que não necessariamente depende da permanência de Bolsonaro no poder: ele mobiliza parcelas consideráveis da população através de seus discursos, que defendem o conservadorismo nos costumes, o liberalismo na economia, a luta contra “o sistema”, a religião e a admiração pelo militarismo.
Será que a aposta moderada e centrista será suficiente para derrotar o bolsonarismo aqui? Mesmo que por pouco? Ou, em nosso contexto particular, faz-se necessário redobrar a aposta na radicalização pela via da esquerda? Mesmo que a vitória de Biden seja confirmada, ainda não está claro qual das duas vias parece a mais indicada para o Brasil. Enfim, tudo indica um destino trágico da democracia liberal de “pequenas maiorias” em tempos de agitação atualista. Sem negar a nossa atual realidade, cabe a nós pensar e imaginar alternativas, por mais difícil que pareça ser em nosso atual nevoeiro e impregnados por uma sensação de asfixia. Além disso, a lentidão com que a apuração avança em alguns estados decisivos promete nos deixar hipnotizados pelos mapas eleitorais na expectativa da atualização decisiva.
(*) Mateus Pereira e Valdei Araujo escreveram o Almanaque da Covid-19: 150 dias para não esquecer ou o encontro do presidente fake e um vírus real com Mayra Marques. Ambos são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana (MG). Também são autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem. Walderez Ramalho é doutorando em História na mesma instituição. Agradecemos à Márcia Motta e ao grupo Proprietas pelo apoio e interlocução nesse projeto.
[1] https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2020/11/04/o-eleitor-oculto-de-trump-e-o-novo-erro-dos-institutos-de-pesquisa.htm
[2] PEREIRA, Mateus; MARQUES, Mayra; ARAUJO, Valdei. Almanaque da COVID-19: 150 dias para não esquecer, ou a história do encontro entre um presidente fake e um vírus real. Vitória: Editora Milfontes, 2020.
[3] Usamos aqui um neologismo para dar conta da diferença que em inglês é mais clara entre a produção deliberada de notícias falsas (disinformation) e sua disseminação involuntária (misinformation).
[4] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/07/20/trump-muda-discurso-e-agora-diz-que-usar-mascara-e-patriotico.htm
[5] EMPOLI, Giuliano Da. Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algorítimos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. São Paulo: Vestígio, 2019.
[6] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/10/quase-sete-em-cada-dez-americanos-relatam-transtorno-do-estresse-eleitoral.shtml
[7] https://br.noticias.yahoo.com/em-pronunciamentos-biden-prega-calma-e-trump-faz-acusacao-de-roubo-065922289.html
[8] https://www.aljazeera.com/news/2020/9/12/biden-battles-trump-lack-of-enthusiasm-among-black-voters
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