Carmen Silva comanda um dos maiores movimentos organizados de moradia urbana do Brasil, o Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), de São Paulo. Ela teve a prisão provisória decretada na semana passada, junto com os filhos Sidney Silva e Preta Ferreira, que também fazem parte do movimento. Os irmãos foram detidos –juntamente com dois líderes de outras organizações de mesmo foco –e seguem em busca de habeas corpus para se defender em liberdade.
Os advogados de Carmen dizem aguardar o acesso ao inquérito investigativo para que ela apresente para esclarecimentos. Ela concedeu algumas entrevistas a Universa, todas há cerca de seis meses. Na época, respondia a um outro processo com acusações semelhantes às de agora. Foi inocentada. Trechos das conversas estão publicados aqui.
Veja ainda a história dessa retirante baiana, que chegou a morar na rua em São Paulo e hoje está à frente de cinco ocupações. O MSTC, do qual é presidente, conta com 2 mil membros que já foram contemplados com casa própria e outros 5 mil associados. Juntos, todos fazem parte da Frente de Luta por Moradia, que reúne outros nove movimentos, e ao todo, se organiza em quase 30 mil pessoas.
Outra saga nordestina
Poderia ser mais uma história severina de moradora de rua: cansada de ser espancada por mais de uma década pelo marido alcoólatra e ciumento, mulher negra nordestina deixa os oito filhos com parentes e vai para São Paulo ganhar a vida. O sonho é trazer suas crianças para a metrópole, mas ela se vê desamparada, sem sequer ter lugar para morar.
O roteiro trágico e previsível, no entanto, teve uma virada quando Carmen Silva Ferreira participou da reunião de um grupo de defesa do direito à moradia. “Fui no encontro de um Fórum de Cortiços por insistência de uma senhora que conheci num albergue. Eu trabalhava de dia e ia dormir lá. Estava em situação de rua, como ela”, diz Carmen. Era 1996 e Carmen falava que “que aquele negócio de ocupação era tudo besteira e mentira”.
Carmen conversa com policial durante ocupação do prédio abandonado do INSS, no Centro (Foto: Jardiel Carvalho)
Mas a migrante, vinda da Cidade Baixa de Salvador aos 35 anos, viu gente como ela naquela reunião: mulheres pretas, mães solo, trabalhadores que tinham que escolher entre comer ou morar. “Eram famílias inteiras mostrando as cartas de ordem de despejo, contando que viviam em beira de córrego e lugar com risco de morte. Era todo mundo arrebentado como eu, sem saída.”
Enquanto isso, o centro velho de São Paulo estava despovoado, com centenas de edifícios abandonados e quase nenhuma política pública de moradia voltada para a população de baixa renda. “Por que o trabalhador não podia morar ali no centro, ué? Existiam centenas de prédios vazios e proprietários que tinham mais de 200 imóveis que não davam conta de cuidar e pagar imposto. Isso, fora os edifícios que eram do Estado por causa das dívidas que superavam os valores dos imóveis.”
Em reunião com sem teto durante ocupação no antigo Hotel Cambridge. Carmem é protagonista do filme que descreve a luta por moradia. (Foto: Jardiel Carvalho)
São Paulo possui 1.385 imóveis ociosos, que estão abandonados, sem função social, subtilizados ou terrenos sem edificações, de acordo com o último Plano Municipal de Habitação, de 2016. O déficit habitacional é de 358 mil novas moradias e a cidade ainda tem outros 830 mil domicílios localizados em assentamentos precários nas margens de córregos, palafitas e construídos por madeiras, por exemplo, que necessitam de regularização e melhorias.
Hoje, 23 anos depois da primeira reunião para discutir o direito à moradia, garantido pela Constituição de 1988, Carmen lamenta ser ainda chamada de “invasora ou vândala” por parte da sociedade. Aos 59 anos, a líder orgulha-se de ser a “Dona Carmen, entre autoridades, artistas, jornalistas independentes, cartórios de registro de imóveis e até policiais.”
Cena do estado de conservação do edifício abandonado do INSS no dia da segunda ocupação no local, há dois anos. Mais de 50 toneladas de lixo foram retiradas dessa vez (Foto: Jardiel Carvalho)
Na semana passada, ela recebeu ordem de prisão temporária em operação de buscas e apreensões em endereços de 17 dirigentes de diferentes movimentos de moradia. Todos, de acordo com a polícia, são suspeitos de associação criminosa e extorsão, por cobrarem “aluguéis” entre R$ 200 e R$ 400 nas ocupações que coordenam.
A investigação diz respeito à tragédia ocorrida no dia 1º de maio de 2018, quando o edifício Wilton Paes de Almeida, ocupado por sem-tetos, desabou depois de um incêndio que deixou nove mortos. O coordenador do prédio, Ananias Pereira dos Santos, alvo de mandado de prisão ainda não cumprido, comandava a ocupação no Wilton Paes, que, segundo Carmen, nada tem a ver com o seu movimento. “É uma arbitrariedade da justiça”, diz o advogado de defesa do MSTC, Ariel de Castro.
Carmen foi inocentada no início deste ano em outro processo baseado em acusações semelhantes. Na ocasião, o juiz Marcos Vieira de Morais, da 26ª Vara Criminal de São Paulo, afirmou ausência de provas por parte dos acusadores e baseou o veredito na apresentação de notas fiscais e atas que a líder do movimento encaminhou. Segundo a sentença, elas comprovavam prestações de contas que colaboraram com a manutenção e restauro das ocupações. “A defesa anexou aos autos notas fiscais e atas de assembleias demonstrando a destinação das contribuições individuais que cada família deveria pagar para suportar as despesas mensais do edifício”, escreveu o juiz na decisão.
Carmen aguarda o desenrolar do processo atual. Em uma entrevista no Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), o delegado André Figueiredo, responsável pelo inquérito, explicou que as prisões foram requisitadas pelo Ministério Público, e o juiz plantonista Marco Antônio Vargas, da 26ª Vara Criminal de São Paulo, entendeu que as detenções seriam necessárias.
Na porta da delegacia onde Preta e Sidney se apresentaram e foram presos, manifestações ocorreram ao longo de toda a semana. Nas redes sociais, o apoio de famosos se intensifica. Já se manifestaram sobre o caso dezenas de artistas, tais como Caetano Veloso, Criolo, Mariana Aydar, Marcelo Janeci, Cleo Pires, Duda Beat, Leticia Letrux, Maria Gadú, Ana Cañas, Lua Leça, Spartakus, Mel Lisboa, Jean Wyllys, Mônica Benício, Chico César, Emicida, Bruno Gagliasso, Clara Averbuck, Maria Casadevall, Otto, Erica Malunguinho, Paulo Miklos, Preta Rara, Fioti, Karina Buhr, Bia Ferreira, Doralyce e Monique Evelle.
Reprodução Instagram/Facebook
Mumunhas do mercado
Carmen conhece o submundo do mercado imobiliário paulistano como poucos. Aprendeu a levantar o histórico de edifícios largados à fedentina com dívidas de IPTU que superam o valor dos imóveis. Descobriu o que dizem as papeladas que comprovam o abandono de prédios públicos.
“Já tiramos mais de 50 toneladas de lixo em uma única ocupação”, lembra, ao falar do antigo prédio do INSS na avenida Nove de Julho, há dois anos ocupado novamente. “Faço o serviço que a prefeitura não faz. Não só identifico imóveis sem função social como os transformo em moradia popular saudável e centro cultural para a cidade.”
Foi a terceira vez que o local foi ocupado. A primeira foi em 1997 e o edifício estava abandonado havia 20 anos. Foram refeitas as instalações elétricas e hoje o foco de cuidado é a hidráulica. Há laudos de segurança e vistoria do local, além da brigada de incêndio treinada. Vivem no prédio 123 famílias, cerca de 500 pessoas, entre 66 crianças, que contam com cursinho pré-vestibular, biblioteca, brinquedoteca, aula de música, terapia, dentista e visitas regulares de médicos de família e campanhas de vacinação própria.
Aqui, um pouco de sua trajetória, em vídeo do canal Mídia Ninja que a reportagem do UOL acompanhou na gravação:
O edifício já sediou três bienais de arquitetura: Amsterdã, São Paulo, Veneza e este ano terá a de Chicago. Um dos moradores foi eleito para o Conselho Tutelar da região. A professora e pesquisadora da Unesp, Cássia Felet, fez uma tese de mestrado que defende que a saúde mental das crianças da ocupação é melhor que a da média das crianças da cidade de São Paulo.
Carmen também se aprofundou na dinâmica de incorporadoras, milionários ou fundos de investimentos que lucram com a demolição ou com o abandono dos prédios do centro. “Sem gastar um tostão, eles aguardam incentivos fiscais e têm acesso privilegiado a projetos públicos de revitalização ou requalificação. O mercado imobiliário aquece e lucros de mais de 1000% borbulham nesses empreendimentos onde pobre não entra”, diz ela.
Bandeira da Frente de Luta por Moradia (FLM) na ocupação do prédio do antigo prédio do INSS (Foto: Jardiel Carvalho)
Ela enxerga a falta de moradia para pobres “como uma continuidade urbana do regime escravista”. “Abolição nunca existiu. Foi negado o acesso à moradia e à terra aos ex-escravizados. Também aconteceu com os índios e acontece hoje com todos os excluídos desse sistema que não quer perder sua mão-de-obra barata”, diz. E completa, com uma risada solta e sem meias-palavras: “O que querem de nós? Que a gente se contente com fome e favela? É ruim, hein!”.
Na esfera da administração pública, ela foi coordenadora do Conselho Participativo da região da Sé na cidade por dois biênios e hoje é conselheira municipal e estadual de Habitação e das políticas públicas para mulheres. Ainda coordena o conselho de gestão de duas quadras que ficam bem o meio da Cracolândia.
Em tempo: Carmen trouxe seus filhos para São Paulo ainda nos anos de 1990. Entre eles, Preta Ferreira e Sidney que seguem presos. Em São Paulo, além liderar o movimento de moradia, fez carreira por 20 anos na mesma empresa de corretagem de seguros. Foi seu primeiro emprego na cidade e ela segue como prestadora de serviços do empresário. Palestrante em cursos de arquitetura e urbanismo, também é atriz. Interpretou a si mesma no filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, que ficou 20 semanas em cartaz, foi assistido por mais de 30 mil espectadores.
Trailler oficial do filme em que Carmen interpretou a si mesma:
Abaixo, clipe de Preta Ferreira, que é cantora, atriz, publicitária e articuladora cultural:
A primeira ocupação hoje é referência cultural
Foi em em 1997 que Carmen participou da primeira ocupação ao lado de outras duas mil pessoas, no imponente prédio público do INSS no centro de São Paulo. O local estava imundo e sem utilidade havia 21 anos. Na época, foi considerada a maior ocupação da cidade. “Foi um estardalhaço. A imprensa nos chamava de vândalos, nem nos ouviam.”
Foi em em 1997 que Carmen participou da primeira ocupação ao lado de outras duas mil pessoas, no imponente prédio público do INSS no centro de São Paulo. O local estava imundo e sem utilidade havia 21 anos. Na época, foi considerada a maior ocupação da cidade. “Foi um estardalhaço. A imprensa nos chamava de vândalos, nem nos ouviam.”
Mas Carmen passou a ter CEP e comprovante de residência, ainda que provisório. “Faz muita diferença! Sem endereço você não é nada. Não consegue abrir conta no banco, mandar currículo, fazer uma prestação de geladeira, nada.” Sem a angústia de ter de decidir entre pagar o aluguel ou colocar comida no prato, é possível viver para além da sobrevivência. “Eu me lembro do horror que foi morar de favor. Quando cheguei, fiquei quase um ano procurando emprego. Quando arrumei, tava com tanta dívida que não dei conta nem do aluguei da pensãozinha do Pari. Quando vi, eu estava em situação de rua”, conta a líder que sempre ouve histórias parecidas nas ocupações.
“Me querem presa porque sou muitos”
Carmem lembra da vergonha, solidão e desespero de dormir ao relento. Como muitos, ela escondeu a condição da família porque não queria “retornar mais derrotada do que saí”. Na rua, descobriu que existia albergue e lá encontrou todo tipo de gente. “Gente boa e ruim. O que me salvou foi ter foco: eu tinha que buscar meus filhos. Aprendi também a outra lição importante: sozinho ninguém é ninguém.”
Foi no movimento por moradia que a Carmen individualista morreu. “Nunca mais pensei no meu emprego, minha casa, na minha vida e no eu, eu eu… Reaprendi a viver com o foco no coletivo. Sou muitos. Por isso me querem presa. Eu e todos que estão comigo.”
A ocupação que virou projeto de moradia Hoje, Carmen divide as contas entre cinco familiares. Eles pagam um aluguel de R$ 1800 num apartamento no centro. “Já não tenho mais necessidade de morar em ocupação e tirar lugar de quem precisa”, diz ela. Ela aguarda financiamento de uma moradia própria no antigo Hotel Cambridge, um dos prédios que ocupou e viveu em condições precárias por quatro anos.
Em 2015, o projeto de moradia feito pelos ocupantes com assessoria técnica da ONG Peabiru venceu o edital de chamamento do Programa Minha Casa, Minha Vida. O hotel vai virar moradia popular a ser financiada em banco, com escritura, documento habite-se e tudo regularizado pela prefeitura para 121 famílias que ocuparão os antigos quartos de 27,5 m² e 55m².
O sonho da casa própria, a ser realizado daqui a um ano de reformas (que eles chamam de retrofit, ou seja uma readequação completa), é resultado coletivo de centenas de embates nem sempre amigáveis com o poder público, incluindo reintegrações de posse com policiais e bombas de gás de pimenta e lacrimogênio, e preconceito da sociedade.
Não é fácil lidar com o povo nas ocupas
Carmen é famosa por ser durona em todos esses espaços. “Tenho que ser firme mesmo. Muita gente depende de mim.” Acontece de tudo numa ocupação. “Teve um que quis usar o espaço pra droga e foi corrido do movimento, outra se dizia funcionária da prefeitura e queria mesmo é guardar cigarro de contrabando no prédio.”
Existe um coordenador para cada andar do edifico e essa pessoa precisa até intermediar briga boba de vizinho. “Sabe por que eu sou grossa muitas vezes? Porque esse meu ouvido aqui é surdo pra fofoca. É tanta gente que eu esbarro que conheço as manhas e os oportunismos de uma pessoa. Tem de tudo nesse mundão. Mas aqui ter regra é essencial. Lá fora, podem fazer o que quiser mas dentro de ocupação não! Aqui homem não bate em mulher, criança tem que estudar e não fica sozinha em casa, não tem barulho depois das 22 horas e limpeza é assunto de todos”, delibera, serena, mas com sobrancelhas arqueadas.
“Jamais imaginei que uma mulher como eu, que chegou aqui estropiada, destruída de corpo e alma, estaria lutando pelo direito à moradia de tanta gente.” Gente com história severina como a dela: 60% das ocupações sob os olhos – sempre maquiados – de Carmen abrigam mães solteiras. O movimento, por sua vez, conta com 80% de força feminina, inclusive despontando como lideranças. É a tal da vida que, como no poema “Morte e Vida Severina” do nordestino João Cabral de Neto, “nela mesma, teimosamente, se fabrica”.
Esse texto foi publicado no blog Mulherias do UOL. Acesse a matéria na clicando nesse link: https://bit.ly/2Nsy2yN
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina