Ontem o dia amanheceu rico na capital do país, Brasília. Fascinante reunião de representantes de dezenas de etnias mostrava o esplendor imensurável da cultura e tradições dos povos indígenas do país. O evento Acampamento Terra Livre, organizado pela Articulação Povos Indígenas do Brasil, me dava a impressão de estar chegando a uma reunião de cúpula de grandes líderes internacionais, desses que às vezes vemos na TV, desde crianças.

Tamanha  riqueza de detalhes e profusão de línguas originárias, que em muitos momentos provocam forte emoção, me envolvia o pensamento e de fato me sentia numa capital do mundo, me orgulhava da nação que chamamos de Brasil, mas os índios chamavam Pindorama quando uma terra livre se fazia e tudo era índio.

O objetivo do Acampamento é: “Reunir em grande assembléia lideranças dos povos e organizações indígenas de todas as regiões do Brasil para discutir e se posicionar sobre a violação dos direitos constitucionais e originários dos povos indígenas e das políticas anti-indígenas do Estado brasileiro”.

 

 

 

Pouco durou meu deleite com a cidade que inspira liberdade entre sua monumental esplanada. A marcha que seguia foi recebida à bomba quando os indígenas em protesto, colocaram blocos de isopor no espelho d’água, feito caixões para os defuntos, aludindo aos muitos mortos nessa guerra pela terra e suas fortunas. Os indígenas e seus guerreiros reagiram com flechas tradicionais às culturas e foram ferozmente atacados com dezenas de bombas de gás, não se importando o batalhão com as muitas mulheres, idosos ou qualquer população acostumada aos rincões; muitos indígenas inclusive com pouco contato com esse artefato que queima a pele e mareja os olhos, chamado entre nós de bomba de efeito moral. Muitos passaram mal sobre o efeito desnecessário de tal truculência imoral. Muitos jovens das etnias revidaram as ameaças ao protesto pacífico que se fazia então.

 

Apenas a presença de seis deputados e uma senadora conseguiu debelar a fúria da trompa, que fartamente deixaram os índios cheio de fumaça, como eles mesmo descrevem o fato, quando se acalmaram os ânimos. Aquilo que deveria ser motivo para alertar o Congresso sobre a necessidade urgente de atenção às reivindicações das lideranças indígenas, em legítima manifestação e auspicioso encontro, tornou-se instantaneamente uma diáspora.

 

Jogaram bombas entre tantos, tudo faz lembrar os séculos de martírio perpetrado aos povos originários. O poder ilegítimo que nesse momento envolve a esplanada , arrogante com os povos indígenas durante toda história, mostra sua mão pesada entre arcos e eixos.

Não, Brasília não é fascinante, escandaliza em suas misérias e mazelas. O arquiteto deve ter pensado paz quando sonhou a cidade, mas se querem guerra terão guerra.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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