O PODER DA INTOLERÂNCIA

 

As ruas da capital do país estavam diferentes na manhã desta quarta-feira. Mais viaturas na esplanada, mais plumas e rostos pintados nas vias. Os indígenas, muitos, que se abrigam em pousadas simples localizadas no que aqui chamam W3 Norte, ou que em barracas e entre plástico preto ergueram uma aldeia durante o Acampamento Terra Livre, no Eixo Monumental da cidade, resistem ao sol, chuva, banheiros químicos e água de cano. Do improviso e coragem se faz o tempo dos mais simples que à terra pertencem, como semente de buriti ou pequi, tudo é vida que insiste.

Há uma escada que, aos fundos da grande quadra em que se instalou o acampamento, em seus degraus está escrito por artista desprovido de galerias: O POEMA É ÁREA  PÚBLICA INVADIDA PELA IMAGINAÇÃO. Nada mais apropriado para esses dias de discórdia.

Políticos se sensibilizaram com a forte agressão impetrada aos povos reunidos na capital e que  foram afrontados em legítima manifestação. Tal confronto levou à convocação da presença de lideranças indígenas de todas as regiões para uma reunião em sala do anexo do Senado durante a tarde desta quarta-feira.

Muito bem, assim foi e organizou-se o cronograma  entre as lideranças para o vespertino previsto e foram em um grupo de 60 representantes de variadas etnias ao encontro no anexo do povo, definido Senado. A regra era clara, não portar qualquer flecha ou borduna (pedaço de pau usado entre guerras tribais) durante a visita para o diálogo. Saíram do Acampamento e passaram todos por revista de policiais entre viaturas, logo no início da longa caminhada à área dos anexos, aliás essa cidade adora anexos.

Tudo corria bem até que um capitão exaltado e autocrático (essa emoção é muito evidente entre os policiais daqui) não gostou de ser chamado de baby, palavra sem nenhum importância para o indígena que a pronúncia, e prontamente respondeu: não me chame de baby, meu nome é capitão… Pronto, estava instalada uma discórdia entre orgulho e ofensas.  Cena quase surrealista entre a vaidade de um policial e o mundo de fato quase provocou uma guerra entre dois universos, pois o capitão mobilizou dezenas de policiais para seu resguardo, além de convocar a cavalaria da capital, para escoltar um grupo de 60 indígenas durante o trânsito livre para os  cidadãos em um país nem tão livre assim.

Um dia após a Marcha Indígena ser brutalmente reprimida pela polícia, com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, atingindo idosos e crianças, foi convocada uma audiência pública pela senadora Maria Regina Souza, do Piauí, para discutir os desejos do movimento indígena, como a demarcação de terras e a atual situação das terras já demarcadas.

A comitiva multi-étnica foi covardemente proibida de entrar na audiência pública que discutiria suas próprias questões. Com o falso argumento que a sala não comportaria tantas pessoas, embromaram a comitiva indígena. O ex-senador João Pedro, a senadora Vanessa Grazziotin e a própria senadora Maria Regina tentaram em vão, passar a audiência para um auditório maior, e assim contemplar a todos os presentes. Sentindo-se completamente desrespeitados a comitiva decidiu voltar para o Acampamento Terra Livre. Mais uma vez percebe-se a total indiferença que as instituições tratam as causas indígenas.

Não fosse suficiente todo o enredo e triste cenário armado na capital do da nação, os indígenas foram abordados por viatura que transitava na rua, no local em que o Acampamento se instala. Centenas de indígenas reagiram a abordagem exigindo respeito, pois nada justificava tais abordagens. Mais uma vez dezenas de policiais se mobilizaram.

Talvez por providência ou simples capricho da natureza, forte chuva começou a cair na capital, amainando tais ânimos, dissipando fúrias, vaidades e corporações.

Brasília se mostra cidade proibida. Triste ver o sonho do poeta mergulhado na opressão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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