Bolsonarismo faz escola

NO RIO - Em cerimônia que celebrou a evangelização de alunos, presidente eleito inaugura escola da Polícia Militar que leva nome do patriarca da família Bolsonaro

Quando morreu, em 1995, aos 68 anos, o “protético e dentista prático” Percy Geraldo Bolsonaro dificilmente poderia imaginar que, mais de duas décadas depois, teria seu nome homenageado em uma escola. Mas, devido ao fenômeno de um de seus seis filhos, Jair Bolsonaro, foi exatamente isso ocorreu nesta segunda-feira, 17, às margens da Rodovia Washington Luiz, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A mobilização foi típica de uma grande inauguração: muitos políticos, policiais, bombeiros, banda marcial, crianças das comunidades do entorno. Mas a verdade por detrás da festa revelou a celebração do lançamento de uma escola com uma única turma, de 60 alunos, do sexto ano. Todos filhos de policiais militares. Mas mais do que isso, o evento que marcou a inauguração da terceira escola (embora a segunda ainda não esteja funcionando) da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi a mais bem acabada definição do que o Bolsonarismo pretende para a educação básica no Brasil: colégios evangelizadores e disciplinadores.

“Às vezes, para corrigir um aluno é preciso exagerar um pouco.

É um exagero de ensinar o certo”.

A frase foi dita por uma policial militar, em meio a tantos outros policiais militares, já na dispersão do evento, porém traduz perfeitamente, de maneira ainda mais clara, o que as autoridades disseram no palanque da escola minutos antes.

O prefeito de Duque de Caxias, Washignton Reis, teve a ousadia de esquecer os salários atrasados e os graves problemas de diálogo com os professores, que já motivaram diversas greves dos educadores municipais, para dizer que a “única coisa que a gente vê que falta na educação é uma disciplina, uma direção de escola comprometida com a disciplina. A gente oferece uma infraestrutura diferenciada, uma alimentação de qualidade”. Empolgadíssimo, tentando surfar cada milímetro na onda do  bolsonarismo, Washington Reis ainda disse que aquela escola tinha nome e sobrenome: “Flávio Bolsonaro Reis”.

Solenidade contou com muitos policiais militares e deputados eleitos pelo Bolsonarismo.

Até Flávio apareceu

O projeto da escola em Duque de Caxias foi uma articulação da prefeitura com o deputado estadual Flávio Bolsonaro e ainda com o governo de Pezão. Embora o governador não tenha aparecido na inauguração, por estar preso, seu nome foi estampado no alto da placa da escola. Por falar em corrupção, esta foi a primeira aparição pública de Flávio Bolsonaro após o escândalo com seu mandato e equipe de assessores. Mas é claro que protegido, longe dos jornalistas, Flávio não falou de motoristas, laranjas ou lavanderias, preferiu se dedicar ao assunto do dia, a disciplina escolar: “É isso que os filhos de bombeiros, de policiais militares e de civis, que todos merecem: uma educação com disciplina, com ordem dentro de sala de aula, com ensino de qualidade. Crianças e adolescentes aprendendo o que interessa. Uma formação pensando no uso desta mão de obra para que seja usada aqui no município”.

O pai de Flávio, Jair, é claro, foi na mesma linha logo na primeira frase: “O seu Percy não era professor, mas naquele tempo se exercia autoridade. Com o tempo fomos perdendo tudo isso aí. Os colégios militarizados e os colégios militares estão à frente de grande parte dos demais. Mas não tem nada a ver no tocante à qualidade dos professores. São muito parecidos. O que se perdeu ao longo do tempo foi a possibilidade do exercício da autoridade por parte dos mestres. Muitos conseguem manter isso ainda, mas, como regra, isso foi deixado para trás”.

Moradores do entorno foram ver o presidente eleito.

Mais escolas

O ex-juiz federal e agora governador eleito Wilson Witzel, talvez a mais surpreendente criação do bolsonarismo, também não perdeu a oportunidade de ser fotografado ao lado de Jair. Em seu discurso, novas doses cavalares de uma educação disciplinadora: “A gloriosa Polícia Militar vai ter aqui neste ambiente mais uma oportunidade de transmitir aos nossos jovens valores de disciplina e hierarquia, essenciais numa sociedade que quer ordem e progresso. No ano que vem, já estaremos iniciando novas escolas militares, do Corpo de Bombeiros, da PM e, em Angra dos Reis, vamos lançar a primeira Escola Militar Naval do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil”.

Witzel, ao final do discurso, enquanto descia do palanque e era celebrado por populares que gritavam “na cabecinha”, fez um sinal de arma com a mão apontada para a própria cabeça. O governador eleito defende que qualquer civil que esteja de porte de um fuzil seja executado sumariamente pelas forças de segurança.

Voltando a Jair Bolsonaro e ao bolsonarismo, outras partes do discurso, além da disciplina, chamaram a atenção. Trata-se da repetitiva defesa de uma educação evangelizadora, algo muito contraditório para quem defende a ‘escola sem partido’. Seguindo seus discursos prontos, o presidente eleito voltou a atacar o que chama de “ideologia de gênero”, provando que fake news e alucinações tipo kitgay ainda estão longe de terminar. “Com o tempo, começou-se a instituir outras coisas na sociedade, como a mal fadada ideologia de gênero, dizendo que ninguém nasce homem ou mulher, que isso é uma construção da sociedade. Isso é uma negação para quem é cristão! É uma negação de quem acredita no ser humano! Ou se nasce homem, ou se nasce mulher! No final de seu discurso, Jair Bolsonaro fez um pedido muito curioso para o prefeito Washignton Reis: “Uma sugestão ao nosso prefeito, juntamente com seu secretário de educação: que nesse muro fosse pintado uma passagem bíblica, João 8:32. Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. O Brasil precisa de verdade, o Brasil precisa de pessoas que se preocupem com o futuro da juventude”.

“Começa hoje, presidente”, respondeu Reis.
“Eu vou dar o galão de tinta. Não é crime eleitoral?”, perguntou por fim Bolsonaro, com uma voz realmente insegura. 

Coisa de Deus
O presidente não foi o único a levar contornos religiosos para a cerimônia. Pelo contrário. O prefeito Washignton Reis disse que “O Brasil estava esperando um governo que viesse de Deus. E Deus levantou Jair Bolsonaro, que está aí hoje presidente do Brasil”. Flávio Bolsonaro respondeu dizendo que “Foi Deus que colocou as pessoas certas nos lugares certos para que tudo isso se concretizasse nesse momento”.

O governador eleito Witzel chegou a espalmar as mãos para o céu, enquanto o Major Capelão José Geraldo Borba abençoava a escola, naquele que foi o mais assustador discurso do dia: “Deus, o senhor das ciências leva-nos a conhecer, de diversas maneiras, o conhecimento. Que nossos administradores militares, na educação de nossas crianças, adolescentes e jovem, ensinem corretamente a harmonizar a vida humana com a verdade evangélica, para que os educandos possam não somente preservarem a verdadeira fé em seus coração como professá-las em seus costumes na prática. Nossa intenção é pedir a Deus que os alunos encontrem em seus professores a presença do mestre Jesus Cristo, de modo tão marcante que enriquecidos de cultura humana, divina e militar, se tornem aptos e preparados para ensinar e ajudar os irmãos”.

Ao fim da cerimônia, famílias de moradores da região se apertavam para tentar ver Jair Bolsonaro mais de perto. Uma mãe reclamava do filho, uma criança negra de não mais que 5 anos de idade:  “Só vim porque ele queria ver o Bolsonaro”. Do lado de fora, moradores tiravam foto com um boneco de Bolsonaro, enquanto o vendedor de produtos, gritava “mito” bem alto e distribuía bandeiras do Brasil para a criançada.

Ainda deu tempo de conversar com a tenente-coronel Nádia, que será a diretora da escola. Ao ser perguntada se a instituição receberia civis, ela cometeu um ato falho que explica bem o que se passou no dia de hoje: “Não, só militares”, ao querer dizer que eram apenas “filhos de militares”. Logo depois disse que a intenção era que, à tarde, filhos de civis pudessem realizar atividades de outros projetos, mas “seguindo nosso modelo”.

– Tenente, haverá alguma grande diferença do ponto de vista educativo?
– Nada diferente do que fazíamos há 30 anos nas escolas públicas.
– É um modelo antigo, então?
– Não é um modelo antigo. É um modelo que funcionava bastante. Respeito aos professores, família participando.

Categorias
DestaquesGeralPolíticaRio de Janeiro
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

AfrikaansArabicChinese (Simplified)EnglishFrenchGermanItalianJapaneseKoreanPortugueseRussianSpanish