Madame Bolsonaro, não se meta com os Orixás!

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Por Marcos Rezende*

A intolerância e o racismo religioso da família Bolsonaro, que se apresenta ao País como evangélica e usa esse fator como diretriz para governar, retirará do Palácio da Alvorada obras sacras históricas. O critério para a decisão? A dificuldade de lidar com a diversidade.

Peças barrocas católicas, como um par de anjos e quatro estátuas de santos, serão afetadas. Mas, na notícia publicada pela Folha de S. Paulo, o que chamou atenção, especialmente da comunidade negra e de religiosos de matriz africana, é que mais uma vez a religião dos orixás será desrespeitada pelo Estado e pela ultradireita.

Michelle Bolsonaro, que frequenta a Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro, deu um jeito de livrar-se da pintura ‘Orixás’, de Djanira, que ocupa o Salão Nobre do Palácio.

É mais um paralelo entre a família Bolsonaro, adepta da ditadura militar, e o regime sanguinário que silenciou o Brasil por 21 anos e tenta retornar nos anos 2000.

Diz a história que o luterano Ernesto Geisel – que, aqui, é lembrado como o que “mandava matar” – pediu que tirassem de circulação a mesma obra, que tem grandes proporções e representa entidades do candomblé brasileiro.

O quadro só voltou a ser exposto pelas mãos da primeira dama Ruth Cardoso, no governo do tucano FHC, e serviu de pano de fundo para momentos históricos de resistência. Alguns deles até recentes na nossa memória.

Dos mais próximos, talvez o mais simbólico foi quando Dilma anunciou a volta do presidente Lula ao governo – no mesmo episódio em que o juiz Moro divulgou áudios de grampos ilegais para a Globo, o que, como se diz aqui, se fosse nos Estados Unidos, tinha sido torrado numa cadeira elétrica.

No Salão Nobre do Alvorada, o anúncio, registrado em foto, mostra ‘Orixás’, de Djanira, ao fundo de Dilma – confirmando que as energias das religiões tradicionais africanas estão do lado correto da história.

Foto: Ricardo Stuckert

Agora, no entanto, Michelle repetirá a história protagonizada por Geisel como tragédia. A tela histórica que representa as religiões afro deverá ir para o Masp (Museu de Arte de São Paulo), em fevereiro.

Para os Bolsonaro, não bastam os dados divulgados pelo Disque 100, que registrou crescimento vertiginoso da violência religiosa contra as religiões de matrizes africanas, o que, inclusive serviu de base para denúncias feitas à OEA. Não bastassem também as correntes de oração cristã, transmitidas em rede nacional, inclusive após a vitória eleitoral, que deixaram os defensores do Estado laico preocupados.

Agora, com essa atitude, a família fantoche da elite econômica cria um clima propício para acentuar o fundamentalismo religioso e o desrespeito à diversidade religiosa.

O fato revela o racismo religioso da família Bolsonaro, que pretende ficar, nesses quatro anos de mandato, em sintonia com a tradição Casa Grande vs Senzala, e governar para os evangélicos e os homens brancos das elites nacionais e internacionais, com direito a capitão do mato – e bem longe das pautas do povo preto.

Povo preto, nunca é demais lembrar, que construiu esse País e representa, segundo o IBGE, 54% da população brasileira (sendo a maioria dos que vivem desalentados, desempregados, no mercado informal, abaixo da linha da pobreza e assassinados).

Mas, com fé em Oxalá e foco nas lutas do povo, Deus ou os deuses que dizem ser brasileiros, independente de religião, haverão de dar providências!

Não é recomendável se meter com os orixás!

Axé!

*Marcos Rezende, baiano, historiador, Coordenador Geral do Coletivo de Entidades Negras (CEN) e religioso de matriz africana

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