Ailton Krenak – A vida não é útil

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Um dos mais influentes pensadores da atualidade, Ailton Krenak vem trazendo contribuições fundamentais para lidarmos com os desafios que enfrentamos hoje: uma terrível pandemia, um governo de extrema-direita e os diferentes efeitos do aquecimento global.

“Se enxergarmos que estamos passando por uma transformação, teremos que admitir que nosso sonho coletivo de mundo e a inserção da humanidade na biosfera terão que se dar de outra maneira. Nós podemos habitar este planeta, mas terá que ser de outro jeito. Senão, seria como se alguém quisesse ir ao pico do Himalaia, mas pretendesse levar junto sua casa, a geladeira, o cachorro, o papagaio, a bicicleta.”

Em reflexões provocadas pela pandemia, o líder indígena e escritor volta a apontar as tendências destrutivas da chamada civilização: consumismo desenfreado, devastação ambiental e uma visão estreita e excludente do que é a humanidade.

Crítico mordaz à ideia de que a economia não pode parar, Krenak provoca: “Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro.” Ele também tem um recado para os bilionários que estão investindo em viagens espaciais e sonham com o eventual estabelecimento de colônias em outros planetas: “Vão logo, esqueçam a gente aqui!”.


Para o líder indígena, “civilizar-se” não é um destino. Sua crítica se dirige aos “consumidores do planeta”, além de questionar a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia. Se a terrível pandemia da Covid-19 nos faz sentir que o chão nos falta, as ideias de Krenak despontam como os “paraquedas coloridos” que ele descreve em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, que já vendeu mais de 50 mil cópias no Brasil e está sendo traduzido para o inglês, francês, espanhol italiano e alemão.

A vida não é útil reúne cinco textos: “Não se come dinheiro”, “Sonhos para adiar o fim do mundo”, “A máquina de fazer coisas” e “O amanhã não está à venda” (publicado como e-book gratuito), além daquele que dá título ao livro — todos adaptados de palestras, entrevistas e lives de Krenak, realizadas entre novembro de 2017 e junho de 2020.

Ler e ouvir Ailton Krenak é algo que surpreende o espírito. Das montanhas de Minas, seus cursos d’água e brisas, às vezes tão frias, vales de ideias revolvem a planície de nosso mundo.

Minas de pedras de poesia e saber, penso no Drummond, sabendo que nunca esquecerei desse acontecimento nas retinas castigadas, que tinha pedra no meio do caminho.

Indígenas, ouro da terra, esmeraldas tão lindas, pergunta meu ser. Nem sei, brilha a pedra dura no canto escuro de nossas recusas, escuso acusa. Grita a face oculta da nação que enterra seus mortos, vende rios, florestas, identidades. 

De Minas Gerais canta, proseia, indaga, o indígena Ailton Krenak, voz tão retumbante, recolhida no isolamento ensurdecedor desse momento. Sinto um terremoto, um tremor na terra e nos homens que nela trafegam.

A empresa Planeta Terra, a vida do consumidor e a cidadania. Vivemos inquilinos na vida?

Diante da luz intensa, de faíscas, raios, hipnotizados ficam os homens quando sentam para ouvir a palavra.

Na filosofia dos homens o pensamento indígena aflora, os pensadores, vozes tão antigas, vanguarda primitiva que insiste, perdura, perpassa.

imagens por helio carlos mello©

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • O poeta desfralda a bandeira
    Eu me sinto melhor protegido
    Salve lindo pendão da esperança
    Pindorama
    – país do do pretérito futuro🌞🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴

  • Que bom termos literatura indígena, que bom ler suas vozes, pois a mídia geralmente as sufoca ou omite, e assim o é, no mundo, com a maioria dos grupos minoritários. Uma voz aqui outra acolá começa a ser ouvida e de repente esse som começa a fazer mudar o estado de consciência, de atitude, de ser. Os primeiros povos precisam falar, sua sabedoria precisa ser respeitada e trazida para a atualidade, para a sobrevivência da humanidade, sempre foi assim, caso não lhes for dado ouvidos, podemos bem deixar que a terra siga, sem nós!

  • Oportuno argumento. Os saberes oriundos dos povos da Floresta tem fundamento, tem Filosofia, sociologia, história e equilíbrio à luz dos nossos ancestrais. Saberes inigualáveis!

  • É para lermos, refletirmos e aderimos, o quanto antes! Vou comprar e me encantar com essas vozes autóctones, primordiais da humanidade, antes que seja muito tarde!2

  • Vou ler. Tenho comunhão com este pensamento e ação. Porém para mim o processo é irreversível, a humanidade caminha para a catástrofe, para o abismo! Sem saída

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