A resistência do samba para além das ilusões de fevereiro

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Quem é, seu moço, que guarda a memória do samba? Bem, não sei por aí, mas aqui em Sampa, onde os blocos se avolumam feito pipoca, quem tem o samba como sobrenome é Kolombolo Diá Piratininga.
O Grêmio Recreativo de Resistência Cultural fundado em 2002 por Renato Dias, Max Frauendorf e Ligia Fernandes, abriga o Cordão Carnavalesco que desde 2008 desfila no sábado que antecede o carnaval, na Vila Madalena, bairro em que o Kolombolo está sediado, na Rua Belmiro Braga.

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Cordão, não bloco. Cordão porque esta é formação tradicional do carnaval de São Paulo, objeto de estudo do Grêmio criado para valorização do samba paulista através da realização de rodas, shows, encontros, registros fonográficos e audiovisuais.

Os cordões foram muito comuns por décadas, são a origem de escolas como Camisa Verde e Branco e Vai-Vai, se diferenciam pelo estandarte, em vez de mestre sala e porta-bandeira; as rumbeiras, no lugar das baianas; os sopros e os bumbos entre os instrumentos musicais; a corte, o rei e a rainha, o príncipe e a princesa, o duque e a duquesa; e um único samba-tema,em vez do repertório variado dos blocos.

A descrição acima é para aqueles que não foram ao cortejo deste ano, para os que ali estiveram a diferença foi sentida na carne. Logo que passou o Kolombolo, a Rua Aspicuelta perdeu o colorido e se transformou em um monótono mar de abadás.

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Os temas para os desfiles até 2019, sempre ligados a história do carnaval, estão eleitos pelo Grêmio que carrega como símbolo o galo e as cores vermelha, amarela e preta, como as da bandeira de Angola – parte da região de onde provém o povo banto que foi escravizado e trazido para o sudeste do Brasil e cuja cultura ficaria para sempre enraizada nas manifestações tradicionais paulistas. Entre eles está a Escola Pérola Negra, tradição da Vila, que depois de idas e vindas se viu fora do bairro por causa da expansão imobiliária da região.

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Em 2016 o Galo canta para “Tio Mario”, mestre dos tradicionais cordões dos Campos Elíseos e Camisa Verde e Branco, na escola de samba 1ª da Vila Carolina, foi vice-presidente. Mário Ezequiel nascido em 1927 na Barra Funda, cresceu vendo a família dançar o batuque de umbigada.

“O carnaval esta passando por uma transformação que só daqui algum tempo vamos entender”, disse Ligia para os Jornalistas Livres.

Esse ano o Kolombolo teve que sair mais cedo do que o costume para não se ver obrigado a atender o percurso ditado pela prefeitura e desfilar entre gradis.

A preocupação de Ligia “é com a espontaneidade dos desfiles. Aqui a gente se encontra, nos preparamos juntos para o desfile…”, tenta explicar. Seu medo é justificado pela História: “Em 1968 a expressão dos Cordões se viu obrigada a se tornar escola de samba e a copiar o modelo carioca de competição por exigência da prefeitura de São Paulo para obter apoio e a oficialização dos desfiles. Ou seja, sair de uma certa condição ilegal custou a sua descaracterização”, conta.

No último sábado, mesmo atendendo as exigências burocráticas, a CET não compareceu ao desfile do Kolombolo. Integrantes, bombeiros e policiais tiveram que ajudar com o desvio dos carros durante todo o trajeto. Um fotógrafo do JLs foi vítima deste descaso e acabou sendo atropelado – para bem do carnaval, sem conseqüências graves.

As condições dos desfiles melhoraram muito desde que o Kolombolo começou.

Em 2012, depois de ter o desfile interrompido no ano anterior, o Kolombolo lançou o Manifesto Carnavelesco que reivindicava, entre outras coisas, o “direito a alegria e a folia”. O manifesto surtiu efeito, foi assinado por diversas agremiações e acabou sensibilizando a Secretaria de Cultura que adotou o cadastramento dos desfiles, antes um problema que era jogado de um lado para o outro entre a Polícia Militar e a CET.

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Mas não é de medo e de burocracias que vive o Kolombolo Diá Piratininga. A escolha do samba envolve um rico processo que inclui os encontros abertos e gratuitos de compositores na Praça do Samba todo último domingo do mês. O evento reúne a nova e a velha guarda, relembram e apresentam sambas autorais.

Como alguém já cantou em uma roda de pérolas negras: “venha, você verá que vale a pena, chegar a Vila Madalena, e ver o povo cantar, feliz”!

Hoje, 06/02, o Kolombolo se apresenta novamente, desta vez no Palco da Batata, em Pinheiros.

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