A dignidade inegociável no país da pequenez

Defender Lula contra a farsa de sua condenação, mas não defender seu direito de ser candidato é insustentável

“Por uma causa qualquer, grande ou pequena, alguém tem que sofrer. Porque nem de tudo se pode abrir mão. Há um mínimo de dignidade que o homem não pode negociar, nem mesmo em troca da liberdade. Nem mesmo em troca do sol.” (O Santo Inquérito – Dias Gomes)

Lula é hoje o maior emblema vivo de um Brasil que segue batalhando e sonhando pelo controle de seu destino enquanto é arrastado para o abismo e a miséria pelos herdeiros atávicos da canalhice e da pusilanimidade.

Com 72 anos de vida e sofrimentos, a altivez que Lula demonstra – ainda que encarcerado – envergonha a pequenez brasileira e é por isso mesmo que para os que vivem se alimentando de ressentimentos só resta odiá-lo; já para os indiferentes, exceto aos seus próprios umbigos, e os que não compreendem o drama coletivo quando encarnado num momento vivo, só resta silenciar a injustiça cometida contra ele neste processo de formalismos cínicos.

Como se a história já não nos tivesse permitido compreender à exaustão a sordidez de tais procedimentos, o cárcere de Lula é fruto de um processo viciado por arbítrios, conduzido por um juiz inquisidor e ratificado em tempo recorde e com prioridade por uma corte mancomunada e servindo aos interesses do “grande acordo nacional” costurado entre pilantras e os sacerdotes do capital. Já seria insustentável por tudo isso, mas é acima de tudo insustentável pela ausência de provas. Neste processo, Lula é um preso político e esta sua condição é cristalina para os que enxergam sem distorções.

A razão da prisão política de Lula é também evidente: retirá-lo da disputa eleitoral que está agora batendo as portas. Compreendendo tudo isso, não é possível colocar na conta de Lula qualquer responsabilidade pela indefinição quanto ao cenário eleitoral que dia após dia se avizinha.

Não bastasse ser vítima, como quem teria que se arrepender de heresias, Lula – pensam alguns – deveria renunciar aos seus direitos e ao desejo de parte expressiva da população brasileira que o quer candidato. Em outras palavras, praticamente teria que confessar o que não cometeu ou abdicar de suas crenças para acomodar os ânimos dos que acreditam que tudo deve ser suavizado. É só uma variação da velha tática de culpar a vítima e amenizar as responsabilidades dos algozes.

Defender Lula contra a farsa de sua condenação, mas não defender seu direito de ser candidato é insustentável.

Lamentavelmente, o voto popular tem sido entre nós quase que o único momento influente de manifestação de revolta contra o status quo perverso que nos atravessa. Ao interditar Lula, o poder da grana e dos sobrenomes das oligarquias modernas e de antanho pretende evitar acima de tudo que alguém siga ensejando com potência, e marcadamente entre o povo pobre e sulcado, mesmo que seja a inspiração de que um dia este país possa vir a ser civilizado e abandone a obscena brutalidade dos mecanismos de distinção social que aqui pretendem estabelecer engrenagens eternas.

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