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Assassinato político gera protesto neste domingo em Balneário Camboriú

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Bolsonarista que agrediu idoso até a morte por ódio político foi preso em flagrante e solto dois dias depois para responder em liberdade

Cresce em todo o país a indignação contra o primeiro crime de ódio político com morte praticado em Santa Catarina por um bolsonarista que na quarta-feira (27) espancou o idoso Antônio Carlos Rodrigues Furtado até a morte em Balneário Camboriú. A revolta aumentou sobretudo depois da soltura do assassino, Fábio Leandro Schlindwein, 44, que havia sido preso em flagrante, na presença de várias testemunhas, e passou a responder processo por homicídio doloso, quando há intenção de matar.

Na sexta-feira (29), ele foi surpreendentemente solto pelo juiz responsável, por apresentar “bons antecedentes”, apesar dos requintes de crueldade do assassinato registrados no Boletim de Ocorrência e confirmados pelos próprios policiais demonstrarem o seu comportamento violento e perigoso. Na página do juiz, há uma postagem comparando a disputa entre Bolsonaro e “Luladrão” à luta entre Cristo e Barrabás.

Hoje, às 16 horas, partidos de oposição, entidades democráticas e população local que não concorda com a intolerância fascista realizam um protesto na Praça Tamandaré, na avenida Atlântica em Balneário Camboriú. O ato é promovido por lideranças de partidos de oposição local (PDT, PT, PSoL), com adesão de militantes de toda a região do Vale do Itajái e Grande Florianópolis. Caravanas com ônibus fretados e caronas solidárias estão sendo organizadas durante todo o final de semana, com apoio do PT, sigla à qual a vítima estava filiada desde setembro deste ano, depois de um período de filiação ao PDT. No dia seguinte à noite do crime, a Comissão Executiva Nacional do PT emitiu nota em que classifica a morte do filiado de “barbárie” e “fascismo”.

Postagem do acusado de homicídio do idoso nas vésperas das eleições para presidente do Brasil, anunciando que eliminaria as “amizades esquerdistas que apoiam o comunismo e o grau de gênero nas escolas”.

Na quarta-feira (27), na avenida Alvin Bauer,  centro de Balneário Camboriú, o apoiador de Bolsonaro espancou a socos e pontapés o idoso Antônio Carlos Rodrigues Furtado, de 61 anos, até a morte após uma discussão política. Segundo B.O. realizado pela polícia, Fábio Leandro estava “muito alterado e proferindo palavras impróprias de cunho ofensivo”, quando começou a agredir o idoso. Antônio Carlos se afastou do local após as primeiras agressões, mas o acusado foi ao seu encalce, derrubou-o no chão e continuou a espancá-lo já caído e indefeso. O boletim relata que a vítima conseguiu se levantar e pedir para o agressor parar porque estava machucado, mas foi ignorado. Em seguida, teve uma parada cardíaca no local, constatada pela equipe do SAMU, que prestou atendimento à vítima ainda com vida e confirmou o óbito no local.

Depois de espancar o idoso com ele já caído e na frente de muitas pessoas, o assassino ligou para a polícia dizendo que estava sendo ameaçado. Quando a polícia chegou, testemunhas desmentiram o bolsonarista, que foi preso em flagrante. O acusado trabalhava num estacionamento próximo ao local do crime. Antônio Carlos era um militante de esquerda tradicional na cidade e ultimamente estava desempregado e enfrentando dificuldades financeiras.

Leia o que diz o relatório da polícia no Boletim de Ocorrência:

“Foi apurado por meio das testemunhas BSRR e JOR que trabalham na empresa Gringa Top 10 e que no momento dos fatos estavam na janela da loja. Relataram que visualizaram da janela uma discussão entre um masculino de camiseta rosa, chamado FABIO LEANDRO SCHLINDWEIN que trabalha em um estacionamento em frente e um masculino de mais idade. Relataram que o masculino de rosa estava muito alterado e que estava xingado muito o senhor. Relataram ainda que o senhor deu uma afastada, mas ainda sim continuou a discussão. Relataram que o senhor foi para calçada e que em seguida o autor começou agredir a vítima com socos e ponta pés. Momento que a vítima caiu ao chão, no entanto o autor continuou com as agressões com socos e chutes. Ademais, o autor jogou um bolsa com ferramentas na vítima ainda caída ao chão dizendo “viu, viu que ti falei pra sair daqui”. Relataram ainda que em seguida a vítima levantou e disse para o autor “parar de bater que estou machucado”, neste momento a vítima começou a recolher suas coisas, no entanto caiu novamente ao chão desta vez desacordado”.

 

PROTESTO:  IMPUNIDADE DO ASSASSINO PODE ENCORAJAR NOVOS CRIMES

Antônio Carlos, 61 anos, se afastou do agressor,  que continuou a persegui-lo e a torturá-lo.  Implorou para que ele parasse, mas foi espancado até a morte

O “ato de repúdio contra o fascismo e em solidariedade ao companheiro assassinado por ser petista”,  como o protesto está sendo convocado pela Tenda Lula Livre, ligada ao PT em Florianópolis, é cercado de grande tensão. Num cenário onde a população votou em peso no candidato que apregoou durante a campanha eleitoral o extermínio armado  “da petralhada”, os ânimos se acirram contra a repercussão nacional desse crime bárbaro . “Ele coloca em evidência as ameaças contra a democracia e a vida insufladas pela intolerência fascista numa região que é berço da colonização europeia e se considera modelo de civilização”, acentua Zorahia Vargas, organizadora da caravana que sai hoje ao meio-dia, do antigo Terminal Cidade de Florianópolis, com  recursos dos próprios militantes.

Outras lideranças se manifestam com muita preocupação sobre a falta de rigor do juiz: “Não podemos deixar passar impune este crime gravíssimo porque o ódio político encorajado pelo presidente tende a causar outras vítimas, a matar mais inocentes e a inviabilizar a sociedade civil”, acrescenta Margareth Sandrini.  “Nós temos obrigação de reagir com muita firmeza e vigor porque essa violência insuflada pelo bolsonarismo pode instaurar uma onda de extermínio incontrolável no país e levar a uma situação de barbárie em que a mera existência de um opositor é justificativa para mata-lo”, argumenta o professor William Meister, ex-militante do PSoL, que foi demitido pela prefeitura bolsonarista de uma escola pública em Itapema, município vizinho, por ter apresentado um poema sobre a tortura na semana alusiva ao aniversário do golpe militar de 64.

 

CONTRADIÇÕES DA POLÍCIA E LIBERAÇÃO DO CRIMINOSO CAUSAM APREENSÃO

Fábio Lemos foi solto por bons antecedentes, segundo o juiz, embora tenha sido preso em flagrante por assassinato com requintes de crueldade, segundo a polícia

A guerra provocada pela repercussão do crime pode ser medida nas redes sociais. Os comentários se dividem entre os que manifestam sua indignação contra o assassinato e a liberação de Fábio Lemos Schlindwein, preso em flagrante como autor do crime, e os que se limitam a defender o presidente Bolsonaro do que chamam de “uso político” do crime, embora o próprio acusado  tenha no seu depoimento à polícia alegado divergência política. Alguns bolsonaristas chegam a defender o acusado, dando motivos diversos para o assassinato e outros até culpam a vítima e o PT pelo crime.

O relatório divulgado pela Polícia Militar sobre o caso afirma que Furtado e o agressor discutiram por motivo político. Nas redes sociais, o  acusado se apresenta como bolsonarista e, em publicações pré-eleições para presidente, avisou que eliminaria todos os petistas, comunistas e esquerdistas de suas redes sociais. O relato da PM diz que, segundo o agressor, o desentendimento começou porque Furtado, que era militante de esquerda e filiado ao PT, “veio conversar com ele sobre política”. Ambos se alteraram e as agressões iniciaram, diz o relato

As contradições nos depoimentos dos advogados do acusado, Fábio Leandro, e a decisão do juiz estão gerando muita apreensão entre os militantes de esquerda e de entidades democráticas que temem pela condução política do caso.  Schlindwein, foi liberado pela Justiça em audiência de custódia na sexta-feira (29). O juiz Roque Cerutti, da 1ª Vara Criminal, entendeu que, embora haja “fortes indícios” de que a conduta de Schlindwein tenha causado a morte da vítima, ele tem bons antecedentes e, por isso, não se justifica a prisão preventiva.

Postagem na página do juiz Roque Cerutti

No entanto, o delegado Aderlan Camargo, responsável pelo caso, afastou a hipótese. Afirmou, na quinta-feira (28), ao jornal local Página 3, que testemunhas ouvidas na delegacia disseram que a discussão teria sido motivada “por uma dívida”, mas não entrou em detalhes. Segundo ele, o agressor teria apresentado versões conflitantes à PM. Diante das contradições, o PDT, partido ao qual o militante assassinado foi filiado até fevereiro deste ano, designou o advogado Alex Casado para acompanhar as investigações.

Os Jornalistas Livres apuraram, na página do Facebook do juiz Roque Cerutti, uma publicação autorizada por ele, que compara a relação entre Cristo contra Barrabás, com a de Bolsonaro contra o “Luladrão”. A postagem, assinada por Antônio Pardi, um bolsonarista inflamado, avisa que o PT já existia no tempo de Cristo e que mesmo assim “teve quem escolhesse Barrabás”. Balneário Camboriú é uma região assediada por políticos bolsonaristas que apregoam o uso de armas e o ódio contra Lula e o PT, como o empresário Luciano Hang, proprietário das Lojas Havan e a deputada estadual Ana Caroline Campagnollo, que embora sendo de Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, fez no município a sua base eleitoral.

 

TENDA LULA LIVRE

Florianópolis e Palhoça-SC
Ônibus Para Balneário Camboriú – domingo dia 1 de dezembro.
ATO NA PRAÇA TAMANDARÉ, NA AVENIDA ATLÂNTICA EM BALNEÁRIO CAMBORIÚ ÀS 16H.
ATO DE REPÚDIO contra o fascismo e em solaridariedade ao nosso companheiro assassinado por ser petista, por espancamento, Antonio Carlos Rodrigues Furtado, 61 anos
1- Saída 1 de dezembro, domingo, às 12 horas, do Terminal Velho Cidade de Florianópolis*
Retorno dia 1 de dezembro, logo após o ATO
2- Caso você queira participar da viagem, mande seu NOME COMPLETO; RG com o ORGÃO EXPEDIDOR/ EMISSOR; TELEFONE
3- Para criança ou para menores de idade:
carteira de identidade ou se não tiver, certidão de nascimento;
4- Enviar os dados para o telefone e Watts de Luana 48 99981 4755
Zoraia 48 98411 4760 Que são responsáveis em fazer a lista
5- Compartilhe, divulgue, ajude, contribua
6- Se você puder ajudar deposite para pagar as passagens das pessoas das OCUPAÇÕES:
Se você não pode ir, adote um militante
BANCO DO BRASIL
AG: 5201-9
C/C 729879- X ou substitui o X pelo zero (0)
CPF 221432119-53
Margarete Sandrini
Envie o comprovante para o watts: 48 996482960
Os ônibus serão pagos com a contribuição de cada de trinta reais (30,00) que poderá ser depositado na conta acima ou na hora do Embarque.
#LulaLivre

 

NOTA DO PT: VIOLÊNCIA FASCISTA FAZ MAIS UMA VÍTIMA NO BRASIL

Antônio Carlos Rodrigues Furtado, de 61 anos, morreu de parada cardíaca, após ser espancado, quarta-feira (27), por Fábio Leandro Schwindlein, de 44 anos, em Balneário Camboriú (SC).
Não foi um crime qualquer, dentre tantos nas cidades brasileiras. Ocorreu à luz do dia, numa avenida movimentada. A vítima era um conhecido militante do PT. O assassino, um bolsonarista declarado. O motivo torpe: intolerância política.
Antônio Carlos foi agredido a socos e pontapés, mesmo depois de cair ao chão e implorar que Fábio Schwindlein parasse de bater, segundo depoimento de testemunhas à Polícia Militar. O bolsonorarista, de porte atlético, gritava ofensas contra o idoso e contra a esquerda enquanto espancava sua vítima.
O nome disso é barbárie; o sobrenome, fascismo.
O ódio e a violência do criminoso de Camboriú moveram o assassino de Moa do Katendê, em Salvador, em 2018.
Ódio e violência estimulados pela impunidade dos assassinos de Marielle e Anderson, no Rio; do sindicalista Carlos Cabral Pereira em Rio Maria (PA); do líder indígena Paulo Paulino Guajajara, em Bom Jesus da Serra (MA).
Ódio e violência que se voltam contra quem se levanta em defesa da liberdade, da democracia, dos direitos dos trabalhadores e dos oprimidos numa sociedade predominantemente machista, racista, intolerante.
Ódio e violência disseminados com método nas redes sociais, em escala industrial, por agentes do governo de extrema-direita, seus líderes, ideólogos e propagandistas, pelo núcleo familiar do próprio chefe do governo.
Disseminados e estimulados pelo discurso de um governante incapaz de conviver com a diversidade, a liberdade de pensamento e manifestação, com a própria democracia. Que se relaciona com milicianos, defende torturadores e já ameaçou metralhar os adversários.
Ódio e intolerância colocados em prática, todos os dias, por um governo que libera a posse e porte de armas indiscriminadamente, que lança as Forças Armadas contra manifestações pacíficas, persegue os artistas e criminaliza a Universidade.
Não faltam exemplos na história da humanidade para alertar sobre os riscos que estamos correndo. Os alvos já foram os judeus, os protestantes, os estrangeiros, os negros, os comunistas. A vítima sempre foi a liberdade.
A intolerância política, em suas mais diversas formas, alimenta-se do silêncio e da omissão da sociedade quando não nos reconhecemos em cada vítima de seus crimes.
Não podemos nos calar, ou não teremos mais voz.
O Partido dos Trabalhadores está solidário aos familiares e amigos do companheiro Antônio Carlos Furtado.
O PT exige que a lei seja aplicada com rigor contra o assassino de Antônio Carlos e os autores de todos os crimes políticos que vêm ocorrendo sob o governo de extrema-direita.
O PT conclama brasileiros e brasileiras, de todos os partidos, credos e origens, a denunciar e reagir aos ataques contra a liberdade, a democracia e a civilização.
Não à intolerância, ao ódio, à violência, à barbárie.
O Brasil quer paz, justiça e democracia.
Comissão Executiva Nacional do PT
Brasília, 28 de novembro de 2019

 

 

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6 Comments

6 Comments

  1. Soriano de Mell

    01/12/19 at 14:51

    Esse assassino tem q ser preso . Tb o sujeito q jogou um transeunte num caminhao e a vitima teve traumatismo craniano em SP capital tb tem q estar preso . E quem mandou matar Celso Daniel e as demais testemunhas da tortura e morte , e tb quem mandou matar o Toninho do pt ex prefeito de Campinas e os 8 sindicalistas não alinhados com o pt e tem o Eduardo Campos e o Teori Zavaski, …
    Todos tem q pagar pelos seus atos .

  2. Paulo Mauricio Ruas (@pmruas)

    01/12/19 at 18:15

    Todas as minhas férias passava em Balneário Camboriú com minha família. Cheguei a comprar um apartamento nesta cidade. Porém, nos últimos anos esta cidade ficou perigosa. Portanto, as pessoas que respeitam o seu semelhante devem evitar Balneário Camboriú.

  3. Leila

    01/12/19 at 19:43

    Que coisa horrivel!!!
    Uma tristeza… é preciso reagir contra a barbárie. O ódio , a incapacidade de respeitar o outro, a covardia levaram o indivíduo a cometer o assassinato.

  4. Odara Manu

    01/12/19 at 20:39

    E o idoso não tem família pra vingar.

  5. Rico Matteucci

    02/12/19 at 8:42

    Balneário Camboriú virou o reduto de fascistas, racistas, apoiadores de milicianos. E como todos os hipócritas, esses seres vão as igrejas aos domingos, amam o dinheiro, a desigualdade social e a violência!

  6. Guilherme Storch Neto

    02/12/19 at 22:12

    O idoso deve ter família sim, mas qualquer atitude de vingança leva a mais revolta..erradissimo o juiz que o pos em liberdade, se ele tem bons antecedentes, no momento que ele praticou a barbárie , ponto final nos bons antecedentes, agora São maus..

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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