30 e nada mais até depois dos 65

Uma crônica de Mariana Zoboli do Carmo, para os Jornalistas Livres

*com ilustrações de Carolina Itzá

O toque do celular, o beijo, a noite de ontem, o preço da cerveja que já chegou aos 12 e antes não passava de 7. Lembra de dois anos atrás? Quanta coisa foi e quanta é agora na baldeação entre a linha amarela e verde perto das 16h. Os pelos da axila, os odores, os psiu, os fiu fiu ou o ai não aguento mais isso. Com emprego, sem emprego nessa coisa de não passar dos 30 e ter acabado de chegar aos 20 e poucos. Quem se importa se o berço ainda me embala, se as fábricas me esperam. Produzir e consumir. Consumir eu já sei, só não quero produzir. Nhé nhé nhé nhé nhé. O bebê sem touca está chorando abandonado pelas grandes mães do sentido. O leite que saia daquelas tetas fazia mais sentido do que o mundo agora. Desejo a bonança, mas para chegar lá preciso subir até o último andar de escada. Largar o convencional, o elevador, o sistema, o conforto aveludado. Assim eu choro de novo. Buá buá buá. Chegamos aqui. Talvez seja a hora de pegarmos um voo que sobrevoe as cabeças do mundo enquanto sopramos a verdade da nova era, já que, ninguém entende o nosso chorinho de botequim. Verdade seja dita. Alguns de nós queremos mudar essa casa velha. Encontrar outra saída para essa rua que aparenta ter tantas direções.

Qual será a minha ainda não sei, mas cansei de chorar e parei de soluçar. Vou-me embora deste berço na inconsequência dos meus 20 e poucos. As máquinas ainda aguardam pacientemente. Seus operantes, ou operados (sabe-se lá) já me convocam avidamente a graxa nas mãos, os sonhos na gaveta do escritório, as férias, os trinta dias, o restante, os enquadramentos, a vida que não sobra. Tem muito boi morrendo, árvore caindo, gente explodindo, dinheiro jorrando. Não é por aí, mas vem por aqui, dizem-me alguns. Não, não vou, não. Vou por ali. Vou para onde possa viver trinta dias e mais trinta e depois outros trinta e, se reclamar, trintão de novo. Um seguido do outro, um sentindo o outro. Vou por ali construir uma narrativa. Soltar outras letras, brigar com palavras que me esperam nas curvas que faço. Quais serão elas não sei ainda, mas é imprescindível consultar o dicionário. Parece-me necessário o afastamento de algumas coisas para chegar a outras no tempo que corre nos relógios de nossas veias. Esse tempo acumulado entope artérias quando ficamos mais velhas e os remorsos e rancores que no coração se alojam não saem mais com trinta dias de férias.

Passaram-se alguns anos.

Aliás, o tempo. Liguei a televisão na inocência dos desavisados sobre as grandes tragédias e ouvi que ele não vai sobrar nunca. Só depois dos 65, só depois que o próprio tempo já não mais existir para mim e muitos de meus amigos. O mundo tem passado espantosamente rápido quando olho para o horizonte, sentada no ponto de ônibus da Rebouças com a Avenida Brasil e me recordo das tantas pilhas de papel a serem assinadas, revisadas e arquivadas com o brilho nos olhos de quem quer o mundo todo, todo tempo, toda a experiência, toda vida que transborda e jamais será plenamente sentida enquanto me sento aqui e cheiro a fumaça de máquinas que já se foram quando os meus olhos alcançam qualquer uma delas. Minha avó se sentava na porta de casa e olhava para o tempo. Quando eu era criança nunca entendi o que ela ficava fazendo lá parada. Naquela época eu era o tempo agora. Agora, o vejo passar e me escapar. Ela o encarava. Olhava cara a cara. Acho que ali ela entendia muita coisa e se conciliava com o mundo, o céu, a história dela e dos pais, dos avós, com o nosso vir a ser. Olhar para lata, prédio, teto, outdoor, prateleira, vidro, luz neon, logomarca, banco, cartão, vitrine, telefone, computador, livro ou estante modular não pega nada. Quando a gente amadurece olha para o tempo porque sabe que não demora nada, nada chega a morte. O tempo é mais como um treinamento. Ele cura e abre feridas para o susto não ser grande quando a última visita chegar. Tenho medo de não encarar o tempo. Tenho medo de a vida terminar antes que eu cumpra as horas de vida que devo, antes de bater o cartão da firma e acabar morrendo de velha pensando nos papéis que deixei de assinar e carimbar e pedir para protocolar no nono andar.

Ilustração de Carolina Itzá

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