2 de Abril, dia mundial da conscientização do autismo

Perspectivas atuais no autimo : contribuiçoes da neurosciencia.

Alguns monumentos do mundo todo ficam azuis para lembrar o Dia da Consciência sobre o Autismo
Por Monica Zillbovicius*
O autismo é um distúrbio do desenvolvimento que desafia a ciência, mas avanços recentes têm contribuído significativamente para melhor compreendê-lo. Esses avanços contribuiram nao apenas para uma melhor compreensão sobre o autismo mas também para o estabelecimento de um diagnóstico cada vez mais precoce.
Sabe-se atualmente que o autismo envolve apresentações clínicas variadas, mas a sua principal característica é a dificuldade na interação com o outro e com o mundo ao seu redor. Pessoas diagnosticadas com autismo tem alterações na percepção e na compreensão de sinais sociais, como por exemplo as expressões emocionais e o olhar. A neurociência vem permitindo desvendar cada vez mais os mecanismos cerebrais dessas alterações, sobretudo usando as técnicas modernas de neuroimagem. Estudos recentes revelam anomalias no chamado “cerebro social” em crianças e adultos com autismo.
Todos esses avanços têm contribuído para o desenvolvimento de novas propostas terapêuticas e de práticas de inclusão.

É verdade que existe uma epidemia desse quadro?

Os estudos que analisam a taxa de prevalência, isto é, o número de pessoas doentes em um determinado espaço e tempo são difíceis de serem realizados. No Brasil são quase inexistentes, mas nos países desenvolvidos temos alguns exemplos que atualmente apontam para uma taxa entre 0,5- 1%.

Esse número representa uma proporção muito mais elevada de pessoas do que se pensava décadas atrás. Isso ocasionou um alerta sobre uma possível epidemia, mas na verdade, o que acontece é que com a mudança no conceito do quadro e a noção mais ampliada de espectro acabamos considerando como pertencentes a esse grupo, pessoas que anteriormente não preencheriam os critérios para o diagnóstico.
Além disso, houve aumento nas pesquisas, divulgações, informação e reconhecimento do quadro por profissionais, o que também leva a um maior número de diagnóstico. Ou seja, esses indivíduos já tinham autismo, mas não eram identificados. A luta de pais e parentes de indivíduos com autismo em busca de direitos e a política de inclusão escolar também têm favorecido o aumento do conhecimento sobre esses quadros.
Onde posso buscar ajuda para um autista?
Instituições especializadas para o tratamento de autistas ainda são insuficientes no Brasil.
Para as crianças e adolescentes, o Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe dos Centros de Atenção Psicossocial Infantis (CAPSi) para o atendimento de crianças e adolescentes com transtornos mentais e comportamentais, incluindo o autismo. Infelizmente, o número de CAPSis é insuficiente para o atendimento de toda a demanda de crianças com problemas psiquiátricos e psicológicos. Para exemplificar, em 2011 existiam 136 CAPSis credenciados no Brasil, sendo 30 no Estado de São Paulo. Para atender suficientemente os autistas, seriam necessários aproximadamente 258 CAPSis somente no Estado de São Paulo exclusivamente para o atendimento de crianças autistas. Outro complicador é que a maioria dos CAPSis não são especializados neste tipo de paciente, pois tratam crianças e adolescentes com vários tipos de transtornos mentais e comportamentais e muitas vezes não utilizam técnicas baseadas em evidência para o tratamento específico dessa população.
Outra opção são os serviços especializados ligados a Universidades que podem dispor de atendimento médico e multidisciplinar para crianças com problemas de desenvolvimento ou com necessidades especiais. Algumas Universidades, porém oferecem apenas o tratamento médico, ou apenas tratamento psicológico e por isso a família acaba precisando buscar outros tratamentos concomitantes.
Já para os adultos, a situação é um pouco mais complicada. Os CAPS que atendem adultos, dificilmente aceitam autistas adultos como pacientes. Isso acontece porque os CAPS que atendem adultos não estão preparados para receber e tratar apropriadamente os pacientes com autismo, pois têm como foco principal o tratamento de outras doenças psiquiátricas como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, etc. Comentaremos mais sobre o autista adulto mais adiante nesse livro.
Além dos serviços do SUS, a Associação dos Amigos dos Autistas (AMA) vem prestando um importante serviço à comunidade, sendo considerado um dos principais locais especializados no diagnóstico e atendimento de pessoas com autismo (http://www.ama.org.br), apesar do número limitado de unidades e vagas. Outras ONGs (Organizações Não Governamentais) também vêm tentando suprir essa demanda de atendimento.
Paralelamente aos CAPS e às AMAs, as instituições que atendem pessoas com deficiência, apesar de menos especializadas, costumam ser um bom local para busca de diagnóstico e tratamento de autismo. Cada município e região têm instituições e serviços diversificados, sendo que uma das mais disponíveis são as APAE (http://www.apaebrasil.org.br/)
Finalmente, o setor privado possui alguns serviços especializados em tratamento de crianças autistas, porém geralmente estão localizados em grandes centros urbanos. E é claro que profissionais especializados em autismo e que atendem em consultórios particulares também são importantes agentes neste campo.
Gostaríamos de recomendar o site da Organização Não Governamental Autismo & Realidade (www.autismoerealidade.org) para a consulta de diversas informações e manuais no campo do autismo. Particularmente na sessão “a quem recorrer”, é possível consultar uma vasta lista de serviços distribuídos por todos os Estados brasileiros (http://www.autismoerealidade.com.br/a-quem-recorrer/ache-no-brasil/)

*Depois de terminar sua residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Monica Zillbovicius iniciou um trabalho de pesquisa pioneiro sobre autismo na França, investigando as alteraçoes cerebrais por estudos com neuroimagem. Atualmente ela dirige um laboratório de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (INSERM) no hospital Necker em Paris, onde é responsável por diversos projetos de pesquisa em imagens cerebrais nos distúrbios do desenvolvimento infantil. Essas pesquisas resultaram em mais de 70 artigos científicos, publicados em revistas internacionais de psiquiatria e neurociência.

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