TINHA UNS PATOS NO MEIO DO CAMINHO.

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Meus amigos estão tristes, sonham com a rebelião. Dói na geração, nascemos em 64. Nossas contradições, nosso foro privilegiado, nossa ficha limpa.

Há uma angústia em mim, penso na poesia, seus poetas e a dúvida. Recordo-me de Manoel de Barros contando que, em 1945, vai para o Largo do Machado, no Rio, ouvir Luiz Carlos Prestes, recém liberto, e sofre a “grande decepção” . A desilusão diante do discurso de Prestes fez com que o poeta rompesse definitivamente com o partido: Me decepcionou. Até chorei na calçada. Aquela aliança era política. Era um negócio de, porra… Eu não admitia esse troço. Eu achava que era falta de caráter. Não tem esse negócio de política não. Homem não tem isso não. É falta de caráter, é sacanagem mesmo. Por quê? Pra quê que o Prestes tinha que fazer aliança com o Getúlio, se o Getúlio tinha mandado matar a mulher dele, porra. Eu não admiti isso, sabe? Não admiti mesmo, de jeito nenhum. Caí fora. Caí fora. ( Waleska Rodrigues De Matos Oliveira Martins – AS FIGURAÇÕES DA MORTE E DA MEMÓRIA NA POÉTICA DE MANOEL DE BARROS).

Eu era tão pequeno no fim da década de 60 e mudei-me, levado por meus pais de roça, para São Bernardo do Campo. Após alguns alugueis na cidade, meu pai comprou um sobrado na rua Quirino de Lima. Descobri bem próximo, à época, com os novos moleques amigos de rua, a grande construção do Sindicato dos Metalúrgicos, que na vizinhança se erguia.

Meu pai bancário contava-nos, na hora do jantar, sobre as grandes aglomerações que via, as assembléias na praça da igreja matriz da cidade, bem em frente ao Banco Bandeirantes que ele gerenciava. Uma vez levou-me com meu irmão ao Estádio da Vila Euclides para ver aquela multidão  da Brastemp e Wolkvagem e tantas outras fábricas, nas proximidades de minhas ruas, onde alguns parentes e conhecidos trabalhavam.

Enfim, o homem barbudo que sempre vi com meus amigos nas ruas da infância e nas notícias acompanha até hoje meu cotidiano. Após 50 anos descubro que não é um barbudo, mas uma ideia. Lula transcende o tal Luiz Inácio.

Há um desespero agora, nosso inferno. Belchior ressurge cantando a divina comédia onde nada é eterno, tal Antônio das Mortes encerrando Corisco.

Andamos descontentes, são dias de um segredo, um deus, um diabo.

*imagens ©Helio Carlos Mello – acervo Jornalistas Livres.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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