Terça, 27, tem segunda rodada de entrevistas a candidatos de Florianópolis
Mais cinco candidatos da Frente Democrático por Florianópolis participam nesta terça, 27, às 20 horas, do “Democracia e Cidades: eleições em SC”
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6 anos atrásem
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Raquel Wandelli
Jornalistas Livres realizam nesta terça-feira, dia 27 de outubro, das 20 às 21h30, a segunda rodada de entrevistas a candidatos a vereança em Florianópolis, dentro do quadro “Democracia e cidades: eleições em Santa Catarina”. As entrevistas focam candidatos e candidatas dentro do campo progressista representado pela Frente Democrática por Florianópolis, a mais ampla e exitosa aliança de esquerda do país. Integram a frente oito agremiações partidárias: PSoL, PT, PDT, PSB, PCdoB, Rede e UP. Ouvintes podem participar comentando e formulando perguntas que os candidatos poderão responder antes ou depois do programa.
Desta vez, o programa vai entrevistar candidatos que representam presença reconhecida em questões das políticas públicas consideradas emergentes. Participam do quadro Elisa Jorge, arquiteta e urbanista, que tem atuação de excelência na área do direito à moradia e no combate à violência policial contra moradores das periferias; Marcos José de Abreu (Marquito), que se notabilizou pela pauta ambiental e projetos de repercussão nacional como o Floripa Zona Livre de Agrotóxicos; Carla Ayres, espécie de embaixadora dos direitos LGBTI+ em Florianópolis e da representatividade da mulher na Câmara de Vereadores; Luciana Freitas, lutadora social do Movimento Negro Unificado e defensora das comunidades quilombolas e periféricas e Victor Gaspodini, um dos mais jovens candidatos a vereador, militante dos direitos estudantis e das causas da educação.
Conduzido pela jornalista Raquel Wandelli, o programa estreou no dia 20, com entrevista a cinco candidatos dos principais partidos que compõem a Frente Democrática por Florianópolis: Elenira Vilela (PT); Leonardo Contin (PCdoB); Margareth Hernandes (PSB); Tânia Ramos (PSoL) e Vanderlei Farias, o “Lela” (PDT). Os postulantes à Câmara de Vereadores falaram sobre suas motivações para participar da política, abordaram a importância da formação da Frente no embate ideológico com o cenário político estadual e nacional; apresentaram seus projetos para a cidade e responderam questões sobre democracia e participação popular e fiscalização do poder público.
Um terceiro debate com candidatos da Frente em Florianópolis está marcado para o dia 6 de novembro e no dia 3 de novembro o quadro “Democracia e cidades: eleições em Santa Catarina” entrevistas candidatos a vereanças de diversos municípios do estado, privilegiando outras siglas.
Com esses quadros de entrevistas que compõem o programa geral “Eleições 2020: o que está em jogo”, os Jornalistas Livres pretendem contribuir para o processo democrático municipal em todo o Brasil. Até o dia 12 de novembro, a equipe de profissionais dos JL de todo o país estará ajudando seu público a ter acesso a informações, posicionamentos ideológicos, projetos para a cidade e perfis políticos que o qualifiquem melhor para exercer o direito de escolha de seus candidatos. Acompanhe as entrevistas pelas plataformas dos Jornalistas Livres no Youtube, Facebook, Instagram e Twitter.
CANDIDATOS ENTREVISTADOS NESTA TERÇA-FEIRA
Carla Ayres é cientista social, defensora dos Direitos Humanos, LGBTI+ e das liberdades religiosas. Ativista feminista, atuou como consultora de políticas públicas para o PNUD e ONU Mulheres e Conselheira Nacional LGBTI+. Candidata a vereadora pelo PT em 2016, assumiu a Câmara de Vereadores como terceira suplente por três vezes. Nessas oportunidades, aprovou cinco projetos e apresentou mais de 25 propostas para a cidade. Foi a primeira e única mulher a presidir a Comissão da Mulher da Câmara. Em 2018, tornou-se suplente de deputada estadual e a segunda mulher mais votada do PT para a Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina. É candidata a vereadora pelo PT, número 13044.

Elisa Jorge é feminista, mãe, arquiteta, urbanista e militante de movimentos sociais e ambientais de Florianópolis. Integra o Coletivo Ocupações Urbanas, do Projeto Brasil Cidades (br cidades), do Movimento da Ponta do Coral 100% Pública, do Movimento Nacional de Luta por Moradia. Atua também no Movimento 8M/SC e na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e Igualdade de Gênero na Câmara Municipal de Florianópolis e na defesa dos povos indígenas. Foi chefe de gabinete do mandato do vereador Lino Peres durante seis anos. Empenhada na Campanha Nacional #DespejoZero: pela vida no campo e na cidade, é candidata a vereadora pelo PT número 13111.

Lu Freitas, 45 anos, é professora da educação quilombola, graduada em Ciências Sociais e mestranda em Educação pela UFSC. Mãe, avó, militante do Movimento Negro Unificado, moradora do Maciço do Morro da Cruz, região periférica de Florianópolis, há 27 anos. Construiu sua militância no MNU, dedicada às questões da educação popular e quilombola. Atua nos coletivos Integrar e Gestus (Gestão Estudantil Universitária), fortalecendo esses espaços de articulação e apoio a estudantes periféricos para ingresso e permanência na universidade. Reconhecida na luta para transpor as estruturas racistas e patriarcais, Luciana é candidata à vereadora pelo PT em Florianópolis com o número 13131.

Marcos José de Abreu, o Marquito, é Engenheiro Agrônomo e Mestre em Agroecossistemas. Como vereador pelo PSOL em Florianópolis, construiu um Mandato Agroecológico, com participação de inúmeros entidades ambientais. Seu mandato atua na gestão de resíduos, biblioteca temática, banco de sementes e na organização de um sistema intersetorial na defesa da ecologia e justiça social. É autor das Leis da Compostagem, Política Municipal da Agroecologia e Produção Orgânica, Floripa Zona Livre de Agrotóxicos e Direitos da Natureza. Candidato pelo PSoL, número: 50150.

Victor Gaspodini estudante, manezinho, 22 anos, é candidato pela primeira vez pelo PSoL sob o número 50.000. Indignado com injustiças sociais, se envolveu no movimento estudantil logo no início da faculdade e ajudou a organizar um movimento contra a Emenda do Teto dos Gastos. Aos 19 anos, foi eleito presidente do DCE da UNISUL e liderou uma gestão que esteve na rua em defesa da educação pública, do PROUNI e do FIES, defendeu as bolsas do Art. 170 e conquistou o menor reajuste de mensalidade dos últimos anos. Seu TCC, concluído em agosto, conta em livro-reportagem a história de Luiz Cancellier, ex-reitor da UFSC, vítima de abuso de poder.

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Geral
Narcorrachadão das Américas, o escudo
De Serra Pelada ao narcogarimpo continental. Prometem combater o crime. Mas quem fica no controle?
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15 horas atrásem
22/10/26
Narcogarimpo. Comércio de ouro, de fachada, para lavar o dinheiro sujo do narcotráfico.
O que poucos sabem, quase ninguém, é que o narcogarimpo começou por volta de 1981,
em Serra Pelada. Com gente chegando de tudo quanto era canto, o regime militar logo
enviou, ainda em maio de 1980, interventor federal para botar ordem na bagunça, Major
Curió. E ele botou. Proibiu a entrada de crianças, mulheres, armas, bebidas. Na cava. Na
cratera em si, no formigueiro humano. Não no Trinta, como ficou conhecida a vila para
onde a balbúrdia migrou, lá do ladinho, no km 30 da rodovia PA-175, e criada só para
isso: institucionalizar a balbúrdia. No Trinta, aí sim, era tudo liberado. Criança, arma,
cachorro, whisky falsificado, ouro ilegal, consumo e tráfico de cocaína, festinha do
Vorcaro. O sucesso do narcogarimpo foi tão grande que a vila acabou virando cidade e a
cidade foi batizada em homenagem a seu maior protetor e patrono: Curionópolis. Pois é.
O narcogarimpo nasceu junto com a narcomilícia. Mas, hoje, juram de pés juntos que
querem criar um Escudo das Américas para nos proteger dos “narcoterroristas”.
Procura-se: Fabrício Queiroz. Lembra? Mais conhecido como o pivô assumido (1) do
esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio, o Bolsonaro.
Caladinho até dia desses, agora resolveu aparecer todo pimpão falando que “já se
movimenta”, dando como certa a vitória do patrãozinho. (2) Prefiro nem imaginar Queiroz se
movimentando, a tirar por Bolsonaro Pai fazendo flexão. De todo modo, a dúvida: estaria
se movimentando sozinho? Ou se movimentando com os mesmos comparsas de sempre,
só esperando para transformar o país num narcorrachadão?
Adriano da Nóbrega, Ronnie Lessa, Peixe, tudo piaba, não, nem estou me referindo a
esses, não. Falo de um Alessandro Pitombeira Carracena, por exemplo, que só anda com
ilustres cações. Apontado como cúmplice do Comando Vermelho. Sabe? Aquele clubinho
de biriba, domingo de sol no parque. Era secretário de Esportes e de Defesa do
Consumidor do ex-governador Cláudio Castro, com acesso a informações privilegiadas, ao ser preso por vazar justo esses dados, no caso, sobre operações na Maré, no Complexo do Alemão. (3) A Polícia Federal o descreveu como “verdadeiro integrante” do CV, transcendendo os limites do exercício lícito da advocacia. (4) Gente finíssima, o Carracena. Grande biribeiro. Adivinha quem o indicou a Cláudio Castro? O Queiroz? Não, não foi o Queiroz. Foi o Flávio. Ele mesmo. O Bolsonaro. (5)
Até aí, espero, novidade nenhuma. Mal molhei o bico. O papel de Carracena no esquema
com o Comando Vermelho era “apenas” complementar, o X9 da turma, quem entregava
as cabeças dos policiais honestos, bucha de canhão, numa bandeja aos traficantes. O
responsável pela articulação política e financeira era outro, TH Joias. Era Joias quem,
segundo o Ministério Público do Rio, intermediava a compra de armamento pesado,
drogas e dispositivos antidrones para o CV. (6) Agora, adivinha de quem TH Joias era aliado de primeira hora? Então. Do Flávio. Aquele. O Bolsonaro. (7)
O contato direto de Joias dentro do CV, conforme foi descoberto na Operação Zargun, da
Polícia Federal, era Gabriel Dias de Oliveira, mais conhecido como Índio do Lixão,
assessor parlamentar de TH (8) e com quem Joias negociava armas, drogas, cinco milhões
de reais convertidos em dólares para a facção. (9) Fartas provas, com direito a videozinho
que Índio recebeu de TH Joias, duzentos quilos de maconha. (10) Faltou a selfie com joinha,
tudo bem, mas um belo vídeo mesmo assim. Didático. Pena não ter videozinho também
dos cento e quarenta e oito quilos de cocaína que TH teria transacionado com Pezão. (11)
Luciano Martiniano da Silva. (12) Quem estava acima de todos no bando, “no topo da
estrutura”, segundo o Ministério Público Federal.
Resumindo, para ficar facinho de entender: Carracena e Joias formavam o “núcleo de
liderança política” do esquema, e os dois estavam “sob a supervisão dele”, de Pezão. (13)
Percebe? Tanto o sujeito que Flávio, o Bolsonaro, indicou para secretário de Castro
quanto o aliado de primeira hora de Flávio, o Bolsonaro, eram subalternos de Pezão, o
cara que traficava armas do Paraguai (14) , drones e equipamento antidrone da China (15) ,
cocaína do… do próprio TH. E, se era Pezão que supervisionava TH e Carracena, nova
dúvida: quem supervisionava Pezão?
Não sei. Mas olha que coincidência: sabe quem também foi preso por suspeita de
participar da organização criminosa, apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério
Público Federal como liderança do núcleo político do Comando Vermelho? (16) Você deve ter
visto, né, nos jornais? Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, vice de Cláudio Castro.
Balinha de coco ao primeiro que adivinhar de quem Bacellar era o preferido para suceder
Castro como governador. Exato. O filho do homem. Flávio. O Bolsonaro. (17) Vai ter de se
contentar com Douglas Ruas, Flavinho. Ouvi dizer que tem bom currículo, ele, achei
compatível com os empreendimentos do grupo. (18) Boa sorte.
A sorte que Márcio Canella não teve. Preso em flagrante a dois meses das eleições, com
um fuzil no carro. (19) Preso de novo agorinha no dia 15 de outubro, apontado pela PF como
“patrono político e articulador de alto escalão” (20) de uma organização criminosa que
movimentou sete ponto seis bilhões, com B de Bolsonaro, em lavagem de dinheiro via
rede de postos de combustíveis, conexões com milícias, evidente, e com o Comando
Vermelho em Belford Roxo. (21) E quem apoiou Canella como seu pré-candidato ao Senado
pelo Rio, numa chapa com PL, União Brasil e PP? Quem? A mãe de Flávio, o Bolsonaro?
Bem provável, afinal, Rogéria Bolsonaro foi escolhida, uni duni tê, como primeira suplente
de Canella. (22) Natural, o apoio. Natural, filho apoiar mãe e a chapa em que sua mãe é
suplente. (23) Normal. Nada de mais. Flávio, o Bolsonaro, inclusive, se declarou “surpreso”
diante das… desse caso de família todo aí. (24)
A assessoria do candidato à presidência pelo Partido Liberal, a bem da verdade, nega
tudo, relação nenhuma com qualquer dos episódios. Claro que nega. Imagina assumir
relação com cento e cinquenta quilos de cocaína em meio ao segundo turno, relação com
a própria mãe. Caso eleito – bate na madeira –, aí sim, Flávio, o Bolsonaro, poderá
assumir relação, filho, enteado, sogra, sobrinho, sair do armário duma vez e assumir tudo,
tudinho, inclusive o controle absoluto de quem deveria combater o crime organizado o
qual ele jura de pés juntos que irá combater. Eu também negaria. Aliado de primeira hora,
indicado por mim, meu preferido para governador, mas nem conheço. Nunca nem vi.
Inteligência artificial, essas fotos aí. Não tenho barriga. Bora mudar de assunto, bora?
Que tal? Por que vocês da imprensa não falam sobre o avião lá da FAB com trinta e nove
quilos de cocaína, na comitiva do Lula? Perfeito, porque não foi na comitiva do Lula, foi na
comitiva do pai, o Bolsonaro. (25) Eu não disse isso. Acho que vou desmaiar, rapeizo.
De modo geral, é o que costumam fazer. Negar a realidade. Vê o Trump. Disse que tinha
invadido a Venezuela para combater o narcotráfico. (26) Aí, capturou o Maduro e deixou os
traficantes todos lá. Colocou outra presidente no lugar para “supervisionar” os trabalhos,
capaz. Cartel de Los Soles a pleno vapor. (27) Sem comando, será? Os EUA passaram a
controlar o petróleo, (28) querem as terras raras, (29) a Venezuela toda, e justo o cartel de
drogas que era o maior problema do país segue funcionando sem a “supervisão” dos
EUA? Estranho, né? Só eu acho estranho?
De besta que sou. Normalidade é exceção no continente. Da Argentina a El Salvador. É,
meu querido “ancap” (anarcocapitalista, que defende a abolição total do Estado), não adianta sair de fininho, não, pode voltar, senta aí, e trata de ler até o final. Isso, assim, estrelinha na testa. Começo por Bukele ou por Milei? Milei, né? Visitou o Brasil, xingou meio mundo. Uma graça, ele. Amor de pessoa. Deve ter sido por isso que Gastón Alberdi, ex-aliado próximo, revelou numa entrevista que Milei teria lhe confessado já ter “assessorado narcotraficantes” como economista, (30) e que seu contato, Federico Machado, teria sido apresentado como “empresário”. Ia por acaso falar que era traficante?
Não ia. Claro que não ia. Se falasse, José Luis Espert, candidato de Milei à prefeitura de
Buenos Aires em 2025, jamais teria recebido duzentos mil dólares de Machado nem
admitido ter feito míseras trinta e cinco viagens nos aviões dele durante a campanha de
2019. (31) Nunquinha. Milei nega tudo, coisa da oposição. Tal qual o presidente do Equador, Daniel Noboa, um dos principais aliados de Trump na região, e que teve sua família investigada por envolvimento no tráfico de cocaína para a Europa. (32) A investigação revelou que ao menos 26 milhões de euros em droga foram encontrados em contêineres de bananas da Noboa Trading Co., empresa da família do presidente, com destino à Croácia e à Itália. Apesar disso, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, elogiou a cooperação de Noboa no combate ao narcotráfico. (33)
No Chile, agora, temos José Antonio Kast como presidente. Bem apessoado. Cara de
compenetrado, tem. Mas, ô, dedinho podre. Tanta gente nesse mundo e o sujeito foi me
escolher justo Gustavo Villatoro como assessor? Conhece não? Importou lá de El
Salvador, ainda por cima, outro país, era ministro da Justiça de Nayib Bukele. “Sócio de
narcotraficantes”, segundo consta. (34) O leitor deve estar se perguntando: “Espera, o Bukele
não tinha prendido os meliantes, os membros de gangue, livrado o país da criminalidade?
É desse mesmo Bukele que estamos falando?”
Olha, justiça seja feita. Prendeu um monte, mesmo, quase todos. Empenhou-se tanto que
fez até pacto secreto com o CJNG, o Cártel Jalisco Nueva Generação, do México, em
2023, para que o cartel capturasse e entregasse “Crook”, líder da Mara Salvatruga, maior
facção de El Salvador. Em contrapartida, ofereceu um milhão de dólares. No fim das
contas, surpresa, descobriram que era tudo armação de um pilantra 171 para cima do
governo. (35) Quer dizer, armação, o pacto com o cartel mexicano. Com os cartéis de El
Salvador, não teve armação, não. O pacto foi para valer. (36) Isso, para não mencionar os
três funcionários públicos salvadorenhos, bem próximos de Bukele, incluindo seu chefe de
gabinete, que foram apontados pelo Departamento de Estado dos EUA como corruptos e
facilitadores do tráfico de drogas. (37) Te contar, viu, se Bukele por acaso tivesse qualquer
tipo de vínculo oculto com Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras
condenado a quarenta e cinco anos por narcotráfico, (38) daria até para alguém com mente mais poluída imaginar que esse combate à criminalidade em El Salvador, na ponta do
lápis, não ter passado de tomada de território mesmo. Acabar com a concorrência e ficar
com o caminho livre para assumir o controle da bandidagem em paz. Mas só se Bukele
tivesse vínculo oculto com algum ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico,
mesmo, senão… ah, diz que tem? Coincidência, né? Mais uma. Muito embora Flávio, o
Bolsonaro, ter declarado, dia desses, não existir isso de coincidência.
Porquê… sabe? Se começarmos a pensar que tem alguma coisa a ver, isso tudo, foragido
por tráfico que financia candidato de Milei, sócio de traficantes como assessor de Kast,
pacto secreto entre cartéis e Bukele, e mais vínculo oculto com outro ex-presidente
narcotraficante – que mal tem, gente, vínculo com traficante, ser sócio, onde já se viu?
que isso?, preconceito bobo, eu hein –, onde é que vamos parar?
Vamos pensar mais o quê? Que Trump teria algo a ver com isso? (39) Que Trump estaria controlando o Cartel de Los Soles agora? E que o Escudo das Américas seria só uma desculpinha furada para tomar o controle do narcotráfico em toda a América Latina? Sabe nem o que é Escudo das Américas? Já ouviu falar, sim. Aquela coalizão político-militar criada em março desse ano, liderada pelos Estados Unidos, a fim de “combater” o “narcoterrorismo” na América Latina e que conta com dezessete países da região, entre os quais… Argentina, Chile, El Salvador, Honduras, Equador e Venezuela. Só Brasil e México ficaram de fora. (40) Desfeita.
Se Trump tivesse dado indulto a Hernandez (41), sabe, ou se ele tivesse lucrado milhões de
dólares lavando dinheiro do narcotráfico colombiano (42), ou tivesse, sei lá, feito acordo com
o filho de El Chapo, lembra de El Chapo?, para que dezessete familiares de líderes do
Cartel de Sinaloa entrassem nos EUA (43), ou fosse aliado e entusiasta das bananas de
Noboa, aquelas, eu até pensaria mesmo coisa errada sobre o moço. Daria até para
pensar que essas centenas de soldados (44) que ele está enviando para a América Latina
não são para combater narcotráfico nada, coisa nenhuma, mas só para ocupar o território
e tomar o controle do cartel todo, que nem ele fez na Venezuela. Porque besta eu sou,
mas nem tanto. Hein? Os EUA acabaram de revogar o visto do procurador-geral da
Bolívia, Roger Mariaca, o que estava à frente das investigações contra o aliado de Trump,
Luis Fernando Camacho, ex-governador de Santa Cruz de la Sierra, afastado por
lavagem de dinheiro e proteção a narcotraficantes. O cara também não se ajuda, né?
Não se ajuda. Enfim, Bolívia. Lá longe. O problema de ficar pensando nessas coisas é
acabar imaginando que Flávio, o Bolsonaro, só quer virar presidente para que o Brasil
entre nesse clubinho do narcotráfico do bem (45) e ele faça que nem Bukele em El Salvador:
exterminar a concorrência e entregar o monopólio do narcotráfico de bandeja ao aliado,
ao preferido, ao indicado, ao Comando Vermelho e à narcomilícia toda duma vez. E é
como dizem, né, porta de entrada. Começa com uma droguinha aqui, outra acolá, e,
quando vê, já está fumando cocaína, fica doidão e logo quer dar o ouro, as terras raras, as joias da coroa tudo. Um narcogarimpão das Américas. Botam ordem nas casinhas
deles e transformam o país, o continente inteiro, num grande cartel de drogas comandado
pela narcomilícia. Que nem Major Curió fez em Serra Pelada. Disse que ia proteger os
garimpeiros, acabou criando uma cidade com seu nome para proteger os próprios
interesses – e as festinhas do Vorcaro. E é justo o que pode acontecer se Flávio, o
Bolsonaro, virar presidente sob “supervisão” de Trump. Ele jura de pés juntos que quer o
Brasil no Escudo das Américas para nos proteger. Talvez, só queira mesmo proteger seus
narcomilicianos de estimação. Tirar a soberania do Brasil de nossas mãos e entregá-la de
mãos beijadas ao narcotráfico internacional. Ao chefão da quadrilha de colarinho branco.
Arrisca? Ou melhor nem pensar nisso?
Referências da reportagem:
1 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/queiroz-admite-esquema-de-rachadinhas-ao-mp-e-tenta-inocentar-flavio-bolsonaro/
2 https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/10/pivo-da-rachadinha-queiroz-da-vitoria-de-flavio-como-certa-e-ja-se-movimenta.ghtml
3 https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/09/03/quem-e-o-advogado-e-ex-secretario-suspeito-de-vazar-informacoes-e-ajudar-o-comando-vermelho.ghtml
4 https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2025/09/pf-diz-que-traficante-do-comando-vermelho-pagou-ex-deputado-th-joias-e-ex-secretario-de-esportes-do-rj-cmf90babb02e3015i5iaa5ufw.html
5 https://aparecidanet.com.br/flavio-indicou-membro-do-cv-para-o-governo-de-claudio-castro-no-rj/
6 https://www.bnews.com.br/noticias/politica/drogas-armas-e-bazucas-antidrones-th-joias-vira-reu-por-esquema-ligado-ao-comando-vermelho.html
7 https://www.diariocarioca.com/2026/09/12/politica/judiciario/aliado-dos-bolsonaristas-th-joias-ex-deputado-estadual-no-rio-vira-reu-por-envolvimento-com-cv
8 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/07/22/policia-prende-ex-assessor-parlamentar-de-th-joias-apontado-como-operador-financeiro-ligado-cv.htm
9 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/06/pf-encontra-foto-de-th-joias-na-cama-com-milhoes-ex-deputado-converteu-milhoes-em-dolares-para-traficante-do-alemao.ghtml
10 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/05/th-joias-gravou-video-de-200-kg-de-maconha-e-ofereceu-a-traficante-que-disse-nao-e-bom-de-vender.ghtml
11 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/mpf-diz-que-th-joias-negociou-com-o-comando-vermelho-arma-usada-para-derrubar-drones.ghtml
12 https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/27/procurados-chefes-do-trafico-da-velha-guarda-continuam-soltos-no-rj.htm
13 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/th-joias-guardava-200kg-de-drogas-e-controlava-pagamentos-da-venda-de-cocaina-diz-denuncia-do-mpf.ghtml
14 https://extra.globo.com/casos-de-policia/policia-identifica-traficante-de-armas-preso-com-identidade-falsa-no-paraguai-24884770.html
15 https://revistasegurancaeletronica.com.br/traficantes-do-comando-vermelho-compram-drones-com-capacidade-para-transportar-ate-20-fuzis-entre-favelas/
16 g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/pf-indicia-rodrigo-bacellar-e-mais-4-por-vazamento-de-dados-para-o-comando-vermelho.ghtml
17 https://diariodorio.com/com-apoio-de-flavio-bolsonaro-bacellar-ganha-forca-como-sucessor-de-castro-no-rj/
18 https://conjur.com.br/2026-out-02/mp-rj-investiga-douglas-ruas-por-peculato-lavagem-de-dinheiro-e-organizacao-criminosa/
19 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/10/05/preso-com-fuzil-canella-e-o-2-deputado-estadual-mais-votado-no-rj.ghtm
20 https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/canella-era-patrono-politico-e-articulador-de-organizacao-criminosa-diz-pf/
21 https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/10/15/pf-cita-ligacao-de-marcio-canella-com-milicia-e-acordo-com-comando-vermelho.ghtml
22 https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/mae-de-flavio-foi-escolhida-como-suplente-de-canella-preso-pela-pf/
23 https://veja.abril.com.br/politica/preso-pela-pf-marcio-canella-foi-pre-candidato-ao-senado-na-chapa-de-flavio-bolsonaro/
24 https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/flavio-diz-que-foi-surpreendido-com-prisoes-de-canella-e-bacellar/
25 https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/02/politica/1562091519_351309.html
26 https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/06/apos-captura-governo-trump-recua-sobre-acusacao-de-que-maduro-chefiava-cartel-de-drogas.ghtml
27 https://www.ntn24.com/noticias-actualidad/pese-a-captura-de-maduro-el-cartel-de-los-soles-sigue-operando-en-venezuela-asegura-investigacion-de-insight-crime-610894
28 https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorio-de-politica-externa/2026/09/24/soberania-sequestrada-como-os-eua-assumiram-o-controle-das-reservas-de-petroleo-da-venezuela-para-alimentar-suas-refinarias/
29 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/alem-de-petroleo-eua-miram-potencial-em-terras-raras-da-venezuela/
30 https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/ex-aliado-acusa-milei-de-manter-lacos-estreitos-com-empresarios-narcos/
31 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/10/07/argentina-extraditara-aos-eua-suposto-traficante-que-diz-ter-financiado-deputado-de-milei.htm
32 https://progressive.international/wire/2025-03-31-daniel-noboas-family-business-president-of-ecuador-is-involved-in-cocaine-trafficking-to-europe/en/
33 https://www.semafor.com/article/12/23/2025/ecuadorian-presidents-family-banana-business-smuggled-drugs-investigation-finds
34 https://larepublica.pe/mundo/2025/12/08/gustavo-villatoro-el-hombre-detras-del-plan-de-bukele-y-aliado-de-kast-que-es-vinculado-con-narcotrafico-y-corrupcion-ntpe-538816
35 https://english.elpais.com/international/2024-01-29/how-a-salvadoran-gangster-duped-the-bukele-government-with-a-fake-scheme-to-catch-an-ms-13-fugitive-wanted-by-the-us.html
36 https://www.dw.com/es/l%C3%ADder-pandillero-revela-los-pactos-de-bukele-con-las-maras/a-72412223
37 https://www.latimes.com/espanol/california/articulo/2021-05-17/estados-unidos-senala-de-corrupcion-a-cinco-salvadorenos-dos-integran-el-gabinete-de-bukele
38 https://reporterosdeinvestigacion.com/2022/03/31/los-negocios-entre-el-ex-presidente-ligado-al-narcotrafico-nayib-bukele-y-daniel-ortega/
39 https://www.reuters.com/world/americas/former-honduran-president-released-us-prison-after-trump-pardon-2025-12-02/
40 https://ncnews.com.br/2026/09/23/brasil-e-mexico-ficam-fora-de-alianca-dos-eua-contra-o-crime-organizado-e-desafiam-estrategia-de-trump/
41 https://www.nbcnews.com/politics/trump-administration/former-honduran-president-juan-orlando-hernandez-freed-trump-pardon-rcna246968
42 https://www.newsweek.com/trump-drugs-corruption-panama-hotel-money-laundering-714891
43 https://www.nytimes.com/2025/05/14/world/americas/mexico-cartel-chapo-family.html
44 https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/10/14/eua-estao-enviando-centenas-de-soldados-para-a-america-latina-dizem-autoridades-militares-americanas.ghtml
45 https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/23/flavio-promete-incluir-brasil-no-escudo-das-americas.ghtm
Geral
A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução
Publicadoo
3 meses atrásem
12/07/26
Eduardo Nunes Campos*
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
(*) Jornalista
Internacional
IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS
Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)
Publicadoo
4 meses atrásem
02/07/26
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.




O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
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