Sobre Duartes e Dias: arte e morte em tempos de Covid

Charge de Cláudio Duarte

 

ARTIGO

Daniel Pinha, professor do Departamento de História da UERJ

 

Lima Duarte e Regina Duarte fizeram sucesso como casal protagonista de uma das novelas de maior sucesso da história da TV brasileira. “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, lançada em 1985 depois de ter sua primeira versão censurada pela ditadura dez anos antes, abordava a exploração da fé popular enquanto instrumento de poder. Em Asa Branca o coronel, o padre, o comerciante e o prefeito lucravam com os milagres de Roque, inventado santeiro por eles.

Na trama, Sinhozinho Malta (Lima) e Viúva Porcina (Regina), “aquela que foi sem nunca ter sido”, formaram um casal e tanto, participando cotidianamente da vida de diversas gerações de brasileiros. Divertindo, emocionando, chocando, ajudando a moldar a sensibilidade de quem assistia. Uma subjetividade formada com a potência do recurso ficcional, trazendo aquele conforto em situações trágicas: “Ufa!” ainda bem que não é verdade!

Lima e Regina voltaram à cena essa semana, em meio à pandemia da Covid-19, fazendo o papel de si mesmos. Cada um à sua maneira, despertaram comoção e sensibilização, falando de tema recorrente em obras artísticas (ou não), a morte. Deixaram ao leitor/ouvinte uma dura constatação: não estavam interpretando um texto de Dias Gomes.

Lima Duarte perdeu um amigo. E não foi para a Covid, mas para a “doença social” que atinge a sociedade brasileira, e não é de hoje. Ela faz as pessoas fazerem escárnio da morte, debochar, descartar a vida (dos outros) como se fosse lixo, manifestarem-se na porta de hospitais, agredirem enfermeiros. Uso doença entre aspas aqui deixando claro que não enxergo nenhuma patologia neste comportamento, apenas humanidade dura, triste.

Lima Duarte disse “Não! Com a memória do meu amigo, não!” e fez aquele vídeo em homenagem a Flávio Migliaccio. Neste momento, sinceramente, eu estou pouco me importando se o Lima Duarte flertou recentemente com o golpismo ou com a extrema direita; para esta informação, sou eu que digo “E daí?” Respeito a dor de quem perdeu um amigo, mais ainda nas circunstâncias trágicas de um suicídio. “Tô certo ou tô errado?!”, balanço daqui a minha pulseira de Sinhozinho Malta.

Regina Duarte, ironicamente, está contaminada pelo “vírus” que produziu o desgosto de Migliaccio. Um vírus mais persistente que o corona vem atacando muitos brasileiros desde antes desta pandemia, gerando efeitos colaterais que matam, como a naturalização da violência e a banalização da morte. Regina diz um sonoro “E daí?” (“Foda-se”, em linguagem vulgar) para a morte do outro, mostrando que Bolsonaro não está sozinho em sua jornada. Ele dá forma e desperta um sentimento compartilhado por muitos.

Para Regina e seu presidente eu digo um sonoro “Não!” Graças à cultura que consumi, inclusive a televisiva com Dias Gomes, aprendi a chorar pelas tragédias e mortes ficcionais (mais ainda, as reais!). Nos deixem em paz, ao menos, para chorar nossas perdas! A barbárie pregada por vocês só alimenta radicalmente o meu amor pelas vidas.

Me emocionou muito em “Bacarau”, de Kleber Mendonça, a cena do anúncio das mortes feitas em um carro de som, já no final filme. O locutor pronunciava nomes e sobrenomes de cada um dos óbitos, cada um com seu caixão. Mexeu muito comigo e eu chorei. E depois senti o alívio. Era de “mentirinha”…

Estamos numa tremenda enrascada e não há Roque Santeiro para nos salvar. Nem um Dias Gomes, um Moraes Moreira, um Aldir Blanc, um Flávio Migliaccio e tantos outros para contar essa história.

Sairemos dessa. Mais vivos do que nunca.

 

 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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