Sob o império da (lei) do medo: Jean Wyllys, crime em Brumadinho e afins
Publicadoo
7 anos atrásem
Por Rosane Borges*
O comunicado de Jean Wyllys, de que abrira mão do terceiro mandato de deputado federal pelo PSOL, foi um tipo inequívoco de “quer que eu desenhe?”, ilustrou o quão perigoso tornou-se o nosso ambiente político. Primeiro deputado federal declaradamente gay, que adotou os direitos LGBT como vértebra de sua plataforma política, Jean Wyllys, na condição de indesejável para a gramática política vigente, sofria ameaças em fluxo contínuo. Até a sua mãe não foi poupada.
De um lado, levantaram-se algumas vozes para criticar a decisão de Wyllys, como a do Ministério Público, que jura de pé junto que o Brasil é uma fortaleza em segurança (Marielle Franco foi vítima desta fortaleza impenetrável). De outro, ouviram-se vozes raivosas, insufladas pelos posts dúbios da família Bolsonaro (pai e filhos), entoando samba de uma nota só: defenestrar, em grau máximo, um jovem político que desistira de colocar sua vida em risco.

Ansiedade, Desespero e O Grito, de Edvard Munch
Interpondo-se a essas vozes, formou-se uma extensa rede de apoio a Jean Wyllys que enxergou no medo a principal chave explicativa para o episódio. Extensivamente, passamos a reiterar o quanto estamos por nossa própria conta, restando-nos apenas reclamar para o papa. Teríamos todas as justificativas para a deserção de Jean Wyllys como algo perfeitamente compreensível no estado de exceção.
Algo mais se mostra neste episódio, o que nos leva a conectá-lo a outros acontecimentos, a exemplo do crime em Brumadinho, e a situá-lo na raiz das perturbações dos nossos tempos. O medo é o denominador comum que possibilita a conjunção desses atos e o responsável por dar consistência ao laço social.
Sobre o medo e a lei do medo: conluio destrutivo
Que estamos todos com medo, disso não resta a menor dúvida. O “todos” não se refere apenas a nós, brasileiros, mas à comunidade planetária, progressivamente despida de mantos protetores, antes ofertados pelas instituições tradicionais. Com o enfraquecimento dessas instituições, o apelo às bolhas das redes sociais e mídias digitais, bem como ao canto da sereia dos autocratas de direita, tornou-se inevitável.
O desamparo e a desproteção conduzem a temores múltiplos: teme-se perder a casa, teme-se ficar desempregado, teme-se ficar doente, teme-se ficar só, teme-se diminuir as expectativas de uma vida material, teme-se que a “ideologia de gênero”, o que quer que seja isso, contamine a mente das nossas crianças inocentes, teme-se professores marxistas, teme-se mamadeira de pinto, teme-se, teme-se, teme-se…
A presença ubíqua das redes sociais fez florescer novas modalidades de medo. Três fobias decorrem da vida digital, FOMO, FOBO E FODA, formadas pelas iniciais de cada expressão em inglês: FOMO (Fear Of Missing Out: medo de perder alguma coisa); FOBO (Fear Of Being Offline: medo de ficar desconectado) e FODA (Fear Of Doing Anything: medo de fazer qualquer coisa).
Pelo que se vê, os nossos medos são recobertos por uma amplíssima malha, o que faz da afirmação de Cervantes – “o medo tem muitos olhos. E enxerga coisas no subterrâneo” – uma síntese dos nossos dias.
Mas há que se fazer justiça. O medo, que se tornou estrutural, não é fruto apenas das intempéries do contemporâneo. Tão velho quanto o mundo, é um tipo de afeto que compartilhamos até com os outros animais, com a exceção de que estes só o sentem na presença real de sinal de perigo, ao contrário de nós, seres humanos, que imaginamos e, em alguns casos, controlamos o medo. Da filosofia, passando pela literatura até alcançar as raias das ciências humanas e biológicas, a preocupação com o medo se espraiou em tratados, textos e compêndios. A indústria do entretenimento, com o cinema à frente, encarregou-se de amplificar a sua capilaridade.
Montaigne dedicou-lhe um ensaio, declarando que “o medo é a coisa de que mais medo tenho no mundo”. Lucien Febvre, em perspectiva histórica, se ocupou em examinar a presença do medo na nascente era moderna, que prometia uma vida segura para o mundo ocidental. Extraindo a afirmação “o homem é lobo do homem” do dramaturgo romano Platus, Thomas Hobbes inseriu o medo e a liberdade no rol dos elementos essenciais para o exercício da política.
Vem da psicanálise e de parte da literatura infantil um novo giro em torno da natureza do medo. Lacan advertira que viver sem medo é viver sem esperança. O medo teria, assim, um caráter criativo, positivamente transformador, possuiria a função de nos autopreservar. Atávico ou arquetípico, porque o sentimento de finitude sempre nos acompanha, o medo exerce um papel vital em nossa existência.
O escritor Elias Canetti também dá sua parcela de contribuição para o deslocamento de sentido em torno do medo. No livro “A língua absolvida” explica: “O sentimento mais estimulante é o medo, é impensável o pouco que seríamos se não tivéssemos sentido medo. É peculiar ao homem a tendência de sempre se expor ao medo. Nenhum sentimento de medo se perde, mas seus esconderijos são misteriosos”.
Ora, se o medo não é, fundamentalmente, um sentimento ruim, por que a ele atribuímos a culpa pela expansão do deserto na vida política, de onde brota a desilusão e a morte?
Detectamos parte da resposta neste fragmento da psicanalista Maria Rita Kehl: “o que há de terrível no mundo em que vivemos não é a presença do medo, e sim o fato de que toda a enorme variedade dos sentimentos de medo ficou encoberta por sua dimensão mais opressiva, mais empobrecedora, que é o temor em relação a nossos semelhantes. O homem, que só sobrevive física e psiquicamente em aliança com seus semelhantes, vê hoje no outro, qualquer que ele seja — estrangeiro ou vizinho, familiar ou desconhecido —, a ameaça mais temida”.
Chegamos ao ponto. Mais do que um medo que precede a esperança, um medo que faz irromper o novo, está em voga um tipo de medo que ataca sistematicamente o outro e que depende de uma jurisprudência para autorizá-lo. O que vem nos (i)mobilizando não é o medo, mas sim a lei do medo. E qual a diferença entre os dois?
Recorramos novamente à psicanálise: a lei do medo prospera quando a lei simbólica perde força coletiva capaz de impor diques para o que se designou como excesso (interdição do incesto, nos termos psicanalíticos). Com o enfraquecimento da lei simbólica, a lei do medo passa a operar segundo temores imaginários, alimentando sucessivos fantasmas vistos como o motivo da nossa ruína, uma ameaça ao pouco que restou do EU (a linha divisória entre nós e outros, entre cidadãos de bem e a escória do mundo nos dá a medida dos modos de funcionamento desta lei: é preciso combater a depravação que os corpos desviantes exalam, é preciso recuperar a “tradicional família brasileira”, é preciso acabar com o socialismo e o comunismo….).
Lei do medo e estado de terror são solidários. Jovens negros das periferias das topografias da crueldade (expressão do pensador camaronês Achilie Mbembe) são achatados, e até mortos, por esses dois mecanismos que se materializam no tráfico de drogas, na violência policial, na ingerência não menos violenta das milícias; mulheres negras são sucessivamente submetidas às formas de destituição da lei do medo por uma rede de proteção e direitos que não chega até elas; a população indígena é atacada de todas as formas e maneiras sob a espada da lei do medo, que se fortalece com a flexibilização da legislação ambiental.
Ainda segundo Kehl, “é uma lei que não pode ser questionada, muito menos transgredida, pois a transgressão à lei do medo sempre é paga com a morte”.
Quais as conexões que a saída do deputado federal do PSOL da institucionalidade política estabelece com a tragédia na barragem situada na mina Córrego do Feijão, um crime que afundou a cidade de Brumadinho num mar de material tóxico?
Heráclito já dizia que uma conexão oculta é mais poderosa que uma visível. Os fios que mantém os dois episódios atados são reforçados pela lei do medo. A comunidade de sobreviventes da pequena cidade mineira vive nestes últimos dias sob a inarredável sombra do medo. Para alguns, teme-se o pior que ainda está por vir (pais temem em não encontrar com vida seus filhos desaparecidos; a casa que ficou avariada com a enxurrada de lama, agora se deteriora na velocidade da luz…).
Forçoso dizer que a lei do medo não teve na tragédia do 25 de janeiro o início de sua vigência. Empresas do ramo já operavam segundo a lógica da ameaça e do terror (a\mineradora Flapa forjou seus trabalhadores a votarem num candidato a presidente da República; pesa sobre a Vale do Rio Doce a acusação de que monitorava os indesejáveis. De acordo com o advogado Ricardo Ribeiro, “a Vale acompanhava de perto todos os grupos que a incomodavam ou que tivessem alguma relação com os negócios da empresa”; a flexibilização nas leis ambientais dá musculatura à lei do medo contribuindo para um ambiente onde tudo pode para os exploradores e poderosos).
Jean Wyllys, a comunidade de Brumadinho e boa parte da população estão sob o domínio da lei do medo, destituídos de sua humanidade, transformados em corpos matáveis. Nestes casos, a necropolítica é um dos principais mecanismos de conduta desta legislação: “a lei do medo reduz o homem à condição de homo sacer, recuperada por Agamben, sujeito cuja vida foi excluída do campo simbólico e ficou à mercê da violência banal, prestes a ser abatido por qualquer motivo, pelas mãos de qualquer um”.
Morre-se aos borbotões soterrado pela lama tóxica, morre-se com 111 tiros da polícia, morre-se em decorrência da violência obstétrica que atinge, em sua maioria, mulheres negras; morre-se pela sanha assassina de homens que não permitem a afirmação das mulheres, morre-se da forma mais estúpida nos conflitos do campo.. morre-se por qualquer motivo.
É possível revogar a lei do medo?
Num cenário de perdas e incertezas, como não se submeter à lei do medo? De que modo podemos mobilizar o medo pelo que ele tem de instigante, criativo, nascente do desejo e não pelo que oferece à regulação da vida e da política em sua face opressora e repressora?
Venho acompanhando os relatos dilacerantes das pessoas de Brumadinho. Em muitos deles, fica patente o revezamento entre medo e esperança. Dessas pessoas emana uma força surpreendente de quem, em situação-limite, não se curva à lei do medo. Catástrofes desse porte não publicam a sua chegada nas redes sociais, mas emitem sinais técnicos da iminência de sua realização. A desconsideração desses sinais por parte da Vale lança luz no fato de que as pessoas e o meio ambiente nada valem (com a licença do trocadilho) e que, por isso, podem, aos olhares do capitalismo, ter uma vida besta.
É compreensível que neste momento em que um governo com inclinação autoritária chega ao poder nos encontremos paralisados, assombrados pela lei do medo, com poucos recursos para reagir. Mas urge que revoguemos o preceito desta lei, destituamos o seu receituário tirânico. O combate à lei do medo só é possível com o acionamento do medo para nos autopreservar. Contardo Calligaris questiona: “Será que saberíamos ou pressentiríamos se vivêssemos os últimos anos ou meses antes do apocalipse e do armagedon? Justamente, a Bíblia (Apocalipse 16, 14:16) recomenda que estejamos sempre prontos, que durmamos vestidos, pois é difícil dizer se e quando a batalha começará”.
Estar pronto e preparado só é possível se o botão do medo for acionado para que nos preparemos para o que está por vir. A deserção de Jean Wyllys e o crime em Brumadinho emitem sinais de que o que está por vir não é nada fofo, nem tranquilo, tampouco favorável. Só mudaremos o curso das tragédias e catástrofes futuras se, pelo medo que temos delas, nos reorganizarmos para o retorno da lei simbólica e para a emergência de novas formas de concepção da política.
[1] Jornalista, professora colaborada do Colabor (ECA-USP), autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012)e Esboços de um tempo presente (2016).
ges[1]
O comunicado de Jean Wyllys, de que abrira mão do terceiro mandato de deputado federal pelo PSOL, foi um tipo inequívoco de “quer que eu desenhe?”, ilustrou o quão perigoso tornou-se o nosso ambiente político. Primeiro deputado federal declaradamente gay, que adotou os direitos LGBT como vértebra de sua plataforma política, Jean Wyllys, na condição de indesejável para a gramática política vigente, sofria ameaças em fluxo contínuo. Até a sua mãe não foi poupada.
De um lado, levantaram-se algumas vozes para criticar a decisão de Wyllys, como a do Ministério Público, que jura de pé junto que o Brasil é uma fortaleza em segurança (Marielle Franco foi vítima desta fortaleza impenetrável). De outro, ouviram-se vozes raivosas, insufladas pelos posts dúbios da família Bolsonaro (pai e filhos), entoando samba de uma nota só: defenestrar, em grau máximo, um jovem político que desistira de colocar sua vida em risco.
Interpondo-se a essas vozes, formou-se uma extensa rede de apoio a Jean Wyllys que enxergou no medo a principal chave explicativa para o episódio. Extensivamente, passamos a reiterar o quanto estamos por nossa própria conta, restando-nos apenas reclamar para o papa. Teríamos todas as justificativas para a deserção de Jean Wyllys como algo perfeitamente compreensível no estado de exceção.
Algo mais se mostra neste episódio, o que nos leva a conectá-lo a outros acontecimentos, a exemplo do crime em Brumadinho, e a situá-lo na raiz das perturbações dos nossos tempos. O medo é o denominador comum que possibilita a conjunção desses atos e o responsável por dar consistência ao laço social.
Sobre o medo e a lei do medo: conluio destrutivo
Que estamos todos com medo, disso não resta a menor dúvida. O “todos” não se refere apenas a nós, brasileiros, mas à comunidade planetária, progressivamente despida de mantos protetores, antes ofertados pelas instituições tradicionais. Com o enfraquecimento dessas instituições, o apelo às bolhas das redes sociais e mídias digitais, bem como ao canto da sereia dos autocratas de direita, tornou-se inevitável.
O desamparo e a desproteção conduzem a temores múltiplos: teme-se perder a casa, teme-se ficar desempregado, teme-se ficar doente, teme-se ficar só, teme-se diminuir as expectativas de uma vida material, teme-se que a “ideologia de gênero”, o que quer que seja isso, contamine a mente das nossas crianças inocentes, teme-se professores marxistas, teme-se mamadeira de pinto, teme-se, teme-se, teme-se…
A presença ubíqua das redes sociais fez florescer novas modalidades de medo. Três fobias decorrem da vida digital, FOMO, FOBO E FODA, formadas pelas iniciais de cada expressão em inglês: FOMO (Fear Of Missing Out: medo de perder alguma coisa); FOBO (Fear Of Being Offline: medo de ficar desconectado) e FODA (Fear Of Doing Anything: medo de fazer qualquer coisa).
Pelo que se vê, os nossos medos são recobertos por uma amplíssima malha, o que faz da afirmação de Cervantes – “o medo tem muitos olhos. E enxerga coisas no subterrâneo” – uma síntese dos nossos dias.
Mas há que se fazer justiça. O medo, que se tornou estrutural, não é fruto apenas das intempéries do contemporâneo. Tão velho quanto o mundo, é um tipo de afeto que compartilhamos até com os outros animais, com a exceção de que estes só o sentem na presença real de sinal de perigo, ao contrário de nós, seres humanos, que imaginamos e, em alguns casos, controlamos o medo. Da filosofia, passando pela literatura até alcançar as raias das ciências humanas e biológicas, a preocupação com o medo se espraiou em tratados, textos e compêndios. A indústria do entretenimento, com o cinema à frente, encarregou-se de amplificar a sua capilaridade.
Montaigne dedicou-lhe um ensaio, declarando que “o medo é a coisa de que mais medo tenho no mundo”. Lucien Febvre, em perspectiva histórica, se ocupou em examinar a presença do medo na nascente era moderna, que prometia uma vida segura para o mundo ocidental. Extraindo a afirmação “o homem é lobo do homem” do dramaturgo romano Platus, Thomas Hobbes inseriu o medo e a liberdade no rol dos elementos essenciais para o exercício da política.
Vem da psicanálise e de parte da literatura infantil um novo giro em torno da natureza do medo. Lacan advertira que viver sem medo é viver sem esperança. O medo teria, assim, um caráter criativo, positivamente transformador, possuiria a função de nos autopreservar. Atávico ou arquetípico, porque o sentimento de finitude sempre nos acompanha, o medo exerce um papel vital em nossa existência.
O escritor Elias Canetti também dá sua parcela de contribuição para o deslocamento de sentido em torno do medo. No livro “A língua absolvida” explica: “O sentimento mais estimulante é o medo, é impensável o pouco que seríamos se não tivéssemos sentido medo. É peculiar ao homem a tendência de sempre se expor ao medo. Nenhum sentimento de medo se perde, mas seus esconderijos são misteriosos”.
Ora, se o medo não é, fundamentalmente, um sentimento ruim, por que a ele atribuímos a culpa pela expansão do deserto na vida política, de onde brota a desilusão e a morte?
Detectamos parte da resposta neste fragmento da psicanalista Maria Rita Kehl: “o que há de terrível no mundo em que vivemos não é a presença do medo, e sim o fato de que toda a enorme variedade dos sentimentos de medo ficou encoberta por sua dimensão mais opressiva, mais empobrecedora, que é o temor em relação a nossos semelhantes. O homem, que só sobrevive física e psiquicamente em aliança com seus semelhantes, vê hoje no outro, qualquer que ele seja — estrangeiro ou vizinho, familiar ou desconhecido —, a ameaça mais temida”.
Chegamos ao ponto. Mais do que um medo que precede a esperança, um medo que faz irromper o novo, está em voga um tipo de medo que ataca sistematicamente o outro e que depende de uma jurisprudência para autorizá-lo. O que vem nos (i)mobilizando não é o medo, mas sim a lei do medo. E qual a diferença entre os dois?
Recorramos novamente à psicanálise: a lei do medo prospera quando a lei simbólica perde força coletiva capaz de impor diques para o que se designou como excesso (interdição do incesto, nos termos psicanalíticos). Com o enfraquecimento da lei simbólica, a lei do medo passa a operar segundo temores imaginários, alimentando sucessivos fantasmas vistos como o motivo da nossa ruína, uma ameaça ao pouco que restou do EU (a linha divisória entre nós e outros, entre cidadãos de bem e a escória do mundo nos dá a medida dos modos de funcionamento desta lei: é preciso combater a depravação que os corpos desviantes exalam, é preciso recuperar a “tradicional família brasileira”, é preciso acabar com o socialismo e o comunismo….).
Lei do medo e estado de terror são solidários. Jovens negros das periferias das topografias da crueldade (expressão do pensador camaronês Achilie Mbembe) são achatados, e até mortos, por esses dois mecanismos que se materializam no tráfico de drogas, na violência policial, na ingerência não menos violenta das milícias; mulheres negras são sucessivamente submetidas às formas de destituição da lei do medo por uma rede de proteção e direitos que não chega até elas; a população indígena é atacada de todas as formas e maneiras sob a espada da lei do medo, que se fortalece com a flexibilização da legislação ambiental.
Ainda segundo Kehl, “é uma lei que não pode ser questionada, muito menos transgredida, pois a transgressão à lei do medo sempre é paga com a morte”.
Quais as conexões que a saída do deputado federal do PSOL da institucionalidade política estabelece com a tragédia na barragem situada na mina Córrego do Feijão, um crime que afundou a cidade de Brumadinho num mar de material tóxico?
Heráclito já dizia que uma conexão oculta é mais poderosa que uma visível. Os fios que mantém os dois episódios atados são reforçados pela lei do medo. A comunidade de sobreviventes da pequena cidade mineira vive nestes últimos dias sob a inarredável sombra do medo. Para alguns, teme-se o pior que ainda está por vir (pais temem em não encontrar com vida seus filhos desaparecidos; a casa que ficou avariada com a enxurrada de lama, agora se deteriora na velocidade da luz…).
Forçoso dizer que a lei do medo não teve na tragédia do 25 de janeiro o início de sua vigência. Empresas do ramo já operavam segundo a lógica da ameaça e do terror (a\mineradora Flapa forjou seus trabalhadores a votarem num candidato a presidente da República; pesa sobre a Vale do Rio Doce a acusação de que monitorava os indesejáveis. De acordo com o advogado Ricardo Ribeiro, “a Vale acompanhava de perto todos os grupos que a incomodavam ou que tivessem alguma relação com os negócios da empresa”; a flexibilização nas leis ambientais dá musculatura à lei do medo contribuindo para um ambiente onde tudo pode para os exploradores e poderosos).
Jean Wyllys, a comunidade de Brumadinho e boa parte da população estão sob o domínio da lei do medo, destituídos de sua humanidade, transformados em corpos matáveis. Nestes casos, a necropolítica é um dos principais mecanismos de conduta desta legislação: “a lei do medo reduz o homem à condição de homo sacer, recuperada por Agamben, sujeito cuja vida foi excluída do campo simbólico e ficou à mercê da violência banal, prestes a ser abatido por qualquer motivo, pelas mãos de qualquer um”.
Morre-se aos borbotões soterrado pela lama tóxica, morre-se com 111 tiros da polícia, morre-se em decorrência da violência obstétrica que atinge, em sua maioria, mulheres negras; morre-se pela sanha assassina de homens que não permitem a afirmação das mulheres, morre-se da forma mais estúpida nos conflitos do campo.. morre-se por qualquer motivo.
É possível revogar a lei do medo?
Num cenário de perdas e incertezas, como não se submeter à lei do medo? De que modo podemos mobilizar o medo pelo que ele tem de instigante, criativo, nascente do desejo e não pelo que oferece à regulação da vida e da política em sua face opressora e repressora?
Venho acompanhando os relatos dilacerantes das pessoas de Brumadinho. Em muitos deles, fica patente o revezamento entre medo e esperança. Dessas pessoas emana uma força surpreendente de quem, em situação-limite, não se curva à lei do medo. Catástrofes desse porte não publicam a sua chegada nas redes sociais, mas emitem sinais técnicos da iminência de sua realização. A desconsideração desses sinais por parte da Vale lança luz no fato de que as pessoas e o meio ambiente nada valem (com a licença do trocadilho) e que, por isso, podem, aos olhares do capitalismo, ter uma vida besta.
É compreensível que neste momento em que um governo com inclinação autoritária chega ao poder nos encontremos paralisados, assombrados pela lei do medo, com poucos recursos para reagir. Mas urge que revoguemos o preceito desta lei, destituamos o seu receituário tirânico. O combate à lei do medo só é possível com o acionamento do medo para nos autopreservar. Contardo Calligaris questiona: “Será que saberíamos ou pressentiríamos se vivêssemos os últimos anos ou meses antes do apocalipse e do armagedon? Justamente, a Bíblia (Apocalipse 16, 14:16) recomenda que estejamos sempre prontos, que durmamos vestidos, pois é difícil dizer se e quando a batalha começará”.
Estar pronto e preparado só é possível se o botão do medo for acionado para que nos preparemos para o que está por vir. A deserção de Jean Wyllys e o crime em Brumadinho emitem sinais de que o que está por vir não é nada fofo, nem tranquilo, tampouco favorável. Só mudaremos o curso das tragédias e catástrofes futuras se, pelo medo que temos delas, nos reorganizarmos para o retorno da lei simbólica e para a emergência de novas formas de concepção da política.
*Jornalista, professora colaborada do Colabor (ECA-USP), autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012)e Esboços de um tempo presente (2016).
[1] Jornalista, professora colaborada do Colabor (ECA-USP), autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012)e Esboços de um tempo presente (2016).
Você pode gostar
Geral
A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução
Publicadoo
1 dia atrásem
12/07/26
Eduardo Nunes Campos*
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
(*) Jornalista
Internacional
IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS
Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)
Publicadoo
2 semanas atrásem
02/07/26
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.




O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Geral
O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Publicadoo
6 anos atrásem
07/11/20O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac
Por Dirce Waltrick do Amarante*
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
Trending
-
8 anos atrásLideranças evangélicas gravam vídeo em apoio a Fernando Haddad
-
Política8 anos atrásA pergunta que precisa ser feita: Haddad foi mesmo o pior prefeito de São Paulo?
-
8 anos atrás12 provas de que Bolsonaro não é patriota, nem honesto, muito menos cristão
-
Lava Jato7 anos atrásGlenn Greenwald anuncia nova bomba: “Hoje é o pior dia para eles”
-
Educação7 anos atrásO massacre que a TV não mostrou em Suzano
-
#EleNão8 anos atrásSegunda ex-mulher de Bolsonaro acusa candidato de espancamento e “desequilíbrio mental”
-
Política8 anos atrásBolsonaro ameaça prender todos os que discordarem dele
-
Eleições Municipais 20169 anos atrásA Impressionante Ficha Corrida de João Doria (em 22 itens)