SEI O QUE FIZERAM NO VERÃO PASSADO

Perdão, Senhor

crônica de Elisa Lucinda
Perdão,
Senhor, porque sou cristão e me sinto melhor do que os outros por ser rico de dinheiro. Perdão por ser cristão e manter minha empregada doméstica há muitos anos num quarto sem janela, com menos de 2 metros quadrados, por estar ciente de que o chuveiro dela é levemente em cima do vaso e, sem box ou cortina, a obriga a enxugá-lo diariamente após cada banho. Perdão porque mandei buscar pra mim uma menina do interior para ser criada como filha e, na verdade trabalha na minha casa fazendo o que os meus filhos não fazem e não é tratada da mesma maneira que eles. Perdão porque sou amante de minha secretária, não suporto minha mulher mas preciso estar casado por causa do cargo que ocupo e, ainda assim, tenho a petulância de achar que meu casamento é superior ao amor que meu vizinho homossexual tem pelo seu companheiro. Perdão, Senhor, porque sou cristão e não protesto por frequentar um clube onde tem banheiros exclusivos para babás, e mais, porque saio exibindo-as vestidas de branco, como se fossem escravas, usando-as para esperar em nosso lugar nas longas filas dos restaurantes chiques onde elas não comerão. Perdão porque nossas famílias não comem à mesma mesa que os empregados, e, mesmo sabendo que somos iguais, nossas comidas são diferentes e de melhor qualidade, meu Pai. Perdão porque não conto histórias às minhas crianças, entregues à internet, e, quando estou amamentando aproveito para falar no celular, sem olhar o meu bebê. Perdão porque ajudo orfanatos mas jamais adotaria uma criança negra. Perdão porque sou advogada e votei num admirador da tortura. Perdão porque sou mulher e mesmo assim chamei a ex presidente de vaca. Porque sou contra a corrupção mas paguei “um por fora” para meu filho despreparado entrar na faculdade assim como fiz para ele ter carteira de habilitação. Porque nunca sonhei com um príncipe negro para a minha filha. Sou cristão e mesmo sabendo que Jesus nasceu numa manjedoura, aqui pra nós, meu Pai, não suporto pobre. Perdão porque não sou racista, mas não estranho a maioria branca na Tv e, na minha casa, no condomínio, na escola do meu filho, negros são só empregados e eu acho certo. Perdão por ser cristão e apesar do “vinde à mim as criancinhas”, quero armá-las, sou a favor da diminuição da maioridade penal, e não luto para que haja mais escolas e menos presídios; Por eu não me importar com o extermínio nas favelas, por eu não saber onde mora minha empregada, se tem filhos ou sonhos. Por que sou assim, Senhor? Que parte não entendi, se comungo todos os domingos? Perdão, porque agredi meu irmão provocando-lhe um galo na cabeça, logo depois da missa do galo. Perdão por ter agredido a mãe dos meus filhos na frente deles e ter gritado pra minha irmã que ela vai pro inferno só porque ama uma mulher. Perdão por ser um drogado lícito e tomar remédio para dormir, para acordar, para não ser ansioso, para fazer reunião, para transar e ainda mamar diariamente meu litro de whisky e me achar com moral para criticar a maconha do meu filho. Perdão pois mesmo sabendo que armas entram e saem ilegalmente do meu país, mesmo consciente de que todo dia morrem policiais, bandidos e inocentes cidadãos por tais balas, quero liberar seu porte. Perdão porque não me importo com o alto índice de feminicídio aqui e mesmo sabendo que Jesus defendeu uma adúltera apedrejada, votei num sujeito que acha que só as feias não merecem ser estupradas. Senhor, não sei se o meu caso tem jeito. Estou desesperado. Sou cristão e ontem passei a manhã na porta do CTI onde minha mãe está, tentando que os advogados convençam os médicos a autorizarem que ela assine o testamento. Perdão porque abandonei meu pai num asilo chique, sem visitá-lo não descansei enquanto ele não fez a partilha de nossos bens em vida. Perdão porque deixei meu avô na ala mais rica do hospital e só vou lá para pagar as cuidadoras que são, na verdade, suas únicas visitas. Perdão porque todo médico ou médica negra que olho tenho primeiro a certeza de que são enfermeiros.
Perdão porque na minha família de desembargadores abafamos os casos de abuso sexual por conta das aparências; porque somos contra o aborto, mas não no caso de minha filha, que engravidou do namorado pobre e resolvemos o problema numa clínica chique da Barra. Perdão porque sou espírita de mesa branca e detesto macumba; Porque meu filho deprimido tentou se matar, porque sempre recebeu mais dinheiro do que afeto, está numa clínica discreta e de alto nível em Brasília e eu minto para os meus amigos, tirando onda de que ele está passando uns dias curtindo nosso apartamento em Nova York. Perdão porque não entendi nada. Perdão por ser um embuste. Perdão por usar seu santo nome em vão.

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