Sarney: “eles não aceitam nem parlamentarismo com ela”

Foto por Hélio Carlos Mello

Corremos grande risco de nos enganar quando tentamos aprofundar uma análise antes que o calor dos acontecimentos se dissipe. No entanto, é preciso correr esse risco se queremos escolher de qual lado ficar, se queremos influir no desenrolar da história.

O que conseguimos enxergar, hoje, nessa disputa pelo poder no Brasil? Vamos tentar montar um quadro com as declarações feitas sobre a presidenta Dilma nas gravações vazadas e ações que ela tomou nesses 17 meses de seu segundo mandato, especialmente no campo econômico.

Dilma teve altos índices de popularidade, em seu primeiro mandato, até as manifestações de junho de 2013. Esses eventos, ainda que não consigamos entendê-los completamente, foram muito bem organizados para terem sido espontâneos. Sua aprovação desaba, mas mesmo assim vence as eleições em 2014, já tendo a oposição da elite política e econômica, bem como de ampla parcela da classe média.

Entendemos a designação de Joaquim Levy e a linha neoliberal adotada em 2015, ajuste das contas públicas e reajustes abruptos de preços públicos no meio de uma recessão, como uma tentativa de conciliação, como um gesto de Dilma para conquistar apoio ao seu governo, após uma eleição que evidenciou a divisão entre dois projetos de país. Um projeto centrado na questão social, na diminuição de desigualdade com forte intervenção do Estado, por um lado, e um projeto privatizante com redução do Estado e de direitos sociais, por outro.

A recessão, com aumento do desemprego, e a alta inflação foram resultantes das políticas adotadas por Levy e avalizadas por Dilma. Embora passível de discussão, a recessão e a inflação foram, no mínimo, agravadas pela busca de austeridade em meio a enorme incerteza política e debilidade econômica. De todo modo, a linha de política econômica adotada faz brotar críticas daqueles que votaram em Dilma. Seu nível de apoio político atingiu níveis assustadoramente baixos. A presidenta ficou quase só.

No entanto, não sabíamos, imaginávamos, mas não tínhamos certeza, das movimentações subterrâneas que agora são trazidas à luz pelas gravações que têm sido divulgadas. As medidas contrárias aos direitos sociais adotadas pelo governo interino e as revelações gravadas culpando Dilma por não interceder nas investigações de corrupção dão as cores do golpe em curso.
Ressaltemos que nunca houve tanta liberdade para que a Polícia Federal, o Ministério Publico e o Judiciário investigassem – o governo Dilma é o primeiro a abrir tamanho espaço.

Vamos lembrar que o delator Delcídio afirmou que quem detinha o poder em Furnas era Eduardo Cunha e que Dilma o desalojou. Delcídio afirma ser essa a razão da vingança do ex-presidente da Câmara. As gravações mostram, ainda, o presidente do Senado, Renan Calheiros, revelando com grande ênfase a ira dos ministros do Supremo Tribunal Federal com a presidenta.

A crença na independência do Judiciário, cantada em verso e prosa, fica absolutamente abalada e carente de explicações, quando o ex-presidente Sarney promete a Sérgio Machado que, sem advogado, não o deixará cair nas mãos de Sérgio Moro. As cartas da operação Lava-Jato são dadas pelos mais corruptos políticos?

As gravações “acusam” Dilma, sobretudo, de ter “deixado” as investigações da Lava-Jato se aprofundarem demais. Sarney e Machado, na gravação divulgada em 25/05, concordam que Dilma não se “solidarizou” nem com Lula. As revelações da investigação atingiram fortemente o Partido dos Trabalhadores e a base de sustentação do governo e trouxeram à luz esquemas de corrupção que, de fato, viscejaram nos governos petistas. A grande imprensa e a oposição foram extremamente eficientes em criar a impressão de que havia corruptos apenas no Partido dos Trabalhadores. Aproveitaram-se da imagem já arranhada do partido por conta do mensalão.

Vamos montar o mosaico?

Dilma foi reeleita. A campanha sistemática dos meios de comunicação tradicionais mobilizou grande parte da classe média e elites econômica e política na oposição a ela. Ela tentou um programa econômico conciliador, mas perdeu apoio de quem a elegeu, sem conseguir novos apoios. Nenhuma medida que enviou ao Congresso, para fazer frente à crise econômica, foi aprovada. Sem holofotes, políticos e empresários investigados ou temerosos com as investigações tramaram sua queda. Contavam com a ira do Judiciário contra ela. “Não tem nenhuma saída para ela”, profetizou Sarney para o delator Sérgio Machado.

Não contavam, no entanto que, mesmo com críticas profundas ao Partido dos Trabalhadores, diversos setores perceberíamos o golpe. Percebemos a seletividade e a morosidade suspeitas do Judiciário, percebemos o rancor que Dilma gerou nos políticos por não impedir as investigações, percebemos o enfurecimento da elite econômica e da classe média por garantir direitos sociais aos mais pobres, percebemos quantos investigados compõem o governo interino, percebemos que a democracia está suspensa. Percebemos, com os primeiros atos do governo interino, que conquistas importantes na renda dos mais pobres, na habitação, na cultura, na saúde, na educação, estão sendo destruidas.

Percebemos o golpe e decidimos enfrentá-lo. Não tem mesmo saída para ela?

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