O roubo de comida, em lugar algum do mundo, deveria ser crime. Porque “crime” é não ter o que comer…

SOBRE A FOME, O BOPE, A ABOLIÇÃO E O PATRIARCADO.

SOBRE A FOME, O BOPE, A ABOLIÇÃO E O PATRIARCADO.

Eu acabei de assistir um infeliz vídeo, que eu me recuso a compartilhar, apesar de desejar esfregar em algumas fuças. Onde uma mulher preta/favelada, depois de um roubo frustrado a um supermercado, em Madureira, é surrada por dois cruéis seguranças; ambos também negros e, dada a condição socioeconômica da classe, possivelmente periféricos.

Hoje, aqui em minha comunidade, eu tive o desprazer de cruzar algumas vezes com comboios policiais. O BOPE, desde cedo, realiza operações por aqui. Contei, em meio aos mais de 30 homens que vi, 5 policiais brancos.

Comboios que foram os responsáveis por impedir o livre trânsito de uma comunidade com mais de 50 mil moradores. E em uma atitude insana, mas arquitetada, transformaram uma creche lotada de crianças, famílias e trabalhadores, em “base estendida”.

O que isso significa afinal?

Significa que diante do programa histórico restou ao povo pobre, majoritariamente negro, pouquíssimas escolhas. No caso primeiro, eu sinto também a estrutura patriarcal, a misoginia de cada dia.

Afinal, são dois homens e, independente da etnia, surrando e humilhando uma mulher com a intenção de ensiná-la uma “lição”. Somente um “macho” seria capaz de fazê-lo, porque em nossa estrutura de poder, é o homem o detentor de todos os valores, direitos e privilégios… poder este que mora em nossas másculas entranhas, debaixo das nossas unhas engraxadas, que autoriza e justifica a violência. Sobretudo contra as mulheres.

Grande parte da sociedade aprova e bate palmas, principalmente quando sente a “justiça” sendo feita. Mesmo que para praticá-la, a justiça, algumas injustiças sejam cometidas no caminho. Faz parte da dose homeopática de hipocrisia embebedada por todos nós/todas as manhãs. O resultado de um programa alienante, também católico, que visa há séculos desumanizar determinados grupos de sujeitos.

Longe de ousar escrever sobre o que desconheço, principalmente a respeito da dor de ser mulher, reflito sobre a implícita questão racial em ambos os casos. Retorno então:

restou ao povo pobre, majoritariamente negro, pouquíssimas escolhas após a abolição. Apesar de repetitivo, eu não posso deixar de dizer. O povo negro, solto à deriva, com uma carta debaixo dos braços, seguiu com uma mão na frente e outra atrás:

Sem qualquer tostão.
Impedidos de comprar qualquer terra.
Impossibilitados de conquistar qualquer condição digna.

Mais uma vez, “obrigados” a permanecerem em condições escravas e situações de permanente desigualdade. No Rio de Janeiro, mais especificamente, em 1904, após reforma urbana, os sujeitos em situação de desprivilegio, ou seja, ex-homens-escravizados, foram forçadamente empurrados aos morros e territórios afastados da “cidade”.

Assim nascem as favelas.
E, algumas décadas depois, cá estamos.

Um punhado de fakes-políticas-públicas não foram, obviamente, ainda suficientes para um processo de integração dos negros à sociedade. Por isso, permanentemente à margem.

Quando observo sujeitos negros violentando outros sujeitos negros, principalmente lotados na condição de “agentes da lei”, apenas um pensamento vem em minha mente: a permanência da posição do “Capitão do Mato” em nossa ‘tosca’ sociedade.

Naquela época, como agora, trata-se da adoção do discurso do homem branco e o desespero por uma vida, mesmo que dolorosa, mais digna. Não por acaso, desde pelo menos a “Guerra do Paraguai”, temos o registro do USO de escravos como linha de frente do exército brasileiro.

Ainda hoje, seguem sendo os negros, sobretudo homens pobres, as buchas do estado. Realizam aquilo que homens brancos, sobretudo de colarinhos impecáveis, não são capazes de realizar atrás de suas mesas bacanas.

A verdade é que o programa foi construído de modo que não sejamos capazes de identificar o verdadeiro “inimigo”. Porque não moram nas favelas, os grandes senhores do crime. Como também não está, em uma mulher preta e favelada, ao roubar comida, a desgraça do mundo.

Muito pelo contrário, o erro ainda está no projeto desigual do estado e da sua estrutura capitalista-racista, que impede uma vida digna para os sujeitos historicamente à margem e ainda colocam os grupos minoritários em situação de desprivilegio perante estruturas de poder opressoras.

Por fim, o roubo de comida, em lugar algum do mundo, deveria ser crime. Porque “crime” é não ter o que comer…

Por Jota Marques para o Jornalistas Livres

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