“Rigged”: A mídia e Hollywood estão ajudando ou atrapalhando Donald Trump?

Por Caio Coletti, especial para os Jornalistas Livres.

Colagem de Joana Brasileiro sobre imagens de divulgação.

A eleição norte-americana para a presidência é no próximo dia 08 de novembro (na terça-feira mesmo – ao contrário de nós, eles não têm costume de marcar aos domingos). A uma semana da votação, a candidata democrata Hillary Clinton tem mais chance de ficar com a Casa Branca pelos próximos quatro anos, com uma vantagem de quase 7 pontos percentuais nas pesquisas sobre seu adversário, o republicano Donald Trump (números do The New York Times).

A campanha americana foi marcada por momentos inéditos na história da política do país, e não de uma forma positiva. Trump, um empresário do ramo de hotéis que ficou famoso como apresentador do reality show O Aprendiz (refeito no Brasil por Roberto Justus), usou, alguns diriam espertamente, velhos chavões conservadores elevados à enésima potência, declarando guerra ao direito das mulheres ao aborto, ao direito dos casais LGBT à união civil, aos imigrantes mexicanos (que chamou de “estupradores” e “traficantes” em rede nacional) e, ultimamente, a todo o conceito da democracia americana.

Nas últimas semanas especialmente, conforme viu sua distância da adversária aumentar, Trump tem se dedicado a contestar o sistema eleitoral estadunidense, declarando que a eleição será “roubada” (“rigged”) de suas mãos. Na quinta-feira (20), ele admitiu para seus apoiadores em um comício que só vai aceitar como legítimo o resultado das eleições se ele, Trump, vencê-las. O candidato acusou a “mídia progressista”¹ de tentar puxar a sardinha para o lado de sua adversária.

Ele não está errado. Os canais jornalísticos dos EUA, gigantes como a CNN, a MSNBC e até a Fox News, tem tentado se manter neutros na batalha, apesar dessa última deixar escapar suas tendências republicanas de quando em quando. Outros veículos, no entanto, não precisam se dar ao luxo desse equilíbrio – os talk shows americanos tem uma cultura de progressismo que vem de muito antes da atual geração de apresentadores , mas a verdade é que os rapazes (e só uma mulher, e isso é um problema) da vez estão tendo um prato cheio com Donald Trump.

Colagens Joana Brasileiro sob imagens de divulgação.

Após anos comandando o The Daily Show, programa que começou como uma paródia de jornais diários e acabou como um humorístico com tons políticos, Jon Stewart se aposentou e deixou o posto para Trevor Noah – o novato demorou para encontrar sua voz, mas Trump o ajudou. Em sua oposição, ele diz o que os outros apresentadores de talk show só ensaiam dizer: se alguém está “roubando” as eleições de Donald Trump, não é a mídia, e sim ele mesmo. Em uma edição recente, Noah crava: “A mídia não é contra você, Donald, eles só gravam o que você diz”.

Melhor que ele, só mesmo a espetacular Samantha Bee, ex-repórter do The Daily Show que atualmente apresenta o Full Frontal na emissora cômica TBS. Entre todos os críticos de Trump, poucos parecem estar mais com Hillary Clinton do que Bee, que em uma edição recente citou os muitos escândalos, preconceitos e inadequações à presidência do republicano e as comparou com as acusações contra Hillary: ela usou um servidor privado de e-mail quando deveria estar entregando cópias das suas correspondências para o serviço secreto, e se encontrou a portas fechadas com banqueiros para dar discursos que provavam, sim, que ela é como qualquer político de grande porte, cheia de tratados escusos e problemáticos.

John Oliver tem endereçado a eleição com menos frequência em seu Last Week Tonight, na HBO, mas os malabarismos semânticos do apresentador fazem cada vez mais sentido, e são cada vez mais simbólicos da situação. Stephen Colbert encontra espaço para seu progressismo irônico de quando em quando no The Late Show, onde seu predecessor, o lendário Dave Letterman, não era exatamente conhecido pelos discursos políticos. Seth Meyers e seu Late Night encontraram um nicho perfeito para sua comédia de absurdismo na eleição americana.

Colagem Joana Brasileiro sob imagens de divulgação.

Imagens do The Saturday Night Live, com Alec Baldwin Emmy Kate McKinnon .

Ao afastar a mídia em seus discursos, Trump recebe apenas o tipo de exposição que não lhe é favorável – em programas satíricos nos quais se recusa a aparecer; em emissoras jornalísticas que, como bem apontou Trevor Noah, dão cada vez mais motivos para não votar em Trump simplesmente gravando o que ele diz; até no humorístico de esquetes Saturday Night Live, um dos grandes medalhões da TV americana (são 42 temporadas), o astro Alec Baldwin tira sarro do candidato, enquanto a recente ganhadora do Emmy Kate McKinnon se diverte ao interpretar Hillary.

Imagem animada de cena de Stephen Colbert no The Late Show.

A escolha que o eleitorado americano enfrenta não é difícil – é complexa em seus compromissos morais, mas em perspectiva, é até fácil. A ideia de “o menor de dois males” parece uma posição perigosa de se assumir na política, mas quando um sistema de dois grandes partidos não deixa absolutamente nenhuma chance para candidatos independentes (e eles, nesse caso, não são bons o bastante tampouco), a questão é escolher entre uma servidora pública falha e um oportunista misógino, racista, homofóbico e absolutamente irresponsável. Os oito anos do presidente Obama certamente vão fazer falta.

O papel da comédia, da ficção e da mídia em geral é interpretar o mundo real e significa-lo de uma forma que cause reflexão. Propositalmente ou não, os talk shows estadunidenses fazem exatamente isso – proveem, ao apontar o absurdo cômico (se não fosse trágico) do que Donald Trump diz, uma ótima razão para aceitar Hillary Clinton como presidente dos EUA. Não se preocupem: em 2020, quem sabe, podemos torcer por Michelle Obama.

¹ Nos EUA, usa-se a palavra “liberal” para descrever o partido democrata, muito embora seja mais prudente, talvez, usar o termo “progressista” em português. Veículos como o New York Times, que são mais “alinhados” ao pensamento democrata, são portanto chamados de “mídia progressista”.

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