PM censura manifestações contra Bolsonaro durante Carnaval de Belo Horizonte

Oficial acusou foliões de fazerem "estímulo à violência" ao repudiarem Bolsonaro.

Fotografia do Carnaval 2018 de Belo Horizonte. Por Maxwell Vilela/ Jornalistas Livres

O Carnaval de Belo Horizonte abriu com uma tentativa de censura por parte da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). O capitão Lisandro Sodré, do 13º Batalhão, ameaçou abandonar o policiamento do Desfile do Bloco Tchanzinho da Zona Norte após um dos vocalistas puxar um canto de repúdio a Jair Bolsonaro (PSL) e de apoio ao ex-presidente Lula.

O portal de notícias BHAZ registrou o grito puxado por um dos vocalistas do Tchanzinho da Zona Norte.

 

Dezenas de milhares de pessoas acompanhavam o cortejo do bloco, que desfilava  pela avenida Sebastião de Brito, no bairro Dona Clara, na região da Pampulha. O evento transcorria normalmente até cerca das 20 horas, quando um dos cantores clamou “Bolsonaro é o cara*** e Lula Livre”. Após a manifestação, Sodré subiu no trilho elétrico do bloco e afirmou que ia abandonar a segurança da festa caso o grito se repetisse.  “Ele falou que se a gente continuasse, ele iria embora.” declarou Laila Heringer, uma das organizadoras do Tchanzinho, à Rádio Itatiaia:

“A gente se sentiu intimidado com relação à nossa liberdade de expressão. Nós também nos preocupamos com a segurança de todas essas pessoas que vieram fazer essa festa linda e estão curtindo em paz. E a gente está sendo censurado? Eu não estou entendo o que está acontecendo”

Também a rádio Itatiaia, o major Sérgio Dias, comandante da 16ª companhia do 13º batalhão da PM, sugeriu que os cantores do trio elétrico fizeram um “estímulo a violência” ao criticar Bolsonaro:  “Todos nós acompanhamos as eleições no ano passado e como o clima ficou acirrado, como ficou polarizado. Isso não pode ser transportado para um evento carnavalesco. Essa foi a orientação.”

O porta-voz da Polícia Militar, Major Flávio Santiago, admitiu para o portal BHAZ que a polícia vai agir para “coibir manifestações políticas” no Carnaval. “É um ambiente em que não há previsão de manifestações políticas. Como pode haver divergências de opiniões, em um ambiente com muitas pessoas, pode haver uma perda de controle, prejudicando a segurança, podendo provocar até uma briga generalizada, com necessidade de uso de instrumento de menor potencial ofensivo”, afirmou o major.

Se o objetivo era evitar violência, o resultado foi o oposto. Sentindo-se autorizados pela polícia, vários LGBTfóbicos começaram a agredir parte do público. Logo após a intervenção do policial Lissandro, um homossexual foi agredido a socos após ser chamado de “viado”. O conflito foi tanto que o desfile teve que terminar mais cedo que o previsto, explica o bloco Tchanzinho da Zona Norte em nota publicada na tarde de sábado (02/03):

“atitudes como a do capitão Lisandro Sodré, ao contrário de estimular uma convivência pacífica entre pessoas de posicionamentos políticos divergentes (como sempre ocorreu em nossos desfiles), se presta à incitação de atos de intolerância por parte de foliãs e foliões, que se vêem legitimado por atitudes de semelhante intolerância vindas de uma instituição pública de tamanha importância, como é o caso da Política Militar.”

No texto, o bloco reforçou o caráter político da festa e afirmou que pedirá aos orgãos públicos competentes, como a Corregedoria da PM e o Ministério Público, se expressem e tomem medidas cabíveis.

O Carnaval é político

Ao contrário do que dizem os militares, o Carnaval em Belo Horizonte é tradicionalmente um evento político. Hoje com um público estimado de 4,6 milhões e com mais de 600 cortejos de rua, o feriado na capital mineira é uma das maiores festas do Brasil. No entanto, ele se distingue por ter surgido e crescido justamente devido a uma década de manifestações populares. Organizadas por diferentes movimentos urbanos, essas manifestações apelavam para a estética carnavalesca como forma de mobilizar a população e reivindicar diversas demandas sociais. Foram justamente nesses atos políticos que muitos dos blocos atuais foram formados, alguns como o Alô Abacaxi e Angola Janga compostos justamente para defender direitos dos negros, das mulheres e dos LGBTs. Mesmo após se tornar massivo, manifestações, performances e gritos políticos são e sempre foram de praxe durante o evento.

Para mais detalhes sobre o resgate do Carnaval de Belo Horizonte pelos movimentos de rua, clique aqui.

*Reportagem original foi revista às 14:01 do 2 de março de 2019 para acrescentar o posicionamento oficial do Bloco Tchanzinho da Zona Norte.

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