Zona da Mata de Pernambuco depois da enchente

por Rodrigo Pires, especial para Jornalistas Livres de Recife

Fotos: Sergio Gaspar e Eduardo Nascimento

Há sete anos a região da Mata Sul, em Pernambuco, ficou literalmente debaixo de água. Grande parte da população da região ficou sem ter onde morar, em algumas cidades nem hospitais e prefeituras sobraram de pé. Foram 14 municípios atingidos, totalizando 47 mortes e 80 mil desabrigados. Em maio deste ano a catástrofe anunciada se repetiu, com 50 mil desalojados em 31 cidade do estado.

O Governo de Pernambuco, ainda em 2010, anunciou a construção de cinco barragens para contenção de águas dos rios da região – Serro Azul, Panelas, Gatos, Barra de Guabiraba, Igarapeba. O projeto foi avaliado em R$ 500 milhões e anunciado para ser entregue em 2013. Até o momento nenhuma foi concluída e apenas Serro Azul está com mais de 50% das obras finalizadas.

Infelizmente as enchentes não são novidade para os moradores da região – em um trabalho apresentado em 2016 sobre a construção das barragens, a engenheira civil, Fabiola de Souza documenta que “ o número de desastres causados por enchentes e deslizamentos ocorridos no Brasil nas décadas de 80 e 90 duplicou quando comparados com os mesmos números destes tipos de desastres ocorridos nas décadas de 60 e 70. No estado de Pernambuco houve 59 registros oficiais de inundação excepcionais caracterizadas como desastres, entre os anos de 1991 e 2012”

A verdade é que as cidades sofrem todo ano com as águas. Barreiros é uma das cidades mais afetadas, o rio Una corta a cidade e quando chega a época de chuvas a população reza para o nível não subir e invadir as casas, quando sobe, a saída é correr para a parte mais alta da cidade. Ceiça Silva conta que na enchente de 2010 perdeu tudo o que tinha dentro de casa: “A água chegou no primeiro andar de nossa casa, nem subir pra lá podíamos porque lá a água ainda chegou a subir até no meio da canela”.

Tibiri, bairro de Barreiros onde mora Dona Ceiça, tem duas ligações por terra com o centro de Barreiros. Uma delas, destruída na enxurrada de 2010, deu lugar a uma rua de concreto; a outra via, de terra, foi levada pelo rio neste ano. Marcelo Mastroiane, morador local, afirma que a passagem ainda oferece perigo: “Vejam que estado deixaram essa barreira, as crianças passam aqui para ir a escola, nem uma grade de proteção a prefeitura coloca, nem um aviso, nem nada”. Ao mesmo tempo, vemos um homem com um enxada abrindo caminho no meio do barro, colocando pedras e improvisando um corrimão. O voluntário é Erivaldo José, que de tanto ver as crianças se arriscando ao irem pra escola decidiu fazer alguma coisa, “tava muito difícil para os alunos subirem, se for esperar o poder público…”.

Relatos como esse são a regra dentre a população do bairro. José Edson da Silva, cortador de cana, está reformando sua casa depois da água ter invadido seu quintal e ter levado todos os pés de frutas que ele cultivava. Ele conta que em 2010 a água cobriu a casa e levou um pedaço do chão, mas que agora em 2017 “cobriu apenas um palmo da casa, mas pra previnir, tirei tudo da casa, só deixei o que não dava mesmo pra tirar. Quando começa a chover, não dá pra ficar sossegado, pego meu filho e corro pra casa da minha mãe”. Já saíamos da casa de Edson e Juan quando um saco de livros entre o telhado sem forro e a parede nos chamou atenção, perguntei a Edson o motivo daqueles livros estarem ali, ele respondeu, apontando para seu filho: “esse aí tomou gosto por estudar, até já escreve o próprio nome, por isso guardei os livros em um local que a água não ia chegar.”

OS DESABRIGADOS

No abrigo improvisado pela prefeitura – uma pequena quadra de futebol coberta da Escola Técnica Agrária – mais de 40 famílias se amontoam entre os poucos pertences que conseguiram salvar da enchente. Por coincidência a nossa visita aconteceu ao mesmo tempo que a do vice-prefeito Thomaz “Baleia” Buarque, que distribuía pirulitos e balas para os desabrigados. Perguntei às pessoas se aquela era uma cena comum, a resposta foi coletiva: “estão aqui só porque vocês estão na cidade, mas vivemos no abandono”. Diversas famílias reclamaram de falta de comida e de atendimento médico, mal estado dos banheiros e uma promessa nunca cumprida de moradia.

O pessimismo dos desabrigados contrastava com o otimismo de Thomaz defendendo a barragem que existe mas não foi inaugurada. Perguntei sobre as outras 4 barragens prometidas pelo falecido governador Eduardo Campos, ele desconversou e disse que a prefeitura está construído 105 casas para os desabrigados e garantiu que serão entregues dentro de um mês.

Ainda deu tempo para o vice-prefeito me confidenciar ao pé do ouvido: “veja bem, entregar casas é muito complicado sabe, porque muita gente volta pra casa que a água invadiu, conserta tudo e aluga, porque a prefeitura já está dando outra casa, termina ficando com duas casas!” Depois dessa só me restou responder: “vou aqui entrevistar os desabrigados, boa tarde”.

De todas as comoventes histórias, uma nos chamou muita atenção, uma senhora, Dona Maria José de Souza e seu marido, Admário de Oliveira, perderam duas casas com a enchente – uma em 2010 e outra em 2017. A primeira foi levada pela enxurrada, junto com o Hospital Público. Neste ano uma barreira próxima à casa deles caiu e derrubou a casa, todos os seis filhos estavam na escola, “só um, o menor, estava com a gente em casa, escutei o estalo e corremos pra fora de casa, por pouco a parede da casa não cai em cima da gente”.

Para ajudar os desabrigados, alguns locais em Recife estão recebendo as doações. Alimentos, água, produtos de higiene e roupas, podem ser entregues nos quartéis da Policia Militar e dos Bombeiros:

  • Quartel do Comando Geral da Polícia Militar, no bairro do Derby, em Recife.
  • Quartel do Corpo de Bombeiros de Pernambuco – Avenida João de Barros, 399 – Soledade

Os Jornalistas Livres agradecem o apoio logístico do SIMPERE – Sindicato Municipal dos Professores da Rede Oficial do Recife.

 

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