Paulo

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Morre-se um pouco todo dia e todo dia muitos morrem de fato. Com Paulo Nogueira-Neto não seria diferente, em seus 96 anos de vida.

Acabou.

Falo de Paulo porque, quando criança, via nos jornais impressos a cara dele, falando dentro do governo militar a palavra ecologia, descoberta minha à época. E Amazônia, e floresta, e preservação falava ele, cortejando-me novos vocábulos.

Em 1978  lhe escrevi uma carta, ao Secretário Especial do Meio Ambiente durante o regime militar. Romântico, eu fazia meu primeiro gesto de rebelião, provavelmente desenhei  algumas borboletas no papel de carta, contra o Projeto Jari, empreendimento econômico privado, do empresário norte-americano Daniel Keith Ludwig, na região amazônica. O Jari era um complexo econômico de grandes dimensões, envolvendo atividades industriais, agrícolas e de extração mineral e vegetal.  Meu pai me repreendeu, pois era governo militar, mas o correio era próximo de casa e aprendi que bastava por um selo no envelope e as palavras viajavam.

Paulo respondeu, pura atenção.

Hoje, 40 anos depois da resposta missiva, vejo que Paulo não venceu a batalha, pois o meio ambiente anda revirado e os demônios estão mais fortes do que nunca na Amazônia. Mas é dele uma vitória, mostrou a toda uma geração sob os coturnos que preservação ambiental era palavra fundamental. O ambientalista dizia que as abelhas merecem todo nosso respeito e que nenhuma abundância de recursos resiste ao impacto de uma exploração sem retorno.

Faz-se um minuto de silêncio nas florestas, as águas ficam serenas em despedida, os ventos sopram um luto, sabiás gorjeiam.

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crônica
Um comentário
  • Marcia Gatto
    27 fevereiro 2019 at 15:44
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    Merece respeito todo aquele que defende o meio-ambiente. ✊🤝🌹🌳

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