Paternidade no Brasil: temos o que comemorar?

Estatísticas apontam que mulheres ainda utilizam o dobro do tempo que os homens com a casa e a família, além de milhares delas terem filhos sem o registro legal do pai.

Um homem com outro compromisso conjugal e uma carreira profissional estável engravida uma jovem. Qual a chance dessa família de se estruturar da maneira adequada para receber a criança? Não sabemos ao certo, mas para o Moisés Prado, hoje com 28 anos, foi inexistente. Sem conhecer o pai e com uma infância “um pouco sofrida”, como ele descreve, teve que buscar, ao longo dos anos, construir a própria identidade.

Foto: Kyane Sutelo Pinto.

É consenso que “a criança, para o desenvolvimento harmonioso da sua personalidade, deve crescer num ambiente familiar”, conforme o próprio preâmbulo da Convenção Sobre os Direitos das Crianças da ONU. Porém, a desestruturação das famílias antes mesmo do nascimento do filho, como ocorreu com Moisés, é algo comum, principalmente quando se fala em abandono paterno.

Os estudos sobre a importância da figura paterna ainda são escassos. De acordo com o primeiro relatório A Situação da Paternidade no Brasil, lançado pelo Instituto Promundo-Brasil e parceiros, em novembro de 2016, há evidências sobre o impacto positivo do envolvimento do homem com a família, porém os dados ainda são insuficientes. Um dos últimos levantamentos sobre abandono paterno, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça, em 2012, constatou que mais de 5 milhões de estudantes brasileiros não levam o nome do pai no documento de identidade. Imagine quase 60 Maracanãs lotados, apenas de jovens sem registro legal de paternidade.

 

A figura paterna

Moisés não faz parte da estatística acima. Apesar da ausência do pai, a lacuna nos documentos legais foi preenchida pelo nome do avô. “No começo ele não queria porque julgava errada a atitude da minha mãe biológica (sua filha). Mas minha mãe-avó convenceu ele”, relata o jovem, acolhido e registrado pelo casal de avós maternos.

Moisés com a esposa Renata no parto da primeira filha. Foto: arquivo pessoal.

No entanto, a relação de paternidade foi rompida novamente com o falecimento do avô. O menino, na época com 7 anos, viu no irmão adotivo mais velho a figura paterna. Esse comportamento é comum e, segundo a psicóloga Ana Claudia Mattos Piazza, surge de uma cultura social em que a imagem do pai ainda é considerada essencial. “Existem protocolos sociais, documentos, datas comemorativas que destacam o pai, nossa cultura é permeada por isso”, avalia a especialista. Pesquisadora do tema há mais de 15 anos, a socióloga e filósofa, Ana Liési Thurler, autora do livro Em Nome da Mãe – O Não Reconhecimento Paterno no Brasil, concorda com a psicóloga e complementa que o cenário político influencia muito nesse quesito. “Temos ainda uma sociedade gerida por homens brancos, que inclusive deliberam e aprovam leis destituindo direitos conquistados pelas mulheres”, ressalta a socióloga e complementa. “Está aí a força e a fraqueza da figura paterna em nossa sociedade”.

O efeito do comportamento negativo paterno afeta muito o filho, ainda que por vezes não pareça. Ana Piazza explica que para o psicológico infantil é danoso pensar no abandono. “Acaba mantendo muito mais ativadas na criança algumas emoções como o medo, a tristeza, a insegurança e a raiva”, aponta a psicóloga. Moisés sentiu na pele a situação descrita pela profissional. Quando descobriu os detalhes sobre o seu nascimento, conta que se revoltou com a mãe biológica. “Meu mundo veio abaixo”, lembra ele.

 

A mãe protagonista e o pai coadjuvante

O início do processo de aceitação da própria história, para Moisés, foi motivado pela atuação da figura materna em sua casa. “Tive uma base familiar de muito amor e carinho por parte de minha mãe-avó”, destaca o jovem. E seu caso não é o único. Apesar de uma série de 3 cartilhas sobre os cuidados com a criança, desenvolvida pela Unicef, defender que “Pai e mãe devem cuidar do bebê”, infelizmente isso está longe do praticado pela nossa sociedade.

Em todo o mundo, as mulheres e meninas realizam “pelo menos duas e meia vezes mais cuidados não remunerados e trabalho doméstico do que homens e meninos”, de acordo com a publicação internacional do MenCare Advocacy, State of the World’s Fathers. Esse dado comprova que, mesmo com o crescimento da presença feminina no mercado de trabalho (40% da força de trabalho formal global), o caminho inverso, do homem fazendo a sua parte no cuidado da casa e dos filhos, não ocorre com a mesma intensidade.

Foto: Kyane Sutelo Pinto.

O comportamento da sociedade exemplifica de forma muito clara esses índices. Nos últimos meses, as redes sociais chegaram a definir o ator e apresentador Rodrigo Hilbert como um super-herói, por ter demonstrado que, além dos dotes culinários exibidos em seu programa, também cuida da casa e dos filhos.  Definição que não costuma ser aplicada às mulheres que fazem exatamente o mesmo. Para a psicóloga Ana Piazza, isso é fruto do preconceito que está “impregnado” em nossa sociedade e que atribui à mulher, como único papel, a maternidade. A profissional afirma que, frente ao psicológico social, os homens ocupam um papel coadjuvante nesse sentido, o do pai que ‘ajuda’.

Moisés teve diversos pais em sua trajetória: o biológico, que ele só veio a conhecer aos 21 anos e não quis manter contato; o adotivo, que foi o próprio avô; e o irmão mais velho, que, ainda adolescente, ajudou em sua criação. De fato, nenhum se pareceu com o personagem endeusado pela internet, mas fizeram parte da construção de sua identidade. Hoje, a figura paterna se apresenta de outra forma em seu dia a dia: ele é pai de duas meninas, de 4 e 2 anos. Longe de almejar ser um ícone familiar nacional, como Rodrigo Hilbert, Moisés deseja apenas estar sempre junto delas e deixar para trás o fantasma do abandono. “Sempre digo pra minha esposa: vou pra debaixo da ponte, mas levo elas. Não dou. Pois é melhor sofrer, mas saber que ficamos unidos”, garante ele.

Paternidade : como evoluir?

Moisés batalhou sozinho para entender a importância da figura paterna e se tornar um pai e marido presente, mesmo sem um exemplo por perto. Porém, para que essa realidade mude, é preciso um trabalho conjunto entre Estado e sociedade. O Instituto Promundo-Brasil, em seu relatório sobre a paternidade, apontou 10 recomendações (infográfico abaixo) para incentivar que o envolvimento dos homens no cuidado diário das crianças torne-se uma prioridade no País.

Para a socióloga e filósofa Ana Liési Thurler, o processo de abrandamento da figura paterna como conhecemos é “rico, complexo, intenso e lento”. Porém, a professora acredita que a mobilização que tem havido nas últimas décadas em torno dessas questões e as novas configurações de família “monoparentais, homoconjugalidades e homoparentalidades, assim como, heteroconjugalidades e heteroparentalidades”, ajudaram a consolidar uma nova imagem de “masculinidades plurais”.

Coordenadora da área de Paternidade e Cuidado no Instituto Promundo-Brasil, Milena do Carmo conta que o Instituto trabalha buscando disseminar práticas positivas em relação ao homem como pai. Além do incentivo de novas leis de equidade de gênero, são realizadas ações de sensibilização e capacitação de profissionais de saúde para que possam incluir os homens no pré-natal, por exemplo.

Esse tipo de estímulo torna-se crucial para construir uma nova realidade, em função da importância de que o pai assuma seu papel de cuidador. “A paternidade significa ser responsável por uma nova vida, no sentido mais amplo da expressão responsabilidade. Ser pai passa principalmente por escolher-se na paternidade, pois essa relação se constrói em cada gesto”, enfatiza a psicóloga Ana Piazza. A escolha de Moisés foi feita. Optou por participar da formação e do desenvolvimento de suas filhas. No entanto, cabe a cada um assumir seu papel de responsabilidade social e de quebra de preconceitos, para que ele não seja apenas um único exemplo de história com final feliz em meio aos 207,7 milhões de brasileiros.

 

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