O vírus permite mais que derrubar Bolsonaro, é hora de avançar para um modelo societário sadio

Meninos Pulando Carniça, Cândido Portinari

Shakespeare disse em Rei Lear que “as criaturas perversas nos parecem agradáveis quando encontramos outras mais perversas” e prosseguiu “não ser o pior já é uma qualidade e merece elogio”. Se vivesse hoje no Brasil, creio que o grande dramaturgo inglês não manteria a segunda parte desta sentença. Doria, Caiado, Witzel, Acm Neto e todo uma leva de velhacos da direita não merecem nenhum elogio por não tomarem o papel de insanos no drama que já estamos a viver.

Não se deve compará-los com Bolsonaro e seria mesmo difícil saber quem é mais perverso nessa história, não apenas nesse momento da trama. A perversidade do miliciano é franca. Já esta turma que colaborou firmemente para o eleger, se não é maníaca, é pérfida e venenosa.

Ademais, este é momento de fazer política sim! Em sociedades minimante complexas não existe praticamente nenhum aspecto da vida que possa ser despolitizado e definitivamente este não seria este o caso. Há que se politizar o momento. Começando por denunciar outra vez todo o recente desmonte dos serviços públicos, do comum, que aqui aliás nunca esteve perto de ser razoável. Resgatar velhas e tecer novas bandeiras em favor de uma perspectiva de pacto societário justo e inclusivo.

Todo o desmonte que vimos ocorrer, desde a demolição das leis de proteção aos trabalhadores à erosão do sistema de assistência social e de aposentadorias, foi patrocinado, apoiado e chancelado por esta turma. É esta sua agenda e é com mais este atual estrago que o coronavírus e seus desdobramentos nos encontra. Na saúde, que já sofre os impactos da Emenda Constitucional do Fim do Mundo (EC 241|55) isso será sentido de modo exemplar.

Porém não somente para aí devemos apontar a falta que faz um pacto societário minimante decente. Temos um passivo histórico de desenvolvimento social/humano monstruoso. Algo que a estrutura urbana de concentração fundiária, que acarretou em favelas miseráveis, exemplifica de modo indiscutível para quem ainda enxerga o que nunca pode ser naturalizado. Muitas dessas aglomerações, que se apinam em nossas principais metrópoles, não contam sequer com estrutura sanitária. Não é preciso ser vidente para saber que elas serão duramente atingidas e a fatura mais alta será paga pelos pobres.

Além disso, não investimos em educação cidadã, que é muito diferente de ensino para tarefas e práticas profissionais; temos um déficit de médicos em nome da reserva de mercado para uma categoria empedernida e, com a demanda internacional a todo vapor, faltarão insumos hospitalares por ausência de uma política industrial soberana. Alinhado a isso não temos investido em desenvolvimento científico de maneira pujante e necessária. A lista dos gargalos é enorme.

É preciso encarar tudo isso de frente e abandonar a negação e o recalque! Não se trata de ser apocalíptico, porém não cola este otimismo ingênuo que mascara a realidade e crê que orações e vibrações positivas em casa vão ajudar a que tudo fique bem. Não vamos sair impunes de nossa irresponsabilidade conjuntural e histórica.

No curto prazo, se devemos contar com algo em nosso socorro há de ser o espírito criativo e de ajuda mútua que ainda resta em nosso povo. Já a longo prazo, é preciso criar, fomentar, estimular e fazer pipocar uma série de movimentos de ação coletiva, dotados de grande articulação e que possam ir avançando na garantia de direitos comuns e de inclusão da massa de marginais e excluídos que vergonhosamente permitimos existir.

Avalio que esta é uma oportunidade para o futuro, não quer dizer que será aproveitada. Um episódio extraordinário que nos permite iniciar um acerto de contas mais decidido com nossa brutalidade estrutural. Claro, temos que sobreviver e sobreviver é lutar. Lutar não apenas contra um vírus, senão também contra vermes e parasitas, contra aqueles que não querem ver emergir políticas em favor de uma sociedade solidária e farão de tudo para manter estruturas mesquinhas, mesmo que não sejam completos genocidas.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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