O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração

Roda Viva

O elenco principal da peça é formado por Roderick Himeros, Camila Mota, Guilherme Calzavara, Joana Medeiros, Marcelo Drummond e Vera Barreto Leite; e o coro antropofágico, por Cafira Zoé, Carol Castanho, Clarisse Johansson, Cyro Morais, Danielle Rosa, Fernanda Taddei, Isabela Mariotto, Kael Studart, Kelly Campello, Lucas Andrade, Marcella Maia, Marcelo Dalourzi, Mayara Baptista, Nash Laila, Nolram Rocha, Sylvia Prado, Tony Reis, Tulio Starling, Viviane Clara e Zé Ed. Já a banda conta com a participação de Amanda Ferraresi (violoncelo), André Santana (bateria), Carina Iglecias (percussão), Felipe Botelho (baixo), Giuliano Ferrari (piano), Ito Alves (percussão) e Moita Mattos (guitarra).

A fina flor do elenco em cena, no Teatro Oficina, em montagem de Roda Viva, traz uma sensação curiosa de alma lavada quando finda o espetáculo. É noite de chuva na metrópole e os atores exalam um aroma da legítima balbúrdia, uma poética de tons, dicções e enredo do caos. A origem, apogeu e decadência do mito.

As portas de ferro do teatro fecham-se entre os andaimes do bunker da razão, uma ópera de Villa-Lobos inicia o espetáculo entre cenas trágicas do assassinato da mãe terra, projetadas nas paredes encantadas de Lina Bo Bardi, um grito da nação que exaspera. 

Zé Celso ordena:

– Levantem, o anjo irá descer!

E desce dos céus, negro como a noite, tocando sua trombeta, dando fluxo aos fatos, uma digestão de público , atores inquietos e músicos viscerais, uma epopeia da perfídia do poder. É uma oficina de seres, o confronto e acordos entre o anjo e o chifrudo, o astro presidente da nação que ilude a todos, e sucumbi ao ter o fígado devorado.

Os artifícios de Deus e o diabo.  A ascensão e queda de Benedito Silva, lampião, convertido num astro pop, Ben Silver,  após negociar sua alma com o capitalismo.

Damares, a tresloucada, Tereza Cristina, a menina veneno, e a insana Ysani Kalapalo, nenhuma mulher nesse desgoverno cênico escapa incólume. A televisão, o WhatsApp, as fake news, o caráter; tudo corrompe o mito.

As máscaras caem. O tirano e seu ministério estão condenados ao fracasso, há insurreição, o rei está nu. O povo tem fome de fígado, repartido cru, em forte e silenciosa cena, ao fim do espetáculo.

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José Celso Martinez Corrêa e o  Teatro Oficina Uzyna Uzona promovem um êxtase das emoções inconformadas, em tempos de barbáries contra a cultura e meio ambiente.

Se distribuem flores ao final do espetáculo e conduzem o público à saída, convidando e acolhendo todos a uma retirada e recomeço, é resistência o rumo que indicam.

Oficina, tecelagem, borracharia, olaria de ideias, usina. A árvore vistosa, a cisalpina plantada por Lina Bo, visão que invade o teatro, a grande subversão indica.

*imagens por Helio Carlos de Mello©

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