“O Levante”, por Dirce Waltrick do Amarante

[...] enquanto caminhava pelo calçadão de Lontras, no interior de Santa Catarina, e ouvia o burburinho das ruas, que, aliás, não soava revolta, mas excitação com a abertura da nova loja Havan na cidade.

"Operários". de Tarsila do Amaral.

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Fim do expediente e fui ler os jornais. Para quê?  Só li disparates, absurdos! “E a reforma da Previdência? Ninguém faz nada?”, me perguntava, enquanto caminhava pelo calçadão de Lontras, no interior de Santa Catarina, e ouvia o burburinho das ruas, que, aliás, não soava revolta, mas excitação com a abertura da nova loja Havan na cidade.

Minha indignação cresceu e, quando estava a ponto de explodir, vi em uma televisão exposta na vitrine das Casas Bahia uma multidão nas ruas protestando. Não consegui divisar bem em qual cidade acontecia aquela manifestação, mas era um monte de gente e, apesar das forças armadas, o povo gritava e lutava. De repente minha esperança renasceu. O povo não era tão pacífico e abobalhado quanto eu pensava. Seja lá em que lugar do Brasil fosse aquela manifestação, era para lá que eu iria.

Fui para casa vestir minha roupa de guerra (camiseta e calças pretas), liguei a televisão para acompanhar o levante, que, para a minha decepção, era no Chile!!!! “Como?”, me perguntei, “Ué, e aqui??”.

Mudei de canal, outra manifestação, a esperança nem teve tempo de ressurgir, era no Líbano! O fato é que todos os canais de TV mostravam manifestações diferentes: uma em Londres, outra na Bolívia, outra no Uruguai, uma pequena mas impactante nos Estados Unidos, onde um monte de gente nua deitada em frente ao Trump Tower, em Nova York, escrevia com seus corpos a palavra IMPEACHEMENT… Mas nenhuma no Brasil!

“Não faz mal”, pensei. Sentei-me diante do computador, entrei no primeiro site de viagem e comprei uma passagem para Nova York com escala no Chile. Mataria dois coelhos de uma cajadada só. Uma viagem, duas manifestações. De Nova York, partiria para o Líbano, com escala em Londres. Assim abrandaria meu desejo de um levante popular e, quando retornasse ao Brasil (se retornasse), talvez me contentasse apenas com os festejos do Dia da Pátria por aqui.

*Professora do Curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina.

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