Navalha na carne negra: três escolas de teatro negro em cena

Por Cidinha da Silva

lustração/fotomontagem Joana Brasileiro Jornalistas Livres

No FIT – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto 2018, durante a mesa Vozes da Diáspora, uma das atividades formativas, argumentei que o teatro negro é uma vertente do teatro brasileiro que se apresentou dessa forma pela primeira vez no TEN – Teatro Experimental do Negro, na década de 1940. 

Esta experiência pioneira, liderada por Abdias Nascimento, na simplificação didática adotada por mim, propunha-se a criar uma estética negra e a encená-la, texto, atores, direção, corpo técnico, todos negros. A grande estudiosa da estética do TEN é a poeta e professora da UFMG, Leda Maria Martins, a quem podemos (devemos) consultar. Um dos resultados de sua pesquisa é o livro A cena em sombras (Perspectiva, 1995).

A estética do teatro negro contemporâneo, em larga medida tem-se se ancorado nos princípios da ancestralidade, mas não só. Há outras propostas cênicas que tratam do negro atual e seus dilemas urbanos e humanos, profundamente marcados pelo racismo; outras que experimentam formatos e linguagens mais subjetivas em contraponto àquelas mais panfletárias. Aliás, existe uma corrente reflexiva que defende o que é chamado de panfletário na dramaturgia negra, também como uma escolha estética legítima.

A experiência Fórum de Performance Negra – cultura sem racismo, iniciada na Bahia por Hilton Cobra e Luiza Bairros, em 2005, apontou caminhos para os coletivos de arte negra espalhados por todo o país. A princípio criaram-se Fóruns regionais e mais recentemente, a partir da IV edição, em 2015, as pessoas amadureceram a necessidade de constituir Fóruns permanentes de difusão e reflexão sobre as artes negras.

Nesse sentido, criaram-se a Segunda Preta, em Belo Horizonte, as Segundas Crespas, em São Paulo, e a Segunda Black, no Rio de Janeiro. Espaços que têm fomentado a exposição, circulação e crítica interna da arte negra, que têm nos permitido aferir como modelamos nossas próprias escolas estéticas, como construímos nossas tradições e como implementamos política cultural feita por nós, sobre nós e para nós.

Navalha na carne negra nos revela um pouco dessas escolas, nos mostra como vimos nos constituindo como atrizes, atores e técnicos negros formados pelos coletivos negros de teatro e habilitados a explorar a técnica forjada nesses espaços para executar qualquer cena, não só as cenas negras definidas como tais.

Esse espírito político-educador, encarnado por Rodrigo dos Santos, convocou Lucélia Sérgio e Raphael Garcia para emprestarem seus corpos negros aos personagens de Plínio Marcos, Neusa Sueli, uma prostituta, Veludo, o camareiro gay, e Vado, o cafetão. É provável que este mesmo espírito presente nos atores paulistas do elenco tenha convocado Isabel Praxedes, jovem negra, estudante de cinema, que faz um trabalho vibrante, no sentido de dar muito movimento à câmera, e ao mesmo tempo, diluí-lo, porque ela, a câmera-woman discreta, não puxa o foco para si.

Esse conhecido espírito político-educador, lá atrás, há mais de dez anos, levou a Cia Os Crespos a convocar o renomado professor negro do curso de Artes Cênicas da USP, José Fernando de Azevedo, a dirigir Ensaio sobre Carolina. Por essas razões, entre outras, dizemos que os princípios da ancestralidade ancoram o teatro negro brasileiro.

Outra ação que evidencia isso é a performance do experiente ator Rodrigo dos Santos na peça, um artista tarimbado por atuações consistentes no teatro, TV e cinema, vindo da escola de teatro negro carioca Cia dos Comuns. A princípio, enquanto o observava, avaliei que Rodrigo estava bem em cena, mas os outros atores, Lucélia e Raphael, estavam fantásticos. Talvez aquele fosse apenas mais um papel em sua longa trajetória e talvez por isso não tivesse o brilho que assisti em outras montagens.

Que nada, me descobri totalmente enganada quando soube que a idéia do espetáculo foi de Rodrigo, que empreendeu e convocou as pessoas. E Rodrigo é um homem de asé, o mais velho daquele grupo e tenho a sensação de que ele cumpriu seu papel, fez a interpretação mais contida que o personagem requeria (o contrário disso seria exacerbar a violência) e abriu espaço para que o brilho dos dois atores mais jovens tomasse a cena.

Lucélia Sérgio é uma grande atriz que tem colocado todo o seu talento e técnica a serviço da escola de teatro negro paulistana Os Crespos. Ela se dedica quase integralmente ao coletivo, além das duas filhas, obviamente, e ser mãe-atriz, todo mundo sabe, é um custo adicional para a carreira da mulher (o ator-pai, por mais presente e/ou responsável pelos filhos que seja, sempre conta com apoios que as atrizes-mães não dispõem). Como resultado da dedicação ao coletivo e à maternidade de filhas de menos de 5 anos, Lucélia investe menos na expansão de sua carreira artística do que gostaríamos, mas, neste Navalha na carne negra, sua performance contou com o auxílio luxuoso e poderoso da câmera de Isabel Praxedes.

Lucélia Sérgio é uma atriz de silêncios, uma atriz que cresce sem a palavra. Isabel Praxedes compreendeu essa característica peculiar e mostrou detalhes de sua interpretação em momentos de ausência de texto, que não veríamos sem a câmera. Assim, em Navalha na carne negra, pudemos ver Lucélia Sérgio em seu esplendor.

Raphael Garcia é ator formado pela escola de teatro negro paulistana Coletivo Negro. Um grande ator a quem Veludo deu a chance de mostrar quem é, vejam bem, quem é, não, a que veio. O ator quebrou as expectativas de nosso imaginário do personagem gay espalhafatoso, por meio de gestos econômicos, precisos e ricamente humanizados. Raphael Garcia construiu um Veludo memorável e surpreendente. Sua performance me lembrou o jogador Pogba mordendo a medalha da seleção africano-francesa, campeã da Copa 2018. A medalha era dele, conquistada pela luta, pela dedicação ao ofício, pela invenção de um lugar de existência numa realidade hostil. Era justo e legítimo que ele a devorasse em comemoração. Raphael Garcia devorou a cena, recebeu a medalha do público e da crítica.

Viva o teatro negro e sua técnica que se faz também fora dos coletivos negros estrito senso, e inventa lugares de existência para sermos o que somos e o que quisermos ser.

Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016).

Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.

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Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016). Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.
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