Natal do livramento

Coluna da atriz Elisa Lucinda

Por Elisa Lucinda

Me diga aí, veja se é capaz de adivinhar: qual o produto de boa qualidade que, dependendo do volume, pode custar menos que 100, que 50, e até menos que 30 ou 20 reais?

Qual objeto que reúne condições ideais para atravessar dias, meses, décadas e chegar, por dentro, e por fora, em perfeitas condições de ser professor, irmão, amigo e nutriente ao mesmo tempo?

Que coisa é essa que pode passar desapercebida, como aparentemente inocente e, no entanto, ser capaz de unir vozes, mudar pensamentos, estabelecer redes, apoiar revoluções?

Me diga, meu leitor amado, quem é o mistério único que pode ser arma, instrumento, equipamento de libertação e não ser reconhecido por qualquer opressor, capaz de passar por seus antagonistas , e de contornar até determinados exércitos e outras corporações?

Quem é o mudo falante, o influenciador silencioso, o mensageiro que faz defunto viver e conversar, que faz a palavra do morto ainda fecundar?

Quem pode copular com almas, fazer filhos e frutos numa turma inteira sem ninguém desconfiar? O que é que, em cada mão se apresenta de alguma maneira e a cada alma traz um jeito único de encantar?

O que é este objeto ,até agora neste texto não identificado , que pode em seu corpo ocultar pensamentos , projetos, bilhetes, cartas, dinheiro, fotografias… ?

O que é isso que dura, que atravessa séculos, é estudado e vira relíquia em museu?

Quem pode ser o único professor de quem não teve nenhum outro?

Quem é o mensageiro, o arauto simbólico que pode esconder dos inimigos seu conteúdo e, ao mesmo tempo salvar pátrias, situações, já que sua bagagem é passível de interpretações?

Quem é esse transporte, esse avião, essa aeronave invisível que leva o pobre a passear dentro do palácio sem ser barrado,que faz o rico entrar na favela, que circula o mundo inteiro e o seu sentido se aplica, se multiplica, se diversifica de acordo com cada língua em que opera?

Quem é que nos faz gastar por ele só uma vez, mas qual um invisível cavalo alado ,pode nos levar à viagens internacionais e nos fazer passar a tarde em Lisboa, Londres, Moçambique, Burkina Faso, Nigéria, Grécia, Egito, Paris, sem sair daqui, sem nos exigir visto ou passaporte?

Quem, que sorte é essa que muda o destino dos presos, que pode intervir na diferença das classes, que empodera minorias, que liberta mulheres, que organiza ideias, grupos e seguidores?

Quem é, meus leitores? de quem falo? Que espécie de coisa é essa que pode servir a um aluno, e à várias gerações?

Quem pode ter nascido no século anterior ao futuro ao qual explicará ? Que loucura é essa? Do que fala a cronista?

Quem é o celeiro de produções, filmes, roteiros, novelas, teatros e outras derivações?

Quem é o apaziguador dos povos, o que traz os tratados de fé, o que pode no fim de tudo realmente produzir a paz?

Quem é o fim das guerras, o promotor das igualdades e pode ser realizado por homem, criança e mulher? Quem é? Quem é o testemunho do pensamento humano que de mão em mão pode servir de casa em casa até o fim dos tempos ou o até o fim dos seus próprios dias?

Quem que usado não gasta, bebido não esvazia, comido não desaparece, e quanto mais absorvido não se esgota? Quem é o pai do saber novo e a mãe do que ninguém preveria? Já sabe, meu leitor, do que falo? O nome de tal alegria?

Pois sem ele, aqui eu não estaria. E não teria me transformado no que sou, nem conheceria por sua via a palavra respeito. Porque lá em casa esse objeto era também brinquedo de infância, era o portador das utopias, era o baú das imaginações! Por ele é que minha cabeça e a dos meus irmãos puderam passear por campos inéditos.

Este meu amigo querido, que na minha casa está nos banheiros, nos quartos, nas salas, à vista de amigos e visitantes, nas cabeceiras do meu filho, é fundamental para o desenvolvimento dos povos.Por causa desse sábio ambulante e portátil, é que cultivei leitores, administrei românticos desejos. Só quando ele chegou na vida de muitos pretos é que começou a fazer sentido alguma lei de libertação. Por causa desse pequeno grande objeto, individual e coletivo, que Mandela tornou-se, de dentro das grades , o maior libertador.

Quem é que garante o lugar de fala das etnias, dos gêneros, das minorias, o lugar de fala escrito,que é a chave mestra da cidadania? É o livro, minha gente, é o livro! Por isso nesse natal, doe livros. É ele que, na Páscoa, não está pendurado nos tetos das lojas como os bombons e nem é sugerido como opção no saco de Noel. Dê livros de presente.

Neste Natal faça um amigo oculto só com livro bom que você leu e ofereça a um amigo. Neste Natal compre um livro novo, não deixe fechar uma biblioteca, uma escola, uma livraria. São vitoriosos, resistentes, revolucionários os editores, livreiros e os donos de livrarias de agora. O livro é o que nos livrará de todo mal, amém.

Livrai-nos do mal. Livrai-nos, ó cavaleiro Livro, livrai-nos!

#CartasdeAmorAosLivros
#DêUmLivroDePresente
#DêLivrosDePresente
#342Artes

Mídia democrática, plural, em rede, pela diversidade e defesa implacável dos direitos humanos.

Categorias
Geral
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

AfrikaansArabicChinese (Simplified)EnglishFrenchGermanItalianJapaneseKoreanPortugueseRussianSpanish