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Maçons pela Democracia – segunda carta ao povo brasileiro

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Pela Petrobrás, Soberania Nacional, Amazônia e Democracia

Nós, Maçons Pela Democracia, entendemos, de acordo com os valores que juramos proteger, ao longo de toda a vida maçônica, a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Igualmente, defendemos os valores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, respeitando as diferenças e lutando pelos mais necessitados. Pertencemos a diversas potências maçônicas e variadas oficinas, mas falamos em nosso nome. Princípios que a Maçonaria tem impregnado em nossos corações, enquanto cidadãos livres e com sede de justiça.

Nós nos indignamos ao ver o povo brasileiro sendo violentado a cada decisão governamental que subtrai direitos trabalhistas e previdenciários, retira medicamentos de uso contínuo, corta

verbas de educação pública, entrega e dilapida o patrimônio público, provoca desemprego e mais miséria.

O povo não pode ser vítima de uma guerra ideológica contra as minorias e os mais pobres. Haja vista a covarde perseguição do governo Bolsonaro aos médicos cubanos, forçando-os a se retirarem do programa “Mais Médicos”, o que deixou milhares de brasileiros de baixa renda sem assistência médica básica.

Em cortes na distribuição gratuita de medicamentos de uso contínuo indispensáveis, mais de 30 milhões de diabéticos, transplantados e com tratamento de câncer ficaram abandonados à beira da morte.

Defendemos não apenas o respeito ao meio-ambiente, mas a soberania de nossa floresta amazônica, sempre tão cobiçada – não apenas por franceses, ingleses, alemães e outros, mas, principalmente, por estadunidenses-, com toda diversidade de fauna, flora e culturas indígenas. Combatemos a entrega da Base de Alcântara aos norte-americanos pelo governo do Capitão Motosserra.

Seguindo o verdadeiro patriotismo, aquele comprometido com nosso povo, não podemos deixar de apontar as ameaças às populações indígenas por parte das constantes invasões, destruições e incêndios florestais criminosos causadas por inescrupulosos madeireiros, pecuaristas e garimpeiros, incentivados pelo mesmo Capitão Motosserra.

Igualmente, questionamos o desmonte total de nosso setor petrolífero para atender aos interesses transnacionais e entregar

a Petrobrás, levando o emprego e a renda para outros países, desempregando os trabalhadores brasileiros.

O desmonte completo de nossas últimas estatais, empresas lucrativas e eficientes, patrimônio do povo brasileiro, afeta diretamente os trabalhadores que não podem arcar com as variações e os caprichos do capital especulativo, que manipula artificialmente preços para maximizar os lucros, não se importando com o serviço básico.

O Pré-Sal, que por lei deve financiar as necessidades em saúde e educação dos brasileiros, está sendo entregue para as multinacionais estrangeiras, deixando para trás somente o ônus ambiental das atividades de extração.

Nossa pluralidade de pensamento e democracia de opiniões se vê severamente ameaçada quando governantes – cuja eleição é altamente questionável por diversos motivos – decidem declarar guerra ao conhecimento e à inteligência.

Os conselhos federais, que regulamentam e zelam pela excelência profissional nos mais diversos setores, se veem atingidos por medidas de “desregulamentação” que tendem a sufocar a voz dos trabalhadores.

Os profissionais brasileiros de engenharia e arquitetura, reconhecidos em todo o mundo, estão ameaçados de perderem os Conselhos e suas entidades de classe. A memória do trabalho de gênios como Oscar Niemeyer corre risco quando os Conselhos que zelam pela nossa excelência estão sob ataque.

As “fake news”, responsáveis por afetar nosso sistema eleitoral e iludir os incautos, estão paulatinamente destruindo os veículos de imprensa, difamando os profissionais e suprimindo a

pluralidade democrática de publicações. No lugar de informação e fatos, mera propaganda de ódio adentra nossos telefones e computadores, levando entes queridos, amigos e vizinhos a comportamentos irracionais e aberrantes.

Além de tudo que já foi mencionado, nossa população vem sendo barbarizada, diariamente, pelas ‘milícias’, que, acobertados por poderosos, extorquem os pequenos comerciantes e aterrorizam moradores em busca de “taxas de proteção”, influenciando até mesmo a escolha de candidatos em diversas regiões.

Intimidado palas milícias, nosso povo sofre extorsão e se vê desalentado perante um poder público que somente se importa com a agenda de desmonte, deixando os mais necessitados ao Deus dará.

Nas relações exteriores, o Brasil deixou de ser respeitado. Em passado recente, éramos bem vistos e tidos como amigos de todas as nações. Agora, somos motivo de chacota no mundo inteiro, quando, em nosso nome, fora dos limites civilizatórios, se disparam ofensas contra chefes de estado e seus familiares – sem nenhuma preocupação com possíveis consequências.

Tudo isso permitido por grupos inescrupulosos encastelados no Poder Judiciário e no Ministério Público que encarceraram, sem qualquer base fática ou legal, o ex-presidente Lula, enquanto deixam, à solta, criminosos com evidentes provas de seus delitos.

Que todos as brasileiras e os brasileiros, civis e militares, se organizem e se unam em defesa da Constituição, do progresso social e da democracia.

Nenhum Direito a Menos!

Viva o Brasil livre, soberano e fraterno! Não vamos nos dispersar! Ditadura Nunca Mais!

Favor divulgar pelo Brasil!

Rio de Janeiro, 09 de setembro de 2019

Assinam os irmãos:

Antonio Teixeira, Dener Fabrício, Emanuel Cancella, Enrico Salvatori, Francisco Soriano, Gilberto Palmares, Guaraci Porto, José Amaral de Brito, Sergio Abadde, Vinicius Branco.

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47 Comments

47 Comments

  1. José MARQUES BRAGA

    13/09/19 at 13:37

    Bom texto. coerência e determinação.

  2. Antonio Raimundo Pereira da Silva

    13/09/19 at 14:20

    Parabéns IIR! Devemos ser sempre verdadeiros Maçons e contribuir sempre com aperfeiçoamento e bem-estar da humanidade, levantando templos à virtude e cavando masmorras aos vícios. Viva o Brasil, com “S”!!!

  3. Newton Ponce Pasini Judice

    13/09/19 at 14:54

    Amados Irmãos visíveis e invisíveis que o Grande Arquiteto do Universo sempre proteja essas vozes que com certeza não bradam no deserto mais sim em terreno fértil e formador de opiniões, três vezes parabéns …

  4. Gilberto

    13/09/19 at 14:57

    Texto incrível, com verdades de A a Z.👏👏👏👏👏👏👏👵

  5. Padilha

    13/09/19 at 17:07

    Expresso em singelas palavras a minha concordância com a pauta aqui tratada e tão lúcida diante do que é mais do que inegável nos meios de comunicação e na vida real.
    Meu apoio aos Irmãos que valeram-se da Sabedoria para encontrar soluções;Força do querer;Beleza para com a nossa Pátria e nosso amado povo do Brasil.
    .:

  6. SERGIO ROBERTO DE ALMEIDA

    13/09/19 at 17:34

    Texto muito bem elaborado. Reflete a minha opinião. Espero que a influência maçônica possa contribuir para uma possível melhora dessa situação caótica. Parabéns.

  7. SERGIO ROBERTO DE ALMEIDA

    13/09/19 at 17:36

    Belo texto. Parabéns

  8. Alecio José Hermini

    13/09/19 at 17:40

    Parabéns pelo artigo. Que Deus ilumine cada vez mais as pessoas que conseguem visualizar a verdade e ajudar dar um fim nesse MAU que está assolando nosso País. Enquanto há tempo.
    Opinião: Lula livre já, para liberdade do Brasil.

  9. LUIZ PAULO PERES LEONETTI

    13/09/19 at 18:10

    Essa é a maçonaria que reconheço.

  10. Alexandre

    13/09/19 at 20:04

    Estou mais esperançoso, vocês que pertencem a arte Real não poderiam dar as costas para os Direitos Universais do Homem, pela Democracia e pela Soberania.
    Parabéns pela iniciativa!!!

  11. CARMILTON MEIRA

    13/09/19 at 20:09

    Temos que lutar até conseguirmos mudar essa situação

  12. MARIA EUFRASIA

    13/09/19 at 20:10

    Ao ler a matéria,compreendi que existem maçons e maçons.😍

  13. Eduardo fabra

    13/09/19 at 20:13

    Estamos juntos en esta lucha hermanos no permitiremos la esclavitud de nuestra sociedad por este régimen soberbio . .

  14. Evilásio Betim

    13/09/19 at 20:14

    Excelente matéria, são de pessoas com essa sensibilidade e conhecimento de causa que precisamos que ocupem os mais diversos cargos públicos, hoje sendo ocupados por batedores de cabeça, insensíveis, irresponsáveis e incompetentes, com raras exceções.

  15. RAQUEL DO CARMO DA SILVA

    13/09/19 at 20:32

    Finalmente a maçonaria mostra que é decente. Compactuar com os desmandos desse governo nos envergonha

  16. Angelo Brasil dias

    13/09/19 at 20:44

    Parabéns irmãos .’.

  17. Benone José Rypl

    13/09/19 at 21:53

    Fantástica e verdadeira análise!

  18. Washington Luiz Alves sobrinho

    13/09/19 at 22:05

    Estou certo que isso irá acabar, e só mostra ao povo brasileiro como realizar tal mudança, eu sou a favor de mudança no Brasil , abraço fraterno de um amigo admirador da fraternidade.

  19. Luís Lima dos Santos

    13/09/19 at 22:09

    O meu respeito e admiração, pelos ideais maçónicos são invioláveis.

  20. Antônio Celso Cipolla

    13/09/19 at 22:52

    Eu me senti plenamente representado nesse texto que analisa com maestria a realidade que vivemos, o período tenebroso que atravessamos.
    Não podemos esmorecer.
    Obrigado, irmãos!

  21. Jurvom Moreira Bhering

    13/09/19 at 23:08

    Texto justo e perfeito!

  22. José Silva do Amaral

    13/09/19 at 23:17

    Ótimo não sabia que existia maçons ‘irmãos’ com essa cultura obrigado por existirem

  23. Vandeilton Ferreira

    13/09/19 at 23:43

    Acho bastante coerente o texto conforme os princípios universais da Ordem que deve sempre defender a autodeterminação dos povos, na defesa da Cultura Universal.

  24. Grace Agostini

    13/09/19 at 23:59

    Parabéns aos maçons pela democracia. O povo brasileiro precisa urgentemente de vcs. Obrigada.

  25. Eder

    14/09/19 at 0:24

    Parabéns pelas palavras, fico grato pelo povo brasileiro que precisa de seres humanos evoluídos como vocês!!!

  26. Laudelino Marques Oliveira

    14/09/19 at 0:25

    Justo e perfeito

  27. JORGE RICARDO DE LIMA COELHO

    14/09/19 at 1:20

    Meus sinceros parabéns por essa atitude digna e patriótica. Que todos saibam que não é apenas se vestir de verde e amarelo que será considerado um cidadão brasileiro. Enfim, que notícia maravilhosa essa desses dignos e nobres maçons! Meu tríplice e fraternal abraço em todos os que firmaram esse documento!

  28. Marcello Zacharias

    14/09/19 at 2:34

    Divulgar isto é patriotismo.

  29. EUGENIO A R MACEDO

    14/09/19 at 9:11

    Legal um pequeno grupo de maçons lembrar que este governo é entreguista. Certo é que a maçonaria está enraizada neste governo destruidor e defende fortemente as políticas privativistas de Bolsonaro. Mas é legal ver uma entidade acendendo uma vela pra Deus e uma pro Diabo.

  30. Fatima Piva

    14/09/19 at 12:10

    Feliz demais pq mais.Pessoas estão acordando. É de suma importância que esses Maçons se pronununciaram, não é toda Classe, mas já é alguma coisa. Carta extremamente bem escrita onde são colocados todos os problemas que vivenciamos no Pais, diartiamente e não podemos nos acostumar e nem aguentar mais. Parabéns a Vcs JL por nos dar essa oportunidade de conhecer esse texto e ficar com fiante que “amanhã vai ser preso outro dia”…..

  31. Olavo j. C. Medeiros

    14/09/19 at 12:10

    Muito bem escrito , parabéns .

  32. Neilton de Lima Oliveira

    14/09/19 at 12:45

    Excelente exposição, gratificante, esperava a muito por um texto dessa magnitude vindo de irmãos da Maçonaria. Magnífico e Rico comentário escrito. Essa linha é o perfil real da Maçonaria. Glória a Deus.

  33. Elias Martins teixeira

    14/09/19 at 15:56

    Certisimos vcs todos eu sempre admirei a maçonaria. Não sou membro da irmandade .mais leio muito sobre .e apoio vcs sempre !

  34. Anaor Silva Antunes

    14/09/19 at 16:23

    Boas novas

  35. Jorge

    14/09/19 at 16:50

    Excelente, perfeita e pertinente acarta…parabéns.

  36. Denerson Paixão

    14/09/19 at 17:08

    O que farei eu pra ajudar?
    Nao quero ficar aguardando resultados…quero fazer parte das melhorias.

  37. Paulo Roberto Varejão

    14/09/19 at 18:18

    Sou maçom e compartilho inteiramente das opiniões exaradas no Manifesto. Parabéns pelo posicionamento. Gostaria de estabelecer contato com o grupo Maçons pela Democracia
    Att, Paulo Roberto.

  38. Fábio Roberto

    14/09/19 at 19:29

    Irmãos .
    Meu nome é fabio Roberto dias da loja Grão mestre Lauro Sodré RJ ,gostaria de ter assinado esse pronunciamento dos irmãos que foi feito com tanta propriedade intelectual , parabéns faço da suas palavras às minhas , gostaria de contribuir ,fico aqui de e a ordem

  39. Elias Amorim

    14/09/19 at 19:50

    Fazer maçonaria é respeitar a dignidade do ser humano e defender a Pátria Amada. Parabéns aos maçons, homens dignos e de bons costumes que apoiam essa nobre causa.

  40. Juarez Cavalcante

    14/09/19 at 19:57

    A esta Maçonaria rendo meus respeitos e mantenho meu juramento! À aquela que acolheu pilantras em seus templos e bateram palmas, renderam votos e apoios, deixo apenas meus repúdio. Parabéns PP.:IIRR.: Juarez Cavalcante MM.: Contem comigo!

  41. Andrea Santos

    14/09/19 at 20:54

    Perfeito! Necessária manifestação da maçonaria em favor do Brasil!

  42. Tony Paulino

    15/09/19 at 7:33

    Seria bom se a igreja católica na voz da CNBB tivesse também essa coragem.Parabéns aos maçons.

  43. Maria Alice Pedotti

    15/09/19 at 11:57

    Finalmente maçons de fibra, aos antigos….. defensores da pátria para todos!! Parabéns.

  44. José Gilson Silva Alves

    15/09/19 at 16:14

    Concordo em gênero número e grau, texto muitíssimo bom, pacificador e de chamamento para organização e luta. Parabéns.

  45. Antônio Carlos

    18/09/19 at 6:23

    Justiça seja feita com clareza e Respeito Parabéns irmãos

  46. lcmbahiense

    10/10/19 at 16:23

    Apoio, e muito bem embasado, dos Maçons pela Democracia, à Luta por um Brasil mais justo!

  47. MARIA DA PENHA DA SILVA

    24/06/20 at 18:50

    Parabenizo a iniciativa coerente e corajosa dos cunhados, mas, pergunto: na democracia defendida por vocês, qual o lugar das mulheres? Será o mesmo que temos na maçonaria?

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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