Lobos em peles de lobos

por Paulo Márcio de Mello

por Paulo Márcio de Mello

#Isso é seu? Pergunta deve ser respondida pelos grandes produtores de resíduos, como Nestlé, Pepsi e Coca.

A onda da responsabilidade socioambiental empresarial despertou em muitos empresários e executivos de empresas um jeito diferente de perceber a gestão da empresa, atento para aspectos que levam em conta mais do que a tradicional racionalidade de considerar como missão única da empresa a busca do lucro e nada mais.

No entanto, neste rebanho de cordeiros, também são encontradas algumas fraudes, como a de lobos travestidos em cordeiros. Estas práticas, também conhecidas como “greenwash”, ocorrem quando uma empresa assume práticas visando conferir a ela a qualidade de empresa preocupada e ocupada com preservação ambiental e, num sentido mais amplo, também com a inclusão social.

Só que de mentirinha. Uma fraude, portanto.

Na prática

Não é de hoje que o greenwash é percebido. Matéria publicada no jornal The Guardian, edição internacional, de 28 de setembro de 2018, traz uma interessante matéria sobre esta questão. “Is Goldman Sachs’ new fund really just greenwashing stocks?”. Nela, Chase Woodruff e David Sirota questionam sobre as verdadeiras razões da Goldman Sachs e do bilionário Paul Tudor Jones firmarem uma parceria para ajudar capitalistas responsáveis a investir em negócios corretos, disponibilizando um fundo de empresas indexadas, ou seja, capazes de oferecer retornos aos poupadores, ao mesmo tempo em que suas aplicações apoiam empresas verdadeiramente responsáveis.

Em nota, quando do lançamento do fundo, Jones declarou que o capitalismo tem a força necessária para gerar mudanças positivas. O fundo procura colocar o seu peso financeiro em empresas que tenham, por trás de suas práticas, procedimentos éticos e sustentáveis. O fundo, instituído em junho, representa um dos maiores sucessos conhecidos, negociando inversões financeiras em empresas.

No entanto, documentos do fundo relatam que alguns dos maiores investimentos foram realizados em empresas produtoras de combustíveis fósseis (Exxon Mobil) e também em empresas com registros de fraudes juntos a investidores (J.P. Morgan), práticas ilícitas em campanhas políticas (Facebook), ou em práticas trabalhistas condenáveis (Amazon). Isto sem falar de empresas que atuam anulando os aspectos concorrenciais de mercado.

O próprio Goldman Sachs, nos meses que antecederam o lançamento do fundo, andou envolvido em escândalos de inobservância de direitos humanos em suas instalações, bem como em articulações legislativas que podem vir a dificultar os seus stakeholders na percepção precisa do desempenho sustentável.

Lobo em pele de lobos que não mais se dá ao trabalho de se travestir, circulando em meio ao rebanho que, ofuscado pelo brilho da tela da TV, do tablete, do smartphone, do notebook e o quê mais, não distingue um lobo de um cordeiro e acha que será protegido pelos vultos que o cercam. Não será, porém.

A alcateia e o ranking

A ONG Break Free From Plastic divulgou recentemente os nomes dos principais responsáveis pelo despejo de cerca de 20 toneladas por minuto nos mares. Um relatório produzido pela Break Free From Plastic e pelo Greenpeace International, com base nas marcas encontradas com maior frequência em 187 mil resíduos, obtidos em 249 limpezas de praia, em 42 países, permite concluir que o coletivo dos maiores responsáveis pela contaminação dos oceanos, a alcateia dos lobos travestidos em cordeiros, é constituído pelas seguintes corporações: Colgate Palmolive (10º lugar), Mars Incorporated (9º lugar), Perfetti van Melle (8º lugar), Unilever (7º lugar), Procter & Gamble (6º lugar), Mondelez International (5º lugar), Danone (4º lugar) e, no terceiro lugar do pódium está a Nestlé, em segundo lugar, a PepsiCo, e na primeira posição, a Coca-Cola.

De acordo com o Greenpeace, em 2016, a Coca Cola produziu 3.400 garrafas PET por segundo, equivalentes a cerca de 1,1 bilhão de garrafas. Um percentual decepcionante de garrafas recicladas foi observado, com menos de 50%. E apenas 7% foram reutilizadas.

# Is this yours? (#Isso é seu?)

O Greenpeace propõe que, sempre que uma pessoa se deparar com um destes resíduos disposto em local inadequado, publique, com a hashtag (jogo da velha) #is this yours? E, com outra hashtag, o nome da corporação.

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

*Ilustração por helio carlos mello

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