Jornalista viu o crime de perto

ROMPIMENTO DE BARRAGEM EM BRUMADINHO - No começo da tarde de hoje o jornalista Nairo Alméri estava em sua casa no arraial de Córrego do Feijão quando foi sacudido pelo rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro da Vale. O número de mortos, já se sabe, será bem maior do que os 19 registrados em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, há três anos. Dos 427 empregados que estavam no local, apenas 279 foram localizados hoje, segundo a Vale

O jornalista Nairo Alméri, de Belo Horizonte, tem uma casa no arraial de Córrego do Feijão, onde costuma descansar nos finais de semana. Por coincidência, nesta sexta-feira, 25, ele estava lá e pôde presenciar um pouco do que se passou no pequeno distrito de Brumadinho, onde a Vale rói há alguns anos o alto de uma bela serra da região. As fotos acima são dele. Confira também, a seguir, o seu relato:

“O ribeirão Córrego do Feijão dá nome ao arraial e à Mina Córrego do Feijão. A entrada do arraial fica a menos mil metros de onde era a Portaria.
Desta vez não foi culpa da CEMIG. Eu ouvia a rádio CBN, 12h20, ou pouco mais, e o rádio ficou sem som. Pouco antes, as cachorras ficaram agitadas e as vidraças da casa fizeram barulho. A luz ameaçou devolver a voz do Carlos Sardemberg. Mas nada. O vizinho de chácara, Fernando, me indaga, do lado dele, se tinha acabado a luz. Confirmo. De repente ele informa: “Foi na Vale”. Eu brinco: “Então a CEMIG resolve logo!”. Vou pro Facebook e reclamo: ”CEMIG DETESTA O CÓRREGO DO FEIJÃO”. Já tinha faltado luz no Natal, na semana passada. E relato que o dia está ensolarado e não venta.

Ouço vozes e gritos na rua. Caminho a alameda até o portão. Vejo na rua pessoas desesperadas nos celulares, chorando o nome de pessoas e gritando que a barragem da Vale se rompeu. Volto para casa e o Fernando confirma a tragédia. Uma dimensão em vítimas, até às 19h30, sequer os bombeiros calculavam. “Certamente supera a Samarco”, disse o tenente Errara, dos bombeiros, ao ser indagado sobre número de vítimas. Na hora estavam lotados o restaurante, o refeitório e a Mecânica (oficina de manutenção das máquinas). Mas, na mesma área, também havia muita gente na Administração e Portaria.
Saí para ouvir e ajudar – conversar com as pessoas e, depois, ajudar a socorrer animais domésticos em propriedade que fica mais próxima onde havia uma lagoa, que, depois, recebeu uma barragem. À jusante, cerca 1,2 km, ficava a Pousada Estância Nova. Primeiras notícias eram de que havia 12 pessoas lá.
Choro, lágrimas… no meio da tarde, congestiono o envio de informações e imagens para as redes sociais e os celulares perdem cargas. Fico sem contato e passo a ajudar as pessoas.
Pessoas do Córrego do Feijão sempre falaram e ouviram falar dos riscos da tragédia. Mas se calam nas audiências públicas, em troca do emprego próprio, do marido, mulher e filhos. E o Ministério Público se cala sempre, ou seja, dá o voto silencioso para a Vale. Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente) e Copam (Conselho Estadual de Política Ambiental) seguem o MP.
O tenente do bombeiro relatou que a Barragem 4 rompeu primeiro. E puxou a Barragem 1. “Tem outra que estamos monitorando agora”, disse, às 18h30. “Mas se houver acidente não atingirá aqui”, assegurou em relação à segurança dos moradores da parte urbana do arraial do Corrego do Feijão. Isso logo após um militar da PM começar a informar que “ todos deveriam evacuar a área (o arraial).
O arraial está sem luz e as autoridades pedem para que a população não consumir a água que está chegando nas casas. O governador de Minas, Romeu Zema, sobrevoou a área. Toda defesa civil do Estado e Brumadinho concentrou o atendimento no Centro Comunitário. O Córrego do Feijão fica a 12 km da sede do município e a 43 de Belo Horizonte, pela BR-040, sentido Rio de Janeiro.”

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