Intolerância religiosa

a face mais perversa da ira

Quando criança, lembro-me que lia nos livros e jornais impressos, sobre o mar e as matas. Vi mitos e seus donos, Iemanjá, rainha do mar, Mavutsinim catando seus troncos na mata, fazendo seus filhos.

Tudo tão gratuito, nunca me pediram moeda para saber, amar e rezar.

Templo, terreiro, altar, tudo em seus cantos e cânticos. Lá longe as margens do rio, as lavadeiras, a lavanderia.

Idelza Digiere – óleo sobre tela

Fé linda, limpa, livre que trazemos no peito.

Meu Deus, por que  me abandonaste, é dúvida do profeta e frase do poeta, se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco?

Cinquenta e quatro anos de vida, e o mar e a mata tornaram-se sinônimos de pré-sal e agronegócio, sem encanto ou respeito pelos donos sagrados dos cantos e curvas, ondas e brisas no segredo de cada coisa. Tudo virou um mercado, investimento, domínio.

“Ninguém é maluco de peitar, foram 15 barracões, 15 babalorixás de nome, de respeito, que não vão poder mais ser cidadãos”

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/05/27/traficantes-dao-ordem-para-fechar-terreiros-na-baixada-fluminense.ghtml?fbclid=IwAR3vF83P2lMFTRGTTyUK0D9nIOBUr9scHWY973v-7Ig1YodsBOr0aP78zsI

Liguei cedo a TV, vi escancarado que proíbem terreiros, mandam fechar as portas daquilo que não está no jogo, atacam, dizem ser ordem do tráfico.

Nota no livro de Vagner Gonçalves da Silva, antropólogo – Intolerância religiosa: impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Terá no Brasil até a fé virado assunto de milícias, transcendendo podres poderes, extorquindo nossa reza dos matos e águas?

Meu povo grita, mareja os olhos, fecha a alma. Há desencanto, medo, escândalo. Fechar terreiros é como incendiar aldeias.

É pau, é pedra, é água.

Um fuzil ameaça os santos.

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