Livros do desassossego

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Há três anos, na Avenida Paulista, caminhava num domingo, 3 de julho de 2016, às 13h47.

Dava-se um tumulto entre vontades e intenções, outros quereres. Um honesto professor, ciclista, bradava em protesto pela vida que via ameaçada, e ao açoite recebia o achaque dos que creem que nem toda vida vale a pena, gente que aprecia ditadura.

Eu, no espanto, cliquei a lógica da cena paradoxal.

Três anos decorreram, quase nada difere ou destoa em domingos assim, fatos conduzem ao mesmo ponto. Uns querem livros, ciência, outros armas, limites, cunha.

Nessa ampulheta em que vivemos, recordo-me, também, de Chico Buarque todo borrado de tinta, com o chapéu e o sorriso aberto, no mesmo local manchado, atacado pelos que não gostam de pensamento.

No mesmo período, as máculas a Chico foram substituídas pelo Prêmio Camões, o mais importante da literatura a acolher um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra.

A avenida Paulista continua em  desassossegos, desaforos, desabafos. A educação rompeu o medo no asfalto, milhares pediram respeito ao presidente inculto. Jovens de preto, vermelho, branco.

Avenida roda viva, não cala, não cede.

imagens por Helio Carlo Mello© – Jornalistas Livres

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