A INTERVENÇÃO DO INCÔMODO É NECESSÁRIA

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Esse é um debato bem cotidiano e simples de uma jornalista livre negra sobre racismo, pois eu acredito que o preconceito racial visto pela ótica da mulher negra, faz com que a gente entenda melhor, as nuances das opressões que acontecem diariamente, não só no Brasil, como em vários cantos do mundo.

Semanas antes desse 25 de julho, comecei a reparar mais fortemente em tudo ao meu redor, no tocante ao tema. Impressionate como tudo continua ruim como no período anterior.
As portarias dos prédios, as faxineiras, as babás, as copeiras e tantos outros postos de trabalho serviçais continuam ocupados quase que em sua totalidade por negras e negros.
Quase não vejo médicas, advogadas, arquitetas negras e aquelas que ocupam esses espaços, se estão à esquerda do cenário, conseguem debater sobre isso e conscientizam o espaço que ocupam. Se temos negras e negros bem sucedidos, porém alienados à luta contra o racismo, toda preta e preto perde. E muito.

Outro dia, estive na casa de um amigo rico, branco que em sua teoria de vida, se coloca contra o racismo e condena práticas de quem contrata diarista negra, por exemplo, mas lá em seu lar quem serve é ela, a preta.

Quando a mãe dele entrou na sala e me viu, eu senti um olhar diferente, de exclusão, até estranheza. Muito provavelmente por que ele recebe 99% de amigos brancos. A família do querido amigo não está acostumada a ver negras sentando no sofá tão limpo de suas casas. Me deu um nó na garganta.

Não sei expressar exatamente o por quê, mas a gente que é negra e negro sente isso claramente e o coração fica espremido, bem lá no fundo.

Quando mais jovem, lá bem no início de minha militância no movimento estudantil em meu ativismo contra o racismo, perdi as contas de quantas vezes tive vontade de sair correndo de certos lugares. É dolorido, e eu ia me acalentar em tudo o que Angela Davis dizia para o mundo e em Tereza de Benguela, líder quilombola que se tornou rainha, resistindo bravamente à escravidão por muito tempo. Não foi fácil.

E numa fase interessante da minha vida, eu tive a oportunidade de viver por algum tempo num dos países mais hostis para negras, a Noruega. E esse clima gélido não acontece somente pelo país ser formado por brancos.

Mais do que isso, ali, a educação escolar já trás livros que fazem uma verdadeira lavagem cerebral contra “quem é de fora”. É como se os professores tivesse a missão de, à todo instante abafar outras culturas que não estejam no mesmo patamar dos noruegueses. A palavra integração é muito falada por lá, mas nada de concreto é feito. Para quem não mora na capital, em Oslo, a coisa é ainda pior. Era o meu caso.

Essa fala sobre tudo o que vemos, sentimos e presenciamos no racismo estrutural tem que ser reverberada todo dia. Ainda temos muitos episódios para combater. Ainda tem edifício com entrada social e de serviço. A cultura escravagista ainda rola solta entre a gente. Eu acredito que temos força para enfraquecer isso, no cotidiano das ruas, dos bares, das livrarias, das universidades, dos restaurantes, das praças, nas conversas com amigos e em todos os lugares em que possamos promover a intervenção do incômodo, para fazermos com que a sociedade pense mais e pare de ser racista.

Povo negro unido é povo negro forte!

Você já viveu cenas desse racismo cotidiano? Descreva aqui…

Uma resposta

  1. Há uma luta cotidiana invisibilizada, luta contra racismo, luta contra o machismo, sentidos na pele e no corpo. Ia dizer aqui, é uma baita guerreira, mas é péssimo viver na guerra contra racismo e machismo, é péssimo ter que ser guerreira para sobreviver!

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