Folha faz jornalismo-lixo contra os movimentos de moradia

“Reportagem” da Folha publicada no último domingo, 11 de outubro, tenta lançar um tsunami de suspeitas sobre os movimentos de moradia que atuam na cidade de São Paulo. Sem se identificar, um repórter teria percorrido “15 ocupações de movimentos de sem-teto, de siglas distintas, no centro e na periferia” e flagrado a cobrança de taxas dos postulantes à moradia, e o recurso a ameaças e à intimidação contra os maus pagadores.

O texto da Folha, ocupando três páginas do jornal (uma imensidão nesses tempos de vacas magras da mídia impressa e de leitores escassos), menciona taxas de R$ 150 a R$ 200 mensais, cobradas de moradores que vivem em ocupações situadas em prédios no centro de São Paulo.

Isso é muito ou é pouco? A reportagem maliciosa não diz. Se fizesse bom jornalismo, a Folha investigaria a contabilidade dos condomínios. Ou alguém acha os prédios ocupados estavam “prontos pra morar”, como aqueles dos folders e dos anúncios imobiliários que forram as páginas do jornal?

Sem água, sem luz (muitos com toda a fiação roubada), os encanamentos entupidos ou simplesmente arrancados, sem elevadores, sem extintores ou mangueiras de incêndio, repletos de lixo (só do antigo hotel Cambridge foram retirados 15 mil quilos de entulho!), os prédios dos sem-teto eram sucatas podres antes de serem –aos poucos — revitalizados pelo movimento social.

E quem paga por isso? O poder público é que não é. A iniciativa privada é que não é. Então, sobra para os ocupantes, na forma das taxas condominiais. Aliás, a reportagem da Folha, se não estivesse atrás de escândalos inexistentes, poderia investigar como as novas tecnologias sociais estão ajudando a baratear os custos de manutenção dos edifícios ocupados.

Tensão na saída para ocupar prédio no centro de SP. Foto: Maurício Lima, Jornalistas Livres
Tensão na saída para ocupar prédio no centro de SP. Foto: Maurício Lima, Jornalistas Livres

Exemplos? No Hotel Cambridge, os moradores fizeram parceria com a Escola da Cidade e estão desenvolvendo uma horta comunitária para ocupar toda a cobertura com verduras e legumes sem agrotóxicos. Foi da mesma parceria que se originou o lindo e inovador mobiliário que decora as áreas comuns do prédio — creche, biblioteca e oficinas de costura e maquiagem feitas com material de reciclagem. E será dessa parceria também que os moradores pretendem ressuscitar um antigo poço artesiano abandonado no subsolo do prédio, a fim de utilizar a água para lavagem do chão e descarga das privadas.

Mas não.

Em vez da inteligência, a reportagem da Folha preferiu, a título de escândalo, ouvir banalidades dos “especialistas” de plantão (todo jornal ou revista tem um plantel de “especialistas” disposto a falar o que o veículo quiser, apenas em troca da duvidosa glória de ser citado em letra de fôrma”). Foi assim que se ouviu o “gênio” chamado Edson Miagusko, proferindo as seguintes bobagens…

“…qualquer tipo de cobrança que é obrigatória deixa de ser uma contribuição.”

“Esse modelo se aproxima das formas antigas do leão de chácara dos cortiços, que dividia espaços e cobrava aluguel por coerção.”

E então, como se fosse a comprovação da tese, o texto mau-caráter da Folha emenda: “No hall de uma das ocupações do MLSM em São Paulo, um cartaz escrito à mão avisava: “Senhores moradores, precisamos acertar a contribuição até 25/07/2015. Caso contrário, iremos pedir para deixar o espaço.”

A seguir tal lógica, o jornal deveria imediatamente, com vigor e coragem, encetar campanha renhida contra a cobrança de taxas de condomínio dos prédios da classe média…! Meu Deus, como é que nunca percebemos que os aparentemente inofensivos boletos de condomínio se “aproximam das formas antigas do leão de chácara dos cortiços”?

O ápice da covardia e do jornalismo de esgoto foi o texto intitulado “Reunião para prestar contas ocorre em tom de intimidação”. Diz ali que o repórter flagrou uma conversa entre um sujeito, chamado de “Irmão” e uma liderança dos sem-teto da Ocupação Douglas Rodrigues, na Vila Maria. O texto fala em “tom de intimidação” quando o tal “Irmão” faz uma cobrança exigindo… transparência na prestação de contas do movimento. Que coisa horrível exigir transparência!!!

É mau jornalismo na veia. Jornalismo de adjetivação e de insinuação… Qualquer foca (jornalista iniciante), mesmo os da Folha, sabe que não vale escrever que o cara estava triste. É preciso dizer como se manifestava a tristeza. Ele chorava, soluçava, tremia, tinha a voz embargada são descrições muito melhores do que dizer que o cara estava triste.

Pois bem. Está dito que o tal “Irmão” intimidava. Como ele intimidava? Gritando? Não diz. Ameaçando? Não diz. O tal “Irmão” estava armado? Não diz. Ah, mas ele estava de jaqueta marrom e óculos escuros. Deve ser isso. Ou o fato de ele ser chamado de “Irmão”, o que levanta a suspeita de que ele seja um membro do PCC, já que os membros do PCC tratam-se dessa forma. Mas também poderia ser um membro de igreja protestante. Então é isso o que se tem: uma jaqueta, um par de óculos escuros e uma insinuação malévola que não tem coragem nem de dizer seu nome.

Quer escrever que há cobrança de até R$ 1.300, como supostamente denunciado por uma moradora (e negado pela direção da Frente de Luta pela Moradia)? Prove. Simples assim. Vá à luta e prove.

É claro que os movimentos de moradia incluem alguns oportunistas e exploradores (categoria de que, aliás, o meio jornalístico está cheio). Isso poderia ser uma boa pauta. Mas a preguiça levou a reportagem a transformar a pauta em texto final e a suspeita em tese. O nome disso? Sei lá. Jornalismo falido, talvez.

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“Quem não luta tá morto!” Este é o lema do MSTC (Movimento dos Sem-Teto do Centro)

PS: incrivelmente, a Folha esqueceu de mencionar a existência de 290 mil imóveis não-habitados na cidade de São Paulo, segundo levantamento da Secretaria Municipal de Habitação, a partir de dados do Censo de 2010. São imóveis deixados vazios para a especulação. O movimento exige que eles tenham função social. Mas isso não tem importância para a Folha e seu recheado caderno de imóveis, não é?

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