O Brasil, a imprensa e as ilustrações

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Uma pessoa escreveu algo mais ou menos assim: “por que a imprensa não estampa simplesmente que Bolsonaro MENTIU na ONU?”. Seria um grande avanço, pensei, nivelar de uma vez por todas as informações entre as centenas de progressistas em ação nesse país (ah, são milhares e milhares de militantes? perdão, não sabia!) sobre o fato de a imprensa brasileira ser parte do problema.

Fabianna Freire Pepeu

A Folha, Grupo Globo, Estadão, as revistas de grande circulação (ainda existe isso?), além dos grandes portais, alimentam uma cadeia de comunicação por todo o país, construindo e destruindo realidades, mantendo pessoas em alta conta ou jogando no ostracismo temas e outros nomes e, assim, a vida das notícias medíocres (ou distorcidas, ou pouco investigadas, ou pouco checadas, ou superficiais, ou mesmo sem cabimento) segue como se as coisas fossem isso mesmo.

A Folha, o Grupo Globo, o Estadão, as revistas de grande circulação (ainda existe isso?) e também os grandes portais de notícias alimentam uma cadeia de comunicação por todo o país, construindo e destruindo realidades, ora mantendo pessoas em destaque ora jogando no ostracismo. Assim, a vida das notícias medíocres — ou distorcidas ou pouco investigadas ou sem nenhuma checagem ou superficiais ou mesmo sem cabimento — segue como se as coisas fossem desse jeito mesmo.

A imprensa comercial, grande imprensa, imprensa dominada, PIG, mídia golpista — ou como você preferir apelidar —, pertence, e é administrada, ao mesmo grupo de pessoas responsável por estarmos onde estamos.

Estou me controlando para não usar uma partícula que, dependendo da sua função gramatical, não nos salva de nada, mas não tem outro jeito.

Como estariam as coisas hoje, apenas como um mero exemplo das distorções regulares, SE a imprensa não tivesse dado espaço para a falsa dúvida de Aécio Neves sobre a legitimidade da vitória de Dilma Rousseff? Não é demais sublinhar que não havia um único indício de falta de lisura naquele processo eleitoral.

Uma fake news foi amplamente divulgada pela mídia — mas, deve ter sido porque, naquela época, o consórcio de veículos não checava a veracidade do que publicava. Uma notícia falsa foi criada por um grandíssimo maloqueiro sem nenhum caráter — e, talvez, ele seja algo muito pior, mas isso são não será nunca devidamente investigado. 

E, de mais a mais, a própria estrutura midiática que deu espaço à “dúvida eleitoral” de um pulha é a mesma estrutura que o largou de mão para sempre, amém.

Essa volta ao mundo das coisas, agora até já antigas, para dizer que a tal grande imprensa, SE quisesse, derrubaria Bolsonaro com a mesma brevidade que dura uma partida de futebol americano.

A grande imprensa não tem um apreço especial por Bolsonaro. Muito pelo contrário. Não perde a oportunidade para mostrar o lado violento, tosco, dissimulado, oportunista, populista, desrespeitoso, indisciplinado e intelectualmente limitado desse sujeito. Porque, acreditem-me, a situação poderia ser ainda pior, caso essa mesma imprensa enaltecesse o nome desse miliciano perverso e medonho.

A grande imprensa não gosta de Bolsonaro, mas há Mourão, Guedes, Salles, Tereza Cristina, que, individualmente e juntos, vão dando vida a um projeto com o qual essa mesma grande imprensa está envolvida até o pescoço, desde sempre, porque essa tem sido a história do Brasil.

E que projeto é esse? A essa altura do campeonato, toda pessoa de orientação mais à Esquerda (ou pelo menos atenta e honesta) sabe que o projeto, dito de modo bem simples, é o de manter os poucos ricos, ricos; e os muito pobres no mesmo lugar para onde foram, desde o fim da escravidão mais explícita.

A mídia é parte dessa engrenagem que mantém a estrutura sem fendas. A gente não pode esperar que uma borboleta relinche porque sua natureza é outra. A gente não pode perder tanta energia, como hoje faz a ultradireita, xingando a Folha de ‘Falha’ e gritando ‘Fora Globo’.

Esse é um ativismo que não dá mais conta da complexidade do cenário político nacional.

Também, me perdoem, mas vou precisar dizer isso: não é verdade que Bolsonaro não caiu ainda porque as pessoas não puderam, em função da pandemia, ocupar as ruas em protesto com faixas e cartazes nos quais é possível ler que o “Povo Unido Jamais Será Vencido”.

Levei muito tempo para entender isso, mas, eu lhes asseguro, a gente só consegue caminhar verdadeiramente quando perde certas ilusões. O certo é que a estrada é longa e é melhor apressar o passo.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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