FINA ESTAMPA DA BOA MESA.

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Davi morreu, não venceu a batalha, morreu pelos hábitos da boca. Davi fazia pastéis tradicionais da Serra do Roncador, sua massa de farinha crua e caldos, recheios de carnes e a fritura fina em óleo quente. Em 16 anos de frequentes presenças no Mato Grosso e sua Canarana do agronegócio, tão jovem cidade, tão antigos hábitos forasteiros, sempre vi Davi com o cigarro entre os beiços, como se o filamento fosse um apêndice natural de sua cara atrás do balcão a atender sisudo ou firme a todos.

Cheibom era o nome de seu estabelecimento, dizia ele que cheio que era bom e rimou para o luminoso da esquina. Colecionou cachaças intocáveis por 20 anos, como flor no jardim entre espinhos, preenchendo todas as paredes do bar. Davi acreditou na rosa, descuidou-se das armadilhas. Descobri em pura observação pela década, que colecionar também é um ato de resistência. Subterfúgio, artifício? Creio que sim, pois os tragos constantes à boca de Davi subtraía-se às garrafas já abertas para a venda aos clientes; e o fumo e os fritos. A bomba explodiu, enfim. Na cama ficou a dormir para sempre, sem drama, belo infarto.

Ah, o desafio dos índices. A vida plena e o prazer de uma longa existência talvez resuma-se em saber comer; e beber também. Andar, respirar e amar são adendos. Equilibrar-se na verdade é o danado do samba dessa vida, vejo bem agora.

Para a Terra Indígena do Xingu segui mais uma vez, a documentar o valente trabalho de equipe da Unisfesp, o programa de extensão universitária da Medicina Preventiva, Projeto Xingu. Como um estica e puxa de arco a arremessar uma flecha, daquelas que acometem peixes, pássaros ou bichos de chão e galhos, a pesquisa ação de dislipidemia dos povos é a bola de cristal, a espada de Hércules para o bem viver. Apesar de muitas baixas diante de Golias, muito há a se construir e descobrir na disputa entre hábitos alimentares tradicionais e a invasão dos açucares, sais e óleos comestíveis que abraçam e iludem originárias populações.

Tudo é uma questão de saber cozer e esfriar o caldo, socar bem o milho, amendoim ou mandioca. Viver bem implica em produzir o prato, distante das armadilhas das prateleiras ou publicidades satânicas.

Como bater timbó na água doce, alimentar-se é usar o veneno a favor do alimento, negar o que intoxica a vida preciosa, levar a semente onde pisam os pés, colher, cozer.

*imagens por Helio Carlos Mello©/Acervo Projeto Xingu-UNIFESP.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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