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Famílias denunciam auxílio-moradia de juiz que as condenou ao despejo

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“Senhor juiz: você ganha R$ 4.700,00 de auxílio moradia. Não é justo nos despejar!”.

Recado aos juízes que mantém o privilégio do auxílio-moradia enquanto privam famílias pobres do direito constitucional à habitação

Empunhando uma faixa vermelha com essa afirmação, homens, mulheres, adolescentes e crianças atravessaram a pé a recém-reinaugurada ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, neste fim de semana, para denunciar a ameaça judicial contra a Ocupação Jardim das Oliveiras, em Araquari, na região de Joinville.  Com ordem de despejo para a quinta-feira (16/1), 200 famílias, num total de 750 pessoas, entre elas 245 crianças, viajaram até a Capital para expor a situação dos trabalhadores pobres num dos mais ricos polos industriais do Brasil. Hoje elas estão em Araquari se mobilizando contra a decisão e preparando uma vigília para não terem suas casas destruídas e serem jogadas na rua.

 

 

O recado da faixa foi para o juiz da primeira instância da Justiça Federal de Joinville, Paulo Cristóvão de Araújo Silva e Filho. Ele não acatou a ação da Defensoria Pública da União para regularização fundiária das terras em desuso pertencentes à extinta Rede Ferroviária Federal (RFSA), hoje assumidas pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU), que são ocupadas por essas famílias há 10 anos. Não só negou o direito, como determinou prazo de 30 dias para despejo dos moradores, a contar do dia 16 de dezembro de 2019.

Despacho do desembargador Rogério Favretto, confirmando despejo

O recurso à decisão foi parar nas mãos do desembargado do TRF4, em Porto Alegre, Rogério Favretto, o mesmo que se expôs corajosamente para defender a libertação de Lula e foi perseguido por isso. Todavia, em sentença no dia 7 de setembro passado, o relator acompanhou a decisão do juiz e acatou o pedido de reintegração de posse para apenas oito famílias, mantendo a condenação das demais 182 ao despejo. A exclusão da maioria é refutada por toda a comunidade, conforme o vice-presidente do Sindicato dos Metalúgicos, Wanderlei Monteiro de Souza, que também faz parte da executiva da CUT. “A concessão parcial do direito sequer é cogitada: aqui é um por todos e todos por um”.

Em Florianópolis, a passeata pela última ponte pênsil do mundo, que em 40 anos de reformas já consumiu mais de R$ 450 milhões, foi engrossada pelos moradores da Ocupação Marielle Franco, localizada no Maciço do Morro da Cruz. Apoiada pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia, a manifestação noturna iniciou às 19 horas, sob as luzes do monumento histórico. “Não queremos virar moradores de rua”, dizia outra faixa. O grito pelo direito à paz e moradia impactou a área movimentada do centro da cidade e encerrou as mobilizações dos sem teto na capital. Às 21 horas, todos retornaram para o local de origem, onde reiniciaram as mobilizações contra o despejo.

O próximo passo da luta ocorre hoje (14/1), a partir das 9 horas, quando as famílias fazem uma Caminhada pelo Direito à Moradia. Seguem em passeata até a prefeitura e Câmara de Vereadores de Araquari para  exigir respeito aos direitos de Moradia garantidos pela Lei Orgânica Municipal. A concentração começou às 8 horas, no Jardim das Oliveiras, no Centro de Araquari. À tarde os moradores da ocupação têm audiência no Ministério Público da União e na Advocacia Geral da União, conforme o presidente da Associação da Comunidade do Jardim das Oliveiras, Érico Dias. Os moradores estão organizando uma vigília do dia 16 para o dia 17, para evitar que a prefeitura entre na área com força policial e destrua as casas, construídas com restos de material de construção.

O terreno da ocupação se estende por 193 mil metros quadrados de uma área gigantesca de 8 milhões 410 mil, 317,231 m2 de terras consideradas da União. Dentro desse perímetro, há outros bairros estabelecidos, porém apenas o Jardim das Oliveiras vêm sofrendo sucessivas ameaças de despejo por parte da prefeitura através de sua Secretaria da Habitação e do próprio prefeito. A especulação imobiliária e a injustiça social podem fazer com que tenham que deixar seus lares. “O lobby empresarial em cima dessas terras é violento”, denuncia Wanderlei. O Movimento Sem Terra já teve um assentamento na área, mas foi expulso e há seis meses os grileiros invadiram o Território Indígena Tarumã, de duas aldeias, sob ameaça de morte contra os Guarani.

Em entrevista aos Jornalistas Livres, o presidente da Associação da Comunidade Jardim das Oliveiras, Érico Dias, explica como as famílias chegaram à ocupação.

  • As nossas famílias são todas formadas por gente muito humilde. Vieram para cá na ânsia de ter uma casa, de construir uma casa para escapar do aluguel. Ninguém tinha condição, até porque o salário médio de Araquari e Joinville é de R$ 1.250,00. Se você não ganha esse salário, você não consegue pagar aluguel e viver. Às vezes falta até comida. Na ânsia de escapar de tudo isso e ter um pouco mais de dignidade, todo mundo veio para o bairro. Algumas pessoas foram enganadas porque em Araquari 70% do município não tem documento, é só contrato de gaveta. Muita gente vendeu com contrato de gaveta. Deram tudo que tinham, deram até televisão achando que estavam indo para suas casas. E hoje ficaram sem condição de pagar aluguel.

 

Duas, três famílias partilham a mesma casa;

trabalhadores fazem rodízio na mesma cama

Ocupação urbana ainda é a forma mais digna e solidária de resistência das famílias operárias empurradas pelo poder público para as ruas

A região de Joinville concentra hoje 50 ocupações urbanas com mais de duas mil famílias que facilmente seriam assentadas na área do Jardim das Oliveiras. O estrangulamento do custo do aluguel e da moradia própria é agravado ainda mais com o fluxo de pessoas que migram em busca de emprego. Na ausência de uma política de moradia popular, os trabalhadores apelam para o compartilhamento de casas entre várias famílias para amortizar o aluguel,  principalmente entre os imigrantes do Haiti e do Norte do Brasil.

Muitos compartilham inclusive camas, segundo o presidente do sindicato dos Metalúrgicos de Joinville e membro da executiva da CUT SC, Wanderlei Monteiro de Souza, que trabalha na Metalúrgica Wetzel, diz que só na Tupi há empregados originários de mais de 30 países. Para sobreviver, os trabalhadores são obrigados a fazer rodízio de leitos conforme muda o turno de trabalho nas fábricas.

  • O que acontece: duas, três famílias alugam uma casa grande e dividem as peças. Outros moram em mais gente e dividem inclusive a cama. Trabalham em três turnos, porque Joinville é cidade-operária, tem horário de fábrica. Então, enquanto um sai pra trabalhar, o outro chega e ocupa a cama. A questão da moradia é grave. O preço do aluguel é um absurdo , mesmo os apartamentos germinados, que são uma forma desumana de morar, são caríssimos. Sobra muito pouco para a classe trabalhadora.

Reunião da Ocupação Jardim das Oliveiras: organização comunitária para vencer as injustiças

Os líderes da ocupação também reclamam do assédio da prefeitura e da pressão física e psicológica contra os moradores. “Agentes do prefeito fazem áudios com chantagens emocionais para pressionar a população e a polícia pressiona muito, faz forte intimidação”, afirma Wanderlei. “Dificultaram até a transferência dos títulos de eleitores”. Na Ação de Reintegração de Posse, a Prefeitura alega que tem um Plano de Moradia de Araquari, com uma lista de espera para 800 pessoas para as quais vai garantir moradia. “O prefeito disse que não considera o povo do Jardim das Oliveiras moradores de Araquari, mas a gente nunca viu onde estão essas casas populares”.

São mais de 50 moradias urbanas esperando regulamentação, algumas próximo de ser regularizadas, outras próximo de ser despejadas e outras ainda surgindo, brotando com a necessidade de sobrevivência para as famílias operárias. “A questão de moradia em Joinville e região é muito deficitária, precária e grave”, resume Wanderlei, que acompanha o drama das famílias para pagar aluguel ou resistir nas ocupações em São Bento do Sul, Guaramirim e Araquari. “Há muita gente morando em marquises, em prédios abandonados. Então é inevitável a ocupação”.

Lideranças defendem o direito básico à moradia digna, necessário até para conseguir emprego

Se o plano de habitação é ineficiente, tende a piorar muito com o fim das políticas públicas e mais ainda com a emenda constitucional 95, enfatiza Loureci Ribeiro, arquiteto popular que dá apoio ao Movimento de Moradia Urbana. “Se não pressionar o poder público as pessoas vão ficar na rua e os problemas urbanos vão se agravar”, alerta. Importante deixar claro que todos moradores do Jardim das Oliveiras querem contribuir com seus impostos para ter direito à habitação e vida digna, salientam e Érico.

  • Querem ter sua luz regularizada, querem ter seu endereço reconhecido, querem ter sua água tratada. Querem ter tudo normal. Eles não estão se negando a fazer isso. Só querem pagar um preço justo para ter seu terreno.

 

“Justiça verga chicote da lei contra os pobres, mas adoça para os ricos”

Auxílio-moradia para os ricos, violência e rua para os trabalhadores pobres

Dois processos federais correm na justiça em nome das 200 famílias da Ocupação Jardim das Oliveiras. Em ambos, os réus são a União, estado e município: um deles, datado de 2012, pede a reintegração de posse, e outro, impetrado em 2016, exige a regularização fundiária.  Em ambos, o juiz de primeira instância reconheceu parcialmente o direito à moradia na área a apenas oito famílias, decisão que foi acompanhada pelo TRF4.

Agora, as partes terão 10 dias, a contar desta quinta-feira para se manifestar pelo cumprimento da sentença. No caso da Ação de Regularização Fundiária, as demais famílias têm prazo para saída voluntária no dia 16 de janeiro. Caso contrário, o Estado e o município devem tomar providências para que a ação de despejo seja efetivada. Os líderes do movimento já estão entrando com recurso em terceiro grau, no Tribunal Superior de Justiça Federal.

Formada por trabalhadores informais no comércio, indústria e serviços da cidade, em sua maioria, a comunidade de baixa renda disputa o terreno com a especulação imobiliária.  Já declarada de utilidade pública pela União para projeto de Habitação Social, a área pode atender a demanda habitacional dessas famílias e de todas as outras de baixa renda de Araquari, assegura Loureci Ribeiro, arquiteto popular do Movimento de Ocupação Urbana.

Apesar de o terreno pertencer à União, o prefeito Clenilton Perrira (PSDB) requer sua cessão para o município com o objetivo de efetivar na área um projeto habitacional, o que denuncia sua contradição, para as lideranças do movimento. Sobretudo porque o prefeito decretou o fim do Fundo Municipal de Habitação Social e nos últimos anos reduziu a quase zero os recursos para habitação social nas leis orçamentárias anuais para a LOAs aprovadas nos três anos de governo.

Um dia de luta na capital pelo direito à moradia

Ocupação Marielle Franco, do Morro da Cruz, em Florianópolis, uniu-se às familias da Ocupação Jardim das Oliveiras, de Araquari, na manifestação da Ponte

Eles acordaram às 5 horas na sexta-feira pela manhã na Ocupação Jardim Oliveira para chegar antes das 10 horas à Capital, onde cumpriram uma longa agenda, depois de uma semana intensa de mobilizações em Araquari e Joinville. Viajaram numa van e em seis carros pagos com ajuda do grupo de entidades apoiadoras dos movimentos populares urbanos.Às 10 horas, foram recebidos com café da manhã por funcionários e dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Estadual (Sintespe).

Em seguida, fizeram visita em solidariedade à Ocupação Casa de Passagem Indígena, na área desativada do Terminal de Integração do Saco dos Limões (TISAC). Na volta, conheceram a Ocupação Marielle Franco, no Alto da Caieira do Saco dos Limões, no Maciço do Morro da Cruz. O almoço foi preparado por quatro moradores sem teto, na sede do Sindicado dos Empregados dos Estabelecimentos Bancários, com doação solidária de produtos alimentícios.

Acompanhados pelos Movimentos de Moradia da Região da Grande Florianópolis e de Joinville, os moradores ameaçados de despejo, na maioria mulheres, adolescentes e crianças, percorreram em passeata a Praça XV e o Calçadão da Felipe Schimidt. Às 14 horas, realizaram  uma audiência da Superintendência do Patrimônio da União (SPU) e depois na Cohab, que está em processo de liquidação. Nas duas instituições, cobraram respeito do Direito especifico e difuso da Moradia Popular, como consta nos Artigos 5, 6, 23, 182 e 183 da Constituição Federal.

 

Grileiros à vontade para atacar ocupação e invadir Território Indígena

Grileiros invadem armados Território Tarumã. Foto: Douglas Ferreira

Em julho do ano passado, grileiros a serviço da especulação imobiliária invadiram a área da Terra Indígena Tarumã, do povo Guarani, e ameaçaram os indígenas. Localizada em  região de visitação de turistas, a TI Tarumã ocupa 21,72 km² de terras em Araquari e Balneário Barra do Sul. Vídeos gravados pelos indígenas mostram os grileiros entrando no território Guarani, demarcando partes da área sem nenhuma preocupação com a lei e ainda ameaçando os indígenas de morte: “Vocês são paraguaios, a terra não é de vocês, nós nascemos aqui” e “se pisarem aqui, vamos meter bala”, ameaçavam.

Em fevereiro, a casa de uma anciã na Aldeia Tarumã foi incendiada após drones sobrevoarem as aldeias. Drones são recorrentes e espiam as atividades da comunidade indígena, que sofre constantes ataques na região, conforme publicação do Diário Causa Operária de 22 de julho de 2019. “Existe uma organização, nos moldes fascistas da União Democrática Ruralista (UDR), utilizada para atacar os trabalhadores sem-terra, que se chama Associação de Proprietários Interessados em Imóveis nas Áreas de Reservas Indígenas no Norte de SC (Apis). Essa organização faz campanha e lobby entre os parlamentares ruralistas para evitar que sejam punidos pelos seus ataques e invasões”, afirma o DCO na reportagem Grileiros de terra invadem Terra Indígena Tarumã em Santa Catarina.

 

Ato de Repúdio contra o despejo de 200 famílias

Em solidariedade à Ocupação de Araquari

 

(Apoio: TENDAS #LULALIVRE)

Ônibus Para Araquari Bate e Volta,sexta-feira dia 17 de janeiro

1- Saída, dia 17/1, de Palhoça da Ocupação às 5:30h sem atrasos e de Floripa às 6h do Terminal Velho Cidade de Florianópolis
Retorno logo após o ato, depois das 18h

2- Caso você queira participar da viagem, mande seu NOME COMPLETO;
RG com o órgão expedidor e telefone

3- Crianças ou menores de idade:
levar carteira de identidade ou se certidão de nascimento;

4- Enviar os dados para o telefone e Watts Lúcia 48 99913 2811 Luana 48 99981 4755 e Zoraia 48 98411 4760 – responsáveis pela lista do Ônibus

5- Compartilhe, divulgue, ajude, contribua

6- Se você não pode ir adote um militante

BANCO DO BRASIL
AG: 5201-9*
C/C 729879- X* ou substitui o X pelo zero (0)

CPF 221432119-53*
Margarete Sandrini

Geral

A grande Mosalla em Teerã

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Jornalistas visitam complexo religioso onde está ocorrendo o funeral e as homenagens ao ex-líder supremo Ali Khamenei, assassinado no dia 28 de fevereiro pelos EUA e Israel

Tudo é grandioso na Grande Mosalla, oficialmente Mosalla Imam Khomeini de Teerã, um gigantesco complexo religioso-comunitário localizado em Teerã. Construída em estilo persa, a Grande Mosalla foi escolhida para a abertura das últimas homenagens ao ex-líder supremo Ali Khamenei, assassinado no dia 28 de fevereiro, quando se iniciaram os mais recentes ataques dos EUA e Israel contra o Irã, e que levaram a uma escalada de guerra que afetou todo o mundo nos últimos quatro meses. Por questões de segurança, o velório de corpo presente de Khamenei precisou ser adiado todo esse tempo e agora, com o precário acordo de paz celebrado com os Estados Unidos, o povo iraniano poderá se despedir do seu líder, em cerimônias fúnebres de corpo presente, que se iniciarão em Teerã e percorrerão as cidades sagradas de Qom (no sul do país), Najaf e Kerbala, centros espirituais no vizinho Iraque. Só em Teerã, é esperado o comparecimento de 20 milhões de pessoas.

Uma delegação de jornalistas brasileiros compareceu à Grande Mosalla na véspera da abertura do velório ao público. E pôde ver em primeira mão as cenas emocionantes que serão franqueadas ao público a partir de hoje: ao entrar na mesquita, músicos em uniformes militares executam hinos, enquanto os visitantes caminham sobre tapetes vermelhos (a cor símbolo do martírio) até a câmara ardente, em que estão dispostos os ataúdes de Khamenei e de quatro familiares mortos no mesmo ataque que o vitimou. São ataúdes simples, pintados com as cores da bandeira iraniana. O de Khamenei pode ser identificado por estar acima dos demais e exibir sobre sua tampa o turbante negro que identifica os descendentes do profeta Muhammad, fundador do islamismo. Mais abaixo, estão os caixões de familiares do ex-líder supremo, especial destaque para um, bem pequeno, que contém o corpo da neta de Khamenei, morta com apenas 1 ano e dois meses, no mesmo ataque que o vitimou.

Retratos de Khamenei em várias fases de sua vida estão espalhados por toda a Teerã e é evidente a comoção popular e a profunda conexão espiritual entre o clero xiita e a população em geral. Em um Centro Cultural, por exemplo, jovens voluntários já pela manhã cantavam hinos de vingança contra os EUA e Israel, enquanto preparavam refeições e sanduíches para serem distribuídos aos peregrinos. Apenas nesse centro Cultural (são vários), a expectativa era que mais de 100 mil pessoas recebessem gratuitamente os alimentos ali preparados. Também se montavam tendas, destinadas a acolher famílias de fora de Teerã.

Hoje é o dia do povo prantear o seu líder, ainda sem saber se o sucessor de Khamenei, Moqtaba Khamenei, escolhido pelo Conselho de Especialistas do clero xiita para suceder ao pai na liderança suprema do país, aparecerá em público. Ele foi ferido no atentado que matou o pai e não é visto desde então.

Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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