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Epidemias e pobreza: o que a história nos ensina

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Por Lara de Castro*

Comércio de portas fechadas, serviços públicos suspensos, quase ninguém saía às ruas, mortes as centenas, falências, falta de emprego, miséria, fome… Era 10 de dezembro de 1878 quando a cidade de Fortaleza viveu o que seria um dos mais fúnebres acontecimentos de sua história. Mais de mil mortos em um único dia ficaram aglomerados a espera de sepultamento em virtude da epidemia da varíola numa população de cerca de 42.000 habitantes. O contexto de seca com a pobreza, fome, aglomerações de migrantes, condições sanitárias precárias tornou o ambiente oportuno para uma das maiores epidemias registradas na história do Brasil.

As covas em cemitérios eram insuficientes para abarcar a quantidade de mortos e muitos corpos ficavam espalhados pelas calçadas e até ruas. Os pobres foram as potenciais vítimas do flagelo da varíola, mas a moléstia também atingiu alguns poderosos que viviam mais afastados. Em virtude da falta de emprego e renda, fome e morte, a população em revolta tomou as ruas, as repartições públicas, saquearam comércios, obras, propriedades privadas em busca da garantia da sobrevivência. Só depois de todos esses problemas as autoridades públicas a tomarem medidas um pouco mais efetivas para lidar com os problemas oriundos da crise.

O que essa e outras epidemias ocorridas no Brasil capitalista tem a nos ensinar? Guardadas as especificidades do contexto e do processo histórico de outras crises, há um recorrente padrão que pode contribuir para entendermos as ações do Estado, dos pobres e da sociedade e possíveis problemas provenientes delas.

Comumente, uma parcela dos agentes do Estado atrasa a declaração oficial da crise que se avizinha, seja pela covardia do necessário enfrentamento ou pelo temor das represálias da população, já que as falhas na estrutura de organização do Estado são descortinadas, atualizando a sociedade sobre os seus dividendos – no atual contexto, da política e economia representativa liberal. Resultado disso é sempre um atraso na tomada de ação, decisões imediatas amparadas na carência de estudos, incrível dificuldade na coesão de opiniões, provocando uma falta de alinhamento na organização de resoluções com a urgência que o problema exige. Fora isso, aos donos dos meios de produção é dada a proteção mais abonada. Os agentes do liberalismo econômico na dianteira da proteção do Estado durante as epidemias são salvos pelo Estado Forte paternalista: um contrassenso oportuno. Já aos pobres é ofertado o isolamento – na pandemia em curso de fato uma condição para garantia da vida – e uma insuficiente política assistencialista igualmente atrasada que só chega quando o estado de miséria e pobreza já está gravemente aprofundado.

Os trabalhadores, por sua vez, têm demonstrado ao longo da história habilidosas formas de ações coletivas sociais em nome da garantia da vida. Não esperam taciturnamente o anúncio oficial de uma crise provocada por epidemia, cobram do Estado essa remediação, não como favor ou caridade das autoridades públicas. A cobrança vem cada vez mais na forma de obrigação, direito. Frente a insegurança estrutural, na ausência do cumprimento do dever protetivo do Estado, ou na insuficiência deste, as pessoas põem-se em movimento em nome daquilo que importa para elas: a sobrevivência. Enfrentamentos que geralmente não seguem aquilo que se diz pertencer ao cenário dos “movimentos sociais organizados”.

As estruturas de sentimentos sociais são embaralhadas em épocas de montantes mazelas. Costumeiramente existe um sentimento de caridade particular demonstrado através de ações individuais e coletivas. Outra parcela, no entanto, observa estaticamente, as vezes com medo, as vezes com repulsa. Lamentavelmente, os pobres, com o adensamento da crise, são representados cada vez mais como uma imensa massa de endemias andantes, perigosos e indesejados. Ao fim, quando pouco se faz para superar a grave crise, a caridade aos pobres vai associando-se ao medo e, numa mistura de emoções, atrelando-se também ao sentimento de repulsa.

Miséria, aglomeração, fome e falta de condições sanitárias são uma perfeita equação para a disseminação de doenças epidêmicas e confluem para as mazelas que afligem continuamente os “de baixo”. Há de se considerar também que a maioria das pessoas em situação de pobreza, em subempregos e em regime de trabalho degradante são pessoas não brancas. Fora isso, as mulheres, segundo os relatórios da Organização Internacional do Trabalho – OIT, são as maiores vítimas da escravidão contemporânea, estão em maior número entre os trabalhadores informais, são as mais precarizadas e sem segurança de direitos, portanto as que vivenciarão os primeiros e os mais profundos sinais da calamidade. Ou seja, é uma completa falácia, e já se sabe, afirmar que os vírus acometem de modo igual classes, gêneros e raças.

De certo, falta hoje o entendimento de que as grandes epidemias não se resumem a uma questão sanitária, à disseminação de doenças, são graves crises estruturais, com desestruturação econômica, conflitos políticos e convulsões sociais. Falta a compreensão também de que os problemas das epidemias não se encerram com a descontinuidade da propagação desta, falência, miserabilidade, medo, insegurança alimentar, fome, doenças, morte e outros, continuam se propagando em larga escala nos anos subsequentes, a história ensina.   A negação que assistimos no reconhecimento da gravidade da epidemia pela Presidência da República e o atraso no reconhecimento e na tomada de providências da gestão do atual governo, repete-se na admissão do enorme colapso humanitário que passaremos nos meses adiante. Na contramão do que a história nos ensina, existe uma cruel e proposital invisibilidade do colapso social que acompanha esta epidemia global. Esta, pela sua proporção faraônica, resultará em perdas sociais irreversíveis caso um plano de igual magnitude não seja estabelecido.

Urge de um lado um tratamento sanitário da questão e de outro um programa imediato de combate aos problemas sociais que serão oriundos da calamidade pública provocada pela pandemia. A política emergencial de combate a pobreza potencializada pela epidemia deve ter parâmetros amplos e flexíveis de distribuição para alçar todo o montante de necessitados.  De outro modo, se de um lado carecemos de um programa mais urgente no curto prazo, de outro, necessitaremos no médio e logo prazo de uma política assistencialista duradoura e complexa de transferência de renda que considere as sutilezas das interseções entre classe, gênero e raça e as relações disso com o trabalho formal, informal, urbano e rural para garantir uma ação suficiente, eficiente e amplamente inclusiva.

As propostas atualmente em tramitação pouco ou nada consideram algumas especificidades o que as tornam menos inclusivas. É preciso analisar, por exemplo, que no Norte e no Nordeste a maior parcela de pobres em regime de trabalho análogo a escravidão e informais são trabalhadoras e trabalhadores do mundo rural: artesãos, agricultores, pecadores, pequenos produtores e extrativistas, muitos dos citados sem registro no Cadastro Único. Como é preciso ponderar também que frente às inseguranças sistemáticas das estruturas, a família (em suas variadas formas) como unidade é uma estratégia de sobrevivência. Portanto, não avaliar o número de pessoas em residência, já que nas famílias pobres as vezes todos trabalham para compor a renda, é incorrer num erro absurdo.

Antes já elementos indesejados das políticas do atual governo, as camadas mais baixas dos estratos sociais permanecem como coadjuvantes deste contexto. O isolamento – que nesta epidemia é fundamental e demonstra inclusive a solidariedade horizontal dos trabalhadores, pois significa proteger contra a morte – e nada mais foi ofertado ainda para que as pessoas lidem com a mais grave insegurança estrutural que se avizinha. Costumeiramente vistos como criaturas anestesiadas pelo sofrimento, desgraçados naturalmente pela pobreza, subprodutos da ordem meritocrata, terão potenciada a imagem que os associa a endemias andantes, “portadores de milhões de morbus”, uma agressão ao belo, ao limpo, ao ocidental civilizado.

No entanto, neste concerto orquestrado pelas relações de poder, pela fome e pelos diversos sentimentos, caso não haja o cumprimento do dever paternalista do Estado, os conflitos não demorarão a surgir e serão presença constante durante e depois da crise. Caso a população, com a política desamparadora do atual governo, seja exposta a situações de completa insegurança, falta de salários ou redução destes, privação alimentar, falta de moradia, exercerão pressão de diversos modos. A fome, ou perspectiva de passar fome, historicamente, é uma grande motivadora de ações coletivas dos sujeitos contra a falta da assistência das autoridades públicas e será novamente. Os pobres sempre souberam aproveitar os momentos de crise para abalar os sistemas que os oprimem.

Milhares de trabalhadores que já viviam em condições de labuta precária e degradante, que já enfrentavam as dificuldades de subsistência, os baixos vencimentos, os endividamentos, os abusos da inexistência de qualquer proteção legal, visto que muitos eram presos à informalidade do serviço autônomo ou dos empregos com ausência de contratos, o que exclui a garantia de direitos, se juntarão aos empobrecidos da epidemia. Constrangidos pelas circunstâncias da miséria extrema, frente às escassas alternativas de ganho, forçados pela urgência da fome, vivendo no limiar da morte, sob pena de pagar com a própria vida, não esperarão na forma de dádiva a assistência do governo, a cobrará na forma de direito, inclusive indo às ruas para sobreviver, o que neste momento seria catastrófico. Então, resta ao Estado cumprir completamente o pacto da proteção: salvar mais uma vez a economia, mas antes de tudo assistir suficientemente e efetivamente aos trabalhadores pobres, considerando os entrecortes da relação classe, raça e gênero, duradouramente.

*Lara de Castro é doutora em História Social, professora do Programa de Pós-Graduação em História e dos cursos de Graduação em História da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), presidenta da Associação Nacional de História – Seção Amapá (ANPUH-AP) e especialista em estudos sobre Trabalhadores e Pobreza.

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1 Comment

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  1. Rosana Chrispim

    01/04/20 at 10:20

    Preciso e precioso o texto da Lara, que deixa claro que o que estamos vivendo, além se não ser um problema pontual, é agravado pela questão histórica da manutenção e alongamento da desigualdade social. As “elites” no poder nunca quiseram – e agora menos ainda – compreender que a falta de socorro e inclusão às populações vulnerabilizadas e ignoradas em suas necessidades básicas (já antes pela própria deformação sócio-política-econômica do país) trará aos (ir)responsáveis pelo aprofundamento das crises muito mais ônus do que esperam. Decididamente são burros, egoístas, obtusos, egoístas, pequenos, egoístas, sovinas…
    Brilhante análise!

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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