Entrevista com a professora Camila Marques que foi presa de forma arbitrária em Goiás

Entrevista com a professora Camila Marques realizada por Laís Vitória

-A senhora já havia vivenciado outras situações de violência em relação aos seus alunos?
Já, mas não na minha escola. Em 2016, no CEA de Águas Lindas, quando estávamos no meio de uma palestra, a polícia civil fez uma intervenção com armas na escola, retirando os alunos a força. A moça da secretaria disse que era normal, e nenhum professor se mexeu para acompanhar os alunos (que eram menor de idade), então eu fui, mas dessa vez não fui agredida.

-No vídeo disponibilizado pelo seu sindicato a senhora foi ao hospital com os policiais, e depois precisou voltar ao hospital. O que ocorreu?
Quando estava no caminho do hospital eles retiraram minhas algemas. Assim que entrei no consultório o médico me perguntou se eu havia sido agredida. A partir daí os policiais não me deixaram conversar com o médico, responder nada. O médico disse que havia lesão, mas não fratura. Ele me passou uma receita com remédios, anti inflamatórios, mas os policiais me algemaram novamente e não me deixaram pegar a receita, por isso depois de ser liberada, lá pelo meio-dia, fui ao hospital para pegar a receita. Lá eles pediram para eu fazer um raio-x e imobilizar meu braço, que está luxado. Também me deram 5 dias de atestado.

-Como foi tratada no momento da prisão e na delegacia?
Sofri violência policial o tempo inteiro: primeiro afirmaram que eu era testemunha, então quando um carro não caracterizado chegou, falei que não iria entrar antes de ligar para o advogado do sindicato, por isso arrancaram o celular da minha mão e machucaram minha mão, colocaram algemas na frente dos meus alunos, da escola toda. Foi humilhante. Me fizeram entrar no carro, disseram que eu iria ser tratada do jeito que merecia, para calar a boca. No caminho passei por violência psicológica, eles arrancavam o carro, iam por caminhos diferentes. Eu falei o tempo todo que queria falar com o meu advogado, mas eles continuavam dizendo para eu calar a boca e que teria o que merecia. Quando cheguei a delegacia falaram que eu poderia ligar para o advogado depois da identificação. Em todo esse processo eu estava algemada. Eles abriram minha bolsa, encontraram meus documentos, fizeram a identificação, mas mesmo assim não permitiram que eu falasse com o advogado. Eles disseram que o motivo da detenção foi desobediência civil, e essa foi a acusação também.

-A senhora conseguiu conversar com os alunos durante a prisão?
Um dos alunos foi comigo no carro, mas eles dirigiram toda a agressividade apenas para mim. Os outros dois (uma menina e um menino) foram em outro carro. Falei com eles quando fui dar o depoimento, nos vimos no corredor e eu os abracei, mas não tivemos tempo de conversar. Eles me perguntaram como eu estava; não sei se eles sofreram violência, não consegui perguntar.

-A senhora acredita que com o governo Bolsonaro a violência policial piorou?
A violência policial contra jovens periféricos sempre existiu, mas com certeza piorou com o Bolsonaro. Eles se sentem respaldados, legitimados. A gente vê pessoas defendendo a tortura, defendendo a agressão. As instituições se sentem respaldadas para as ações abusivas.

 

-Gostaria de acrescentar algo?
Esse foi um caso de perseguição a militância, os alunos presos são atuantes no movimento estudantil, uma semana antes participaram de um ato contra o feminicídio. Essa foi uma tentativa de coibir o movimento. Por mais que eles coíbam o movimento só cresce, e só crescerá.

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