“Elementar”, por Dirce Waltrick do Amarante

Sem título, Basquiat, 1981.

Por Dirce Waltrick do Amarante*

 

Não sei como tudo começou. Só sei que já estava deitada assistindo a um programa de decoração na TV por assinatura quando o interfone da minha casa tocou. Era o porteiro dizendo que a minha costureira queria permissão para ir à casa da minha vizinha. Daí, eu disse que a costureira deveria ligar direto para a casa da vizinha. Mas o porteiro disse que ela tentou, mas a vizinha não atendeu o interfone, pois estava há mais de duas horas correndo pelo condomínio atrás de um peixe que escapara do óleo da frigideira: “Peixe é bicho inteligente e liso”, ele disse. Tive que concordar, há anos desistira de fritar peixes, eles sempre fogem do óleo. Quantas vezes nos supermercados vi sardinhas fugindo das latas? Perdi as contas!  Mas um peixinho na brasa também fica bem gostoso.

Só sei que o porteiro deixou a costureira entrar e, como ela não encontrou a vizinha, que continuava correndo atrás do peixe, resolveu costurar a farda de um militar, vizinho da vizinha do peixe. Sua farda havia sido perfurada por uma bala de goma (jujuba, dependendo da região).

De repente o telefone tocou, era o prefeito de Curiaxó me chamando com urgência para servir de intérprete numa reunião de negócios entre ele e alguns empresários romenos, grandes exportadores de lactobacilos para a América Latina. Disse-lhe que não entendia nem falava romeno, mas era muito boa em leitura corporal.

Me arrumei e parti para a reunião. Mas, no caminho, encontrei a costureira com o peixe da vizinha na mão e o militar com a mão na vizinha. Liguei imediatamente para a polícia a fim de denunciar o furto da costureira e o assédio do militar.

O porteiro foi preso. Fiquei meio confusa, mas o delegado explicou: “Se a gente tivesse mordomo, tudo isso seria diferente”.

 

*Tradutora, ensaísta e escritora.

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