“Duas vítimas não reconheceram. E as outras quatro reconheceram pela cor”

Thiago Henrik, motoboy preso há mais de seis meses foi acusado de roubo. Parte das vítimas não o reconheceu e família aponta erro policial. Ele foi condenado a uma pena de nove anos, advogada vai recorrer

Melissa, mãe de Thiago, em sua casa

Preso desde o dia primeiro de agosto de 2019, Thiago Henrik Rangel Leite, um entregador de vinte anos foi condenado por dois roubos na cidade de São Bernardo do Campo. A família aponta sua inocência e conta que ele estava na zona sul de São Paulo enquanto os crimes teriam ocorrido. De seis vítimas, duas não o reconheceram.

Os pais de Thiago Melissa, 41, e Saulo, 46, receberam os Jornalistas Livres em sua casa, um dia depois do filho fazer aniversário na prisão, em fevereiro passado, “se eu pudesse entrar com alguma coisa amanhã, eu levaria as cartas dos amigos dele, que me deram ontem. Mas não posso. A carta entra pelo correio. Mas assim, se eu colocar a carta na segunda… vai chegar lá na sexta feira e entregar para ele só na outra semana. Se eu pudesse levar um presente para ele manhã, eu levaria as catas dos amigos”, conta a mãe que apresenta outra versão, que não a policial, para o que aconteceu.

Os pais de Thaigo, Melissa e Saulo, con foto do filho Foto: Lucas Martins / Jornalistas Livres

Ser preso não estava nos planos. Depois de passar dois anos fazendo um curso profissionalizante de logística e trabalhar como jovem aprendiz ele passou a trabalhar como entregador usando sua moto. O jovem que trabalhou desde os catorze anos pretendia fazer faculdade de gastronomia e sair do país. Para os pais o caso é um exemplo de racismo. Melissa conta como vê a situação “duas vítimas não reconheceram. E as outras quatro reconheceram pela cor… qualquer moreninho é bandido?”

No dia três de março o juiz Leonardo Fernando de Souza Almeida, da 2ª vara criminal de São Bernardo do Campo sentenciou Thiago a nove anos de prisão, sendo responsabilizado pelos dois roubos em que foi reconhecido. A advogada Ana Michaela Simons Jacomini, que defende Thiago, conta que vão recorrer “o juiz não considerou uma série de questões”. Eles ainda aguardam, também, o resultado de um Habeas Corpus no Supremo Tribunal de Justiça, pedido antes da sentença.

O caso

Na cidade de São Bernardo do Campo, três roubos seguidos aconteceram no dia primeiro de agosto de 2019. Segundo o Boletim de Ocorrência (B.O.) primeiro roubo aconteceu por volta das 19h na rua Warner, no bairro Anchieta. Uma mãe e filha foram assaltadas. A mãe conta que “haviam acabado de estacionar o veículo na rua Warner, não se recordando o número, por volta das 19h00. quando chegou um indivíduo em uma motocicleta, armado anunciou o roubo exigindo seus pertences, porém como nada tinha, este foi até a sua filha, a qual entregou seus pertences”. A filha complementou dizendo que “sua mãe disse-lhe [ao assaltante] que não tinha nenhum objeto para lhe entregar então nada lhe foi roubado. Porém, a declarante entregou seu aparelho celular, uma aliança e um anel. Logo após o roubo, ligaram para a polícia militar e como o celular da declarante possui rastreador, foi monitorando todo o trajeto do aparelho e informando tudo para os policiais que vieram para lhe dar apoio”.

Cerca de meia hora depois e aproximadamente 750m de distância um segundo roubo foi cometido contra um casal que caminhava pela Rua do Túnel, próximo ao número 190. A mulher conta que “foram abordados por dois indivíduos em uma motocicleta, cuja cor e modelo não se recordam, o garupa estava armado, os quais mediante grave ameaça subtraíram suas alianças e o telefone celular [do marido]” ele confirmou a versão.

O terceiro roubo aconteceu em seguida, aproximadamente cinco minutos depois, quando duas mulheres “estacionado o veículo na rua Copacabana, cujo número não se recordam, por volta das 19:35h, foram abordadas por um indivíduo de motocicleta, portando arma de fogo, que mediante grave ameaça subtraiu seus telefones celulares”.

Versões

Uma viatura passou procurar pelo sinal do primeiro celular roubado. Ao cruzarem com Thiago no Sacomã, bairro da zona sul de São Paulo, ele “tentou empreender fuga com a moto, sendo então acompanhado até que entrou em uma viela onde abandonou a moto na Travessa Carlos Antônio Marini, e continuou a fuga a pé”. Segundo a versão dos PMs “foi localizado em seu bolso esquerdo um telefone celular, sendo justamente o que estava enviando sua localização às vítimas que estavam em São Bernardo. Indagado a respeito, o indiciado não soube explicar a origem do aparelho celular, negando sua propriedade. Diante desse confronto, retornaram ao local onde o indiciado estava inicialmente, qual seja rua Honório Serpa, numeral 26, nesta Capital, onde mostrou onde estava escondido outros três aparelhos de celulares roubados, além de quatro alianças, que estavam escondidos em duas árvores”.

Local onde Thiago foi preso
Foto: Lucas Martins / jornalistas Livres

Thiago respondeu que era inocente. Também no B.O. está a resposta que deu “quando veio a viatura e deu sinal de luz alta. Como não é habilitado e a moto está com a documentação atrasada, tentou fugir dos policiais. Alega que nada foi encontrado em seu poder e também não apontou aos policiais nenhum local onde supostamente havia objetos produtos de crime”

Dali seguiram para a 26º Delegacia de Polícia (D.P.), no Sacomã. Lá as seis vítimas foram prestar depoimentos. Os objetos levados, os celulares e alianças, entregues e devolvidos. mas nenhuma arma foi encontrada ou apresentada e somente uma pessoa foi apresentada para o reconhecimento: Thiago. Mãe e filha o reconheceram, também as duas mulheres. Mas o casal afirmou que ele é inocente.

Questionados, ela respondeu que “não reconheceu o indiciado aqui presente como sendo um dos autores do roubo sofrido anteriormente” e o marido “não reconheceu o indiciado aqui presente como sendo o autor do roubo sofrido anteriormente”.

A família

Já a família de Thiago conta outra versão para o dia. Naquela quinta-feira, 01/08, tinha ido buscar o filho da namorada, rotina que seguia há cerca de dois meses, na escola. Ele chegava por volta das 19 horas na escola para buscar o enteado, deixava-o na casa da namorada e saia para fazer entregas, quando a pizzaria chamava. Quando ele não tinha entregas para fazer ficava em casa ou com um amigo que mora perto.

O quarto de Thiago Foto: Lucas Martins / Jornalistas Livres

O dia de sua prisão ele tinha seguido uma rotina parecida, como conta Melissa. Por volta das 18 horas ele saiu de casa para buscar o enteado, deixou o garoto na casa dos avós e voltou para sua casa, por volta as 19h. quando chegou em casa tomou banho e se preparou para ir buscar a namorada no trabalho. Um dos pontos levantados pela defesa é a conversa de Whatsapp que ele teve com a namorada naquele momento, em que mandou uma foto sua para ela. Enquanto esperava o horário ele saiu para encher o tanque da moto.

Logo depois de sair de casa é que sua vida mudou. Pouco depois de sair rumo ao posto ele viu uma viatura que lhe fez sinal para parar, mas ele não parou “ele ficou com medo de perder a moto. Não tinha habilitação e o documento atrasado. Ele tinha vendido a moto para pegar o dinheiro e terminar de pagar a habilitação”. Por medo ele fugiu e ate passou em frente a sua casa, já com os policiais em perseguição.

Pouco tempo depois os pais foram chamados por uma vizinha. Thiago tinha sido pego, algumas ruas abaixo de onde fica sua casa e estaria sendo violentamente revistado. Melissa chegou a var o filho cercado por policiais. Eles tentaram interceder, mas não foi possível chegar perto. Depois acompanharam enquanto os policiais levavam Thiago a rua Honório Serpa, onde contam que “depois chegou outra viatura e, inclusive, um policial falou ‘não é ele. A moto era preta e o rapaz tá de roupa preta’ o policial que estava com o Thiago falou ‘dá continuidade. Vai ser esse mesmo’”. Para eles ele foi preso e forjado “para não ficar feio para eles… quando a outra viatura chegou e falou ‘não é ele’… acho que não queriam ficar feio na corporação e vai esse mesmo”.

A defesa

Os principais pontos levantados pela advogada de Thiago foram

  • A mensagem que ele mandou para a namorada, após buscar o enteado na escola “Assim que estava com a criança trocou mensagens via Whatsapp com a namorada, por volta das 18h58, quando enviou uma fotografia dele com o enteado perto da escola da criança”
  • A roupa que ele usava no dia, que também está registrada na mesma conversa “O Sr. Thiago usava blusa de moletom quadriculada cinza e branco, bermuda jeans azul e camiseta polo amarela, conforme foto abaixo, também trocada com a namorada via Whatsapp antes de sair para o trabalho, às 20h.”
  • A falta de detalhamento na descrição apresentada pelas vítimas “ainda que a descrição das características físicas de Thiago tenha sido omitidas do boletim de ocorrência e do auto de prisão em flagrante, bem como o modelo e a cor da motocicleta, o Paciente foi detido em flagrante.”
  • Os antecedentes de Thiago “residência, histórico escolar, carteira de trabalho, certificado de jovem aprendiz, comprovante de trabalho de entregador”

Para Ana “ele estava no lugar errado na hora errada. E está pagando por um crime que ele não cometeu. Ele é inocente” ela concorda com a avaliação dos pais de Thiago “É uma situação péssima, mas comum, infelizmente, ainda mais em um país racista como o que a gente vive”.

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