Diário do Bolso: o novo partido do des-presidente

José Roberto Torero*

Diário, é hoje!

 

Vou sair do Partido do Suco de Laranja. Quer dizer, do PSL (eu nunca lembro o que essa sigla quer dizer). É que tenho que parecer honesto, e lá está difícil.

 

É claro que eu já sabia como era aquele pessoal. Eu fui do PP, pô! Sei como é que funciona essa coisa.

 

Mas agora que eu sou presidente, tenho que dar uma caprichada.

 

Então, no almoço de domingo, quando eu e os meninos estávamos em volta da churrasqueira, falei assim:

 

“Vou fundar um partido pra gente.”

 

O Carluxo, que segurava um espeto de linguiça numa mão e o celular na outra, perguntou: “Como ele vai se chamar, pápi?”

 

“Acho que pode ser Pai, Filhos e Lacaios”, eu respondi.

 

O Flavinho, que segurava um espeto de mamata, quer dizer, de maminha, disse: “Não dá, pai. A sigla fica PFL. Já existe.”

 

“Pô, é mesmo…”, eu falei. “Então pode ser Partido dos Milicianos Do Bolsonaro.”

 

“Também não dá. A sigla fica PMDB”, avisou o Dudu, que segurava um espeto onde tinha uns dez hambúrgueres espetados pelo meio.

 

Não desanimei e já mandei outra ideia: “Acho que o jeito é escolher um nome mais militar. O que vocês acham de Partido da Tropa!”

 

“PT?!”, o Carluxo perguntou e exclamou ao mesmo tempo.

 

“Não, isso não! O que vocês acham de Partido dos Colegas do Bolsonaro?”

 

“PCdoB!”

 

Aí eu fiquei meio desanimado: “Pô, assim fica difícil, caramba! Vou ficar no PSL mesmo…”.

 

O Flavinho limpou a boca com um envelope (ele tem envelopes em tudo quanto é bolso) e disse: “Calma, não vamos desistir tão fácil. A gente tem que arranjar um nome para os amigos do papai Bolsonaro.”

 

“Gostei desse! Amigos do Papai Bolsonaro! E não existe nenhum partido com a sigla APB.”

 

O Dudu, palitando o dente com o espeto, falou: “A gente só tem que dar uma disfarçada. Vamos dizer que o nome é Aliança Pelo Brasil.”

 

“Boa!”, eu falei. “Está fundado o novo partido: APB! Amigos do Papai Bolsonaro!”

 

Aí nós cruzamos os espetos em cima da churrasqueira, que nem os três mosqueteiros (que também eram quatro), e gritamos: “Um por todos e todos por mim!”

 

Diário, confesso que fiquei emocionado. Umas lágrimas até caíram em cima dos corações do meu espeto.

*José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

@diariodobolso

 

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS